Pular para o conteúdo
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Solar Brasil SOLAR BRASIL
Equipamentos

Inversor solar desliga ao meio-dia por sobretensão: o cabo pode ser o culpado

O app mostra "Grid Overvoltage" justo na hora de maior geração. Antes de culpar a distribuidora, calculei quanto o cabo CA de 4, 6 e 10 mm² soma de tensão nos terminais do inversor.

Eng. Marcela Vargas 7 min de leitura
Linhas de distribuição de energia sobre telhados residenciais com painéis solares em dia de sol
Linhas de distribuição de energia sobre telhados residenciais com painéis solares em dia de sol

Onze e quarenta da manhã, céu limpo, a casa deveria estar gerando o máximo do dia. O gráfico do app mostra outra coisa: uma subida bonita até as 10h30, um buraco de 12 minutos, uma subida, outro buraco. No histórico de alarmes, a mesma frase repetida: sobretensão da rede.

A reação padrão é ligar pra distribuidora e xingar a distribuidora. Às vezes ela é mesmo a culpada. Mas em boa parte dos casos que vejo, uma fatia da tensão que derruba o inversor foi somada por dentro da própria casa, pelo cabo que sai do inversor até o quadro.

A versão de 30 segundos

O inversor injeta corrente na rede, e corrente passando por fio faz a tensão subir no ponto de injeção. Se a soma passar do limite de proteção do inversor, ele para, espera um tempo e tenta de novo. Daí os buracos no gráfico. Três lugares podem “empurrar” a tensão pra cima: a rede da rua, o trecho entre o medidor e o quadro, e o cabo entre o quadro e o inversor. Só o último é decisão sua.

Conceito 1: a tensão que chega na sua casa já tem um teto

A rede brasileira não promete 220 V cravados. O Módulo 8 do PRODIST, da ANEEL, divide a tensão em regime permanente em faixa adequada, precária e crítica. Para o nível de 220 V, o guia do Êxito Grid, que reproduz as faixas, traz como adequada o intervalo de 201 V a 231 V; entre 231 V e 233 V é precária, e acima de 233 V é crítica. Confira os valores do seu nível de tensão (127/220 V ou 220/380 V) no texto vigente do Módulo 8, porque a tabela muda conforme a ligação.

Repare no que isso significa: a rua pode legalmente entregar 231 V ao meio-dia e ninguém está errado. O guia da Reonic descreve o mecanismo da hora de pico, quando muitos sistemas injetam no mesmo trecho: a tensão local sobe e pode ultrapassar a faixa adequada, e o inversor entra em proteção e para de gerar.

Exemplo: a rua está em 231 V. Ainda sem nenhum cabo, você já está a poucos volts do limite de muitos equipamentos.

Conceito 2: o inversor tem uma janela, e ela não é a da ANEEL

Cada fabricante ajusta seus limites de sobretensão e subtensão. Um manual de inversores PHB para 220 V, por exemplo, informa faixa de operação entre 176 V e 242 V. Outro modelo da mesma marca declara uma faixa bem mais larga. Ou seja: não existe “o número” do inversor. Existe o número do seu modelo, o do seu firmware e o que a distribuidora aceitou na homologação (o ajuste regional do perfil de rede importa).

Dois efeitos práticos:

  • Inversor com janela estreita desliga com rede perfeitamente legal.
  • Inversor com janela larga pode ficar gerando com a rede alta, mas isso só esconde o problema do cabo.

Conceito 3: o cabo soma volts, e eu fiz a conta

Esta é a parte que não vi em nenhum guia concorrente. Quando o inversor injeta corrente, a tensão nos terminais dele fica maior que a do quadro. A diferença é a queda no cabo (corrente × resistência de ida e volta).

Montei o cenário: inversor de 5 kW em 220 V, injetando a potência máxima. Corrente aproximada: 5.000 W ÷ 220 V = 22,7 A. Cabo de cobre, resistividade de 0,0172 Ω·mm²/m (valor-padrão a 20 °C; cabo quente piora um pouco), distância de 30 m do quadro ao inversor, ou seja, 60 m de condutor no circuito.

Seção do caboResistência do circuitoQueda de tensãoEm % de 220 V
2,5 mm²0,41 Ω9,4 V4,3%
4 mm²0,26 Ω5,9 V2,7%
6 mm²0,17 Ω3,9 V1,8%
10 mm²0,10 Ω2,3 V1,0%

Agora some com a rua. Se o ponto de entrada está em 231 V, o inversor com cabo de 4 mm² enxerga cerca de 237 V nos terminais. Com 10 mm², cerca de 233 V. Uma janela de proteção que corta em 235 V, por exemplo, manda o primeiro caso desligar todo dia ao meio-dia e o segundo operar normal. Os dois estão ligados à mesma rua.

Eu não tomei esse 235 V de nenhum fabricante: é o exemplo de cálculo. Troque pelo limite do seu inversor, que está no manual.

Se a lógica de queda de tensão lembra a conta do lado CC, é a mesma ideia, e eu detalhei no lado dos módulos em cabo solar de 4 mm² ou 6 mm²: a conta que o integrador raramente faz. A diferença é que no lado CA o prejuízo não é perda de geração por calor: é parada total.

Como separar a culpa: o teste de 10 minutos

Antes de trocar cabo ou reclamar, meça. Um eletricista com multímetro true RMS resolve:

  1. No horário do desligamento, meça a tensão no barramento do quadro, com o inversor gerando.
  2. Meça de novo nos terminais CA do inversor, no mesmo instante.
  3. Compare com o valor que o app registra no momento do alarme.

Se o quadro já está alto (acima de 231 V no nível de 220 V), a origem está na rua ou no trecho do medidor, e o caminho é o registro formal na distribuidora, com as medições e prints do histórico. O guia da Reonic recomenda justamente documentar a tensão e as configurações do inversor no comissionamento, pra embasar conversas futuras. Sobre quem arca com obras na rede quando o problema é do alimentador, veja obras de adequação da rede: quem paga.

Se o quadro está em 225 V e o inversor enxerga 236 V, a diferença está no cabo. Solução: trocar por seção maior ou encurtar o trajeto. Em obra nova, é um custo trivial. Em obra pronta, é conduíte aberto. Pense nisso antes de aceitar a proposta do integrador com a menor seção possível, tema que também aparece em fator de dimensionamento do inversor solar.

Um alerta de leitura: se a tela mostra falha de isolamento e não de tensão, o problema é outro, e tem guia próprio em erro ISO Fault no inversor. E se o inversor desliga porque faltou energia da rua, é anti-ilhamento, o comportamento esperado explicado em por que o painel solar fica sem energia na queda de luz.

Onde esta explicação falha

Três limites honestos:

  • Os números da tabela são cenário. Cabo real tem temperatura, emendas, conexões frouxas. Conexão mal apertada num borne gera queda localizada que nenhuma fórmula captura.
  • Resistividade a 20 °C é piso. Num eletroduto no sol de verão, a queda sobe alguns por cento.
  • Rede da rua com 235 V ou mais não é culpa do cabo. Nesse caso nem 16 mm² resolve. A solução passa pela distribuidora, e isso pode levar semanas.

E um ponto que me incomoda: algumas “soluções” que circulam em grupos, como abrir a janela de proteção do inversor pra ele “aguentar”, mexem justamente na camada de segurança que a concessionária homologou. Quem faz isso por conta própria assume o risco de ser desligado da compensação de energia. Na minha leitura, mexer na janela só se justifica com autorização formal e medição documentada.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

Continue lendo · Equipamentos

Ver tudo →