Comprar o kit solar por conta própria e contratar só a mão de obra: vale a pena?
Vídeo de YouTube promete economia de 30% comprando o kit no marketplace e pagando o instalador só pra montar. A conta real tem três pegadinhas que o vídeo não conta — e uma delas pode te deixar sem garantia.
Tem um gênero inteiro de vídeo no YouTube que vende a mesma ideia: “compre o kit você mesmo no marketplace, pague um eletricista só pra subir no telhado e economize 30%”. Os números na tela são bonitos. Kit de 6 kWp por R$ 11 mil, mão de obra por R$ 3 mil, total R$ 14 mil — contra os R$ 22 mil que o integrador pediu. Oito mil reais no bolso, diz o narrador.
Eu já dimensionei sistema pra cliente que tentou esse caminho. A economia, quando existe, é metade do prometido. E em pelo menos um caso ela virou prejuízo.
A tese
Comprar o kit separado e contratar só a mão de obra pode economizar — mas só pra um perfil muito específico de comprador, e quase nunca pelo valor que o vídeo promete. Pra 80% das pessoas que me perguntam isso, o desconto real cabe num jantar e o risco assumido não cabe na conta.
Vou pelas três pegadinhas.
Pegadinha 1: o “preço do kit” não é o preço do sistema
O número que seduz no vídeo é o preço do kit no marketplace. Painéis, inversor, estrutura, alguns cabos. Parece o sistema inteiro. Não é.
O orçamento de um integrador sério inclui itens que somem da sua lista quando você compra peça por peça: string box com DPS e disjuntores DC dimensionados, cabeamento solar 6 mm² na metragem real do seu telhado (não a sobra do kit), aterramento, conectores MC4 originais, adequação do padrão de entrada se for o caso, e o projeto elétrico assinado. Cada um desses tem custo, e você só descobre quando o eletricista chega e diz “isso aqui não veio”.
Na prática, o que eu vejo: o kit de R$ 11 mil precisa de mais R$ 2,5 a R$ 4 mil em material complementar que ninguém somou. Some a mão de obra (que pra um sistema feito “por fora”, sem o instalador ter comprado nada, costuma sair mais cara, R$ 4 a R$ 6 mil), e o seu “R$ 14 mil” virou R$ 18 a R$ 21 mil. O desconto de 30% virou 5 a 10%.
Se você quiser ver onde o dinheiro do orçamento fechado realmente vai, escrevi sobre o que vem incluso num kit solar de 4 kWp de verdade — vale conferir antes de comparar listas.
Pegadinha 2: a garantia se fragmenta — e some no pior momento
Essa é a que mais dói, e a que nenhum vídeo menciona.
Quando você compra do integrador, a garantia é uma só: deu problema, você liga pra ele. Trincou o módulo no transporte? Problema dele. Inversor não comunica? Problema dele. Vazou no furo da fixação? Problema dele. Existe um responsável.
Quando você compra o kit no marketplace e contrata a mão de obra à parte, a garantia se parte em pedaços. O módulo é garantia do fabricante (que você vai acionar sozinho, em chinês traduzido). O inversor, idem. A fixação e a instalação são do eletricista. E aí acontece o que eu já vi: o inversor falha, o fabricante diz que foi instalação errada, o eletricista diz que o produto veio com defeito, e você fica no meio segurando dois “não é comigo”. Sem nota de serviço amarrada ao equipamento, sem laudo, sem ninguém pra responsabilizar de forma única.
O furo da garantia de mão de obra é tão comum que tem post inteiro nosso só sobre como funciona a garantia de mão de obra pós-instalação. Leia antes de assumir que “o eletricista garante”.
Pegadinha 3: quem assina a ART quando o kit é seu?
Aqui mora o risco que pode invalidar tudo. A distribuidora não homologa sistema sem responsável técnico — precisa de projeto e ART de um engenheiro ou técnico habilitado. Comprar o kit não te transforma em responsável técnico. Você continua precisando de alguém com registro pra projetar e responder pelo sistema.
O eletricista que você contratou “só pra montar” tem ART? Ele vai assinar o projeto de um kit que ele não escolheu nem dimensionou? Muitos não assinam — e com razão, porque estariam se responsabilizando por equipamento que não especificaram. Sem ART e projeto, a distribuidora não homologa, e sistema não homologado não gera crédito de energia: você produz e injeta de graça pra rede.
Esse descasamento entre quem instala e quem responde tecnicamente é exatamente o problema que detalhei em quem assina a ART nem sempre é quem instala. No modelo “kit próprio”, esse buraco aparece logo na primeira semana.
O contra-argumento honesto
Tem gente pra quem esse caminho faz sentido, e eu não vou fingir que não.
Se você é engenheiro eletricista ou técnico habilitado, tem ART pra assinar o próprio projeto, sabe dimensionar string e MPPT, e tem braço pra subir no telhado — então sim, comprar o kit e fazer com sua equipe corta a margem do integrador inteira. Conheço profissionais do setor que fazem o próprio sistema assim e economizam de verdade. O desconto é real quando você é o responsável técnico, não quando você terceiriza o risco pra um eletricista que aceitou montar sem assinar nada.
Pra esse perfil, a conta fecha. Pra o dono de casa que só viu um vídeo e achou que ia “economizar montando móvel”, não fecha.
Onde isso te leva
Minha leitura, depois de ver os dois lados: na maioria dos casos residenciais, o modelo “kit próprio + mão de obra avulsa” troca um desconto pequeno (5 a 10% real) por um risco grande (garantia fragmentada e homologação travada). É um mau negócio disfarçado de esperteza.
Se o que te incomoda é o preço do integrador, o caminho honesto não é cortar o responsável técnico — é negociar melhor com ele. Peça orçamento detalhado item a item, compare o preço/Wp com o mercado, e descubra onde está a gordura. A diferença de preço entre um instalador pequeno e uma integradora grande costuma explicar mais do que o modelo de compra.
E se mesmo assim você quiser o kit próprio, faça uma exigência inegociável antes de comprar qualquer coisa: ache primeiro o responsável técnico que vai assinar a ART e homologar, e deixe ele validar o kit que você pretende comprar. Sem isso, você está comprando um telhado de equipamento sem ninguém pra responder por ele.
Fontes
- ANEEL — Resolução Normativa nº 1.000/2021 (regras de microgeração e exigência de responsável técnico para conexão): https://www.aneel.gov.br
- CONFEA — Resolução nº 1.025/2009, Anotação de Responsabilidade Técnica (ART): https://www.confea.org.br
- INMETRO — Portaria nº 140/2022, requisitos de avaliação da conformidade para equipamentos fotovoltaicos: https://www.gov.br/inmetro
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


