Inversor solar desliga ao meio-dia por sobretensão: o cabo pode ser o culpado
O app mostra "Grid Overvoltage" justo na hora de maior geração. Antes de culpar a distribuidora, calculei quanto o cabo CA de 4, 6 e 10 mm² soma de tensão nos terminais do inversor.
Onze e quarenta da manhã, céu limpo, a casa deveria estar gerando o máximo do dia. O gráfico do app mostra outra coisa: uma subida bonita até as 10h30, um buraco de 12 minutos, uma subida, outro buraco. No histórico de alarmes, a mesma frase repetida: sobretensão da rede.
A reação padrão é ligar pra distribuidora e xingar a distribuidora. Às vezes ela é mesmo a culpada. Mas em boa parte dos casos que vejo, uma fatia da tensão que derruba o inversor foi somada por dentro da própria casa, pelo cabo que sai do inversor até o quadro.
A versão de 30 segundos
O inversor injeta corrente na rede, e corrente passando por fio faz a tensão subir no ponto de injeção. Se a soma passar do limite de proteção do inversor, ele para, espera um tempo e tenta de novo. Daí os buracos no gráfico. Três lugares podem “empurrar” a tensão pra cima: a rede da rua, o trecho entre o medidor e o quadro, e o cabo entre o quadro e o inversor. Só o último é decisão sua.
Conceito 1: a tensão que chega na sua casa já tem um teto
A rede brasileira não promete 220 V cravados. O Módulo 8 do PRODIST, da ANEEL, divide a tensão em regime permanente em faixa adequada, precária e crítica. Para o nível de 220 V, o guia do Êxito Grid, que reproduz as faixas, traz como adequada o intervalo de 201 V a 231 V; entre 231 V e 233 V é precária, e acima de 233 V é crítica. Confira os valores do seu nível de tensão (127/220 V ou 220/380 V) no texto vigente do Módulo 8, porque a tabela muda conforme a ligação.
Repare no que isso significa: a rua pode legalmente entregar 231 V ao meio-dia e ninguém está errado. O guia da Reonic descreve o mecanismo da hora de pico, quando muitos sistemas injetam no mesmo trecho: a tensão local sobe e pode ultrapassar a faixa adequada, e o inversor entra em proteção e para de gerar.
Exemplo: a rua está em 231 V. Ainda sem nenhum cabo, você já está a poucos volts do limite de muitos equipamentos.
Conceito 2: o inversor tem uma janela, e ela não é a da ANEEL
Cada fabricante ajusta seus limites de sobretensão e subtensão. Um manual de inversores PHB para 220 V, por exemplo, informa faixa de operação entre 176 V e 242 V. Outro modelo da mesma marca declara uma faixa bem mais larga. Ou seja: não existe “o número” do inversor. Existe o número do seu modelo, o do seu firmware e o que a distribuidora aceitou na homologação (o ajuste regional do perfil de rede importa).
Dois efeitos práticos:
- Inversor com janela estreita desliga com rede perfeitamente legal.
- Inversor com janela larga pode ficar gerando com a rede alta, mas isso só esconde o problema do cabo.
Conceito 3: o cabo soma volts, e eu fiz a conta
Esta é a parte que não vi em nenhum guia concorrente. Quando o inversor injeta corrente, a tensão nos terminais dele fica maior que a do quadro. A diferença é a queda no cabo (corrente × resistência de ida e volta).
Montei o cenário: inversor de 5 kW em 220 V, injetando a potência máxima. Corrente aproximada: 5.000 W ÷ 220 V = 22,7 A. Cabo de cobre, resistividade de 0,0172 Ω·mm²/m (valor-padrão a 20 °C; cabo quente piora um pouco), distância de 30 m do quadro ao inversor, ou seja, 60 m de condutor no circuito.
| Seção do cabo | Resistência do circuito | Queda de tensão | Em % de 220 V |
|---|---|---|---|
| 2,5 mm² | 0,41 Ω | 9,4 V | 4,3% |
| 4 mm² | 0,26 Ω | 5,9 V | 2,7% |
| 6 mm² | 0,17 Ω | 3,9 V | 1,8% |
| 10 mm² | 0,10 Ω | 2,3 V | 1,0% |
Agora some com a rua. Se o ponto de entrada está em 231 V, o inversor com cabo de 4 mm² enxerga cerca de 237 V nos terminais. Com 10 mm², cerca de 233 V. Uma janela de proteção que corta em 235 V, por exemplo, manda o primeiro caso desligar todo dia ao meio-dia e o segundo operar normal. Os dois estão ligados à mesma rua.
Eu não tomei esse 235 V de nenhum fabricante: é o exemplo de cálculo. Troque pelo limite do seu inversor, que está no manual.
Se a lógica de queda de tensão lembra a conta do lado CC, é a mesma ideia, e eu detalhei no lado dos módulos em cabo solar de 4 mm² ou 6 mm²: a conta que o integrador raramente faz. A diferença é que no lado CA o prejuízo não é perda de geração por calor: é parada total.
Como separar a culpa: o teste de 10 minutos
Antes de trocar cabo ou reclamar, meça. Um eletricista com multímetro true RMS resolve:
- No horário do desligamento, meça a tensão no barramento do quadro, com o inversor gerando.
- Meça de novo nos terminais CA do inversor, no mesmo instante.
- Compare com o valor que o app registra no momento do alarme.
Se o quadro já está alto (acima de 231 V no nível de 220 V), a origem está na rua ou no trecho do medidor, e o caminho é o registro formal na distribuidora, com as medições e prints do histórico. O guia da Reonic recomenda justamente documentar a tensão e as configurações do inversor no comissionamento, pra embasar conversas futuras. Sobre quem arca com obras na rede quando o problema é do alimentador, veja obras de adequação da rede: quem paga.
Se o quadro está em 225 V e o inversor enxerga 236 V, a diferença está no cabo. Solução: trocar por seção maior ou encurtar o trajeto. Em obra nova, é um custo trivial. Em obra pronta, é conduíte aberto. Pense nisso antes de aceitar a proposta do integrador com a menor seção possível, tema que também aparece em fator de dimensionamento do inversor solar.
Um alerta de leitura: se a tela mostra falha de isolamento e não de tensão, o problema é outro, e tem guia próprio em erro ISO Fault no inversor. E se o inversor desliga porque faltou energia da rua, é anti-ilhamento, o comportamento esperado explicado em por que o painel solar fica sem energia na queda de luz.
Onde esta explicação falha
Três limites honestos:
- Os números da tabela são cenário. Cabo real tem temperatura, emendas, conexões frouxas. Conexão mal apertada num borne gera queda localizada que nenhuma fórmula captura.
- Resistividade a 20 °C é piso. Num eletroduto no sol de verão, a queda sobe alguns por cento.
- Rede da rua com 235 V ou mais não é culpa do cabo. Nesse caso nem 16 mm² resolve. A solução passa pela distribuidora, e isso pode levar semanas.
E um ponto que me incomoda: algumas “soluções” que circulam em grupos, como abrir a janela de proteção do inversor pra ele “aguentar”, mexem justamente na camada de segurança que a concessionária homologou. Quem faz isso por conta própria assume o risco de ser desligado da compensação de energia. Na minha leitura, mexer na janela só se justifica com autorização formal e medição documentada.
Fontes
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


