Telhado de fibrocimento com amianto e solar: o que o instalador é obrigado a checar — e o silêncio que custa caro
Boa parte dos telhados de fibrocimento instalados antes de 2010 contém amianto crisotila. Furar essa telha para fixar o sistema solar sem protocolo específico é risco sanitário, legal e de garantia. O que a NR-15, a Lei 9.055/1995 e a NBR 16690 dizem — e o que o integrador raramente menciona.
O orçamento chegou com tudo descrito em detalhe: marca do painel, potência do inversor, tipo de estrutura de fixação, prazo, garantia. O que não aparecia em nenhuma das três propostas que o Carlos recebeu, em Ribeirão Preto, era uma linha sequer sobre o telhado de fibrocimento da casa — construída em 1998, com as telhas originais. Todos os três integradores olharam pro telhado, fizeram a medição e foram embora sem tocar no assunto.
Quando o Carlos perguntou diretamente a um deles se havia algum procedimento especial, a resposta foi: “Fibrocimento é tranquilo, a gente trabalha com isso todo dia.”
Essa resposta está tecnicamente incompleta. E o silêncio que ela representa é o tema deste post.
A tese
Telhado de fibrocimento com amianto crisotila não é impedimento absoluto para solar — mas exige protocolo que 90% dos integradores residenciais não seguem, não documentam e não alertam o cliente. E quando algo dá errado, quem fica com o risco sanitário e jurídico é o dono do imóvel.
Evidência 1 — O amianto não sumiu do Brasil em 1995
A Lei 9.055 de 1995 proibiu o uso do amianto anfibólio (o mais cancerígeno) mas permitiu o crisotila até nova regulamentação. O STF só declarou a inconstitucionalidade plena da comercialização do crisotila em 2017, via ADI 3.937. Ou seja: tudo que foi construído entre 1995 e 2017 com fibrocimento “permitido” pode conter crisotila — e antes de 1995, é quase certeza.
A ABNT NBR 16929 e a Resolução CONAMA 307 regulam o descarte de resíduos de construção com amianto como Classe D (resíduo perigoso). Isso inclui a poeira gerada ao furar, serrar ou romper telhas de fibrocimento com crisotila — mesma poeira que o instalador vai produzir ao fixar os parafusos de ancoragem da estrutura solar.
Estima-se que cerca de 60% dos imóveis residenciais brasileiros construídos antes de 2010 tenham algum tipo de cobertura com fibrocimento, segundo dados do setor de construção civil consolidados pelo SindusCon-SP. Uma parcela relevante desses telhados ainda contém crisotila — especialmente no interior e no Centro-Oeste, onde as construções mais antigas predominam.
Evidência 2 — A NBR 16690 e a NR-15 dizem coisas que o integrador não repete
A NBR 16690:2019 (Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos) não trata especificamente de amianto, mas impõe ao responsável técnico a obrigação de analisar o estado da cobertura antes do projeto. Telha degradada, frágil ou com risco de ruptura invalida qualquer levantamento de carga estrutural.
A NR-15 (Atividades e Operações Insalubres), Anexo 12, classifica o trabalho com fibras de amianto como atividade de insalubridade máxima — grau 40% sobre o salário mínimo. Isso vale para os trabalhadores que furem ou manipulem as telhas. Um instalador que trabalha sem EPI adequado (respirador PFF-2, macacão descartável Tyvek, vedação do perímetro) está em situação ilegal — e a fiscalização recai tanto sobre a empresa quanto sobre o tomador do serviço, que é você, o dono da casa.
O problema prático: a maioria dos integradores residenciais não tem equipe treinada e equipada para trabalho com amianto. A solução que costumam adotar é não tocar no assunto e trabalhar como se o fibrocimento fosse “comum”. Legalmente, isso é negligência documentável.
Se surgir qualquer processo trabalhista — ou problema de saúde ocupacional posterior ao serviço — e você tiver autorizado e pago a obra sem registrar nenhuma diligência, pode ser corresponsabilizado.
Evidência 3 — Furar errado quebra a telha, a garantia e a estanqueidade
Além do risco sanitário, há um problema construtivo concreto. Telhado de fibrocimento com amianto envelhece diferente do fibrocimento sem amianto: a matriz de cimento fica mais friável com o tempo, a resistência à tração cai e a telha absorve mais água.
Furar nesse material com broca de impacto — como boa parte das equipes faz — gera microfissuras ao redor do furo. Microfissura vira infiltração em 18 a 36 meses, dependendo da incidência de chuva. E infiltração em telhado com painel solar é difícil de detectar porque o módulo cobre exatamente o ponto de entrada d’água.
Eu comparei dois orçamentos recebidos por um leitor do Solar Brasil em Goiânia, em maio de 2026. O primeiro integrador cotou estrutura de alumínio com parafusos de expansão diretamente na telha. O segundo cotou o mesmo sistema, mas adicionou R$ 480 em “adaptadores de fixação sem perfuração direta” (ganchos com vedação expansiva que distribuem carga na cumeeira sem furar a telha em si). Diferença de custo: menos de 2% do valor do projeto. Diferença de risco: considerável.
A segunda proposta existia. O cliente nunca soube da primeira por que furar é mais rápido e o integrador não quis perder o negócio explicando a diferença.
O contra-argumento honesto
A indústria de instalação solar vai dizer — com razão parcial — que muitos telhados de fibrocimento com crisotila são estáveis, que a poeira só é liberada em quantidade significativa quando a telha está muito deteriorada e que, na prática, obras cuidadosas não geram risco mensurável.
Há alguma verdade nisso. Telha em bom estado, fixação por ganchos sem perfuração ou perfuração úmida controlada (técnica que molha o ponto de corte para suprimir poeira), com respiradores adequados — o risco individual cai bastante. Isso é reconhecido até por pesquisadores que estudam exposição ocupacional a fibras de amianto.
O problema não é o risco em condições ideais. O problema é que “condições ideais” dependem de informação que o integrador não repassa, equipamento que ele não usa e documentação que ele não registra. Quando tudo corre bem, o assunto some. Quando algo dá errado — um trabalhador adoece anos depois, a telha racha, a infiltração aparece — a ausência de protocolo documentado vira evidência contra todos os envolvidos.
Onde isso te leva
Antes de fechar orçamento solar com telhado de fibrocimento antigo, três ações práticas:
Confirme se há amianto. Peça ao instalador um laudo simples (análise visual por profissional habilitado ou, em caso de dúvida, análise de fibra por microscopia). Se o imóvel foi construído antes de 2010 e as telhas são originais, a probabilidade de crisotila é alta o suficiente para justificar a diligência.
Exija no contrato o tipo de fixação e o protocolo de EPI. Ganchos sem perfuração direta ou parafusos com perfuração úmida, respirador PFF-2 e descarte correto de resíduos como Classe D. Se o integrador resistir a colocar isso no papel — leia esse sinal como você leria qualquer outra red flag que examinamos em como identificar as principais red flags em orçamentos de instalador solar.
Verifique a certificação da equipe. A NBR 16690 exige que o responsável técnico conheça as condições da cobertura. Para telhados com amianto, isso inclui treinamento específico. Peça o comprovante. O checklist de certificações mínimas (NR-10, NR-35, NBR 16690) que publicamos em certificações que o instalador solar precisa ter — e como conferir cobre os documentos que você pode exigir por escrito.
Um detalhe que muda a conta de payback: se o telhado precisar de reforço estrutural ou troca de telhas antes da instalação, esse custo precisa entrar na planilha. Como calcular o payback real do solar — com os 4 erros que inflam o resultado tem a fórmula correta para incluir esse tipo de despesa pre-instalação e não distorcer o resultado.
O integrador honesto vai levantar o assunto antes de você precisar perguntar. O que não levanta — talvez valha um segundo orçamento antes de fechar.
Além das três referências acima, outros posts desta categoria tratam da verificação de reputação do instalador: como investigar a reputação de um instalador antes de assinar cobre o passo a passo de CNPJ, Reclame Aqui e processos — útil para confirmar se o instalador tem histórico de reclamações relacionadas a danos em cobertura.
Fontes
- STF — ADI 3.937 (2017): Declaração de inconstitucionalidade da comercialização de amianto crisotila no Brasil. Disponível em portal.stf.jus.br.
- Lei 9.055/1995 — Presidência da República: Disciplina a extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte do asbesto/amianto. Disponível em planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9055.htm.
- ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos. Disponível para compra no abntcatalogo.com.br.
- NR-15 — Ministério do Trabalho e Emprego: Atividades e operações insalubres, Anexo 12 (Trabalho com fibras de amianto). Disponível em gov.br/trabalho-e-emprego.
- Resolução CONAMA 307/2002 e atualizações: Classificação de resíduos de construção civil, incluindo Classe D (resíduo perigoso com amianto). Disponível em ibama.gov.br.
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


