segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Telhado de fibrocimento com amianto e solar: o que o instalador é obrigado a checar — e o silêncio que custa caro

Boa parte dos telhados de fibrocimento instalados antes de 2010 contém amianto crisotila. Furar essa telha para fixar o sistema solar sem protocolo específico é risco sanitário, legal e de garantia. O que a NR-15, a Lei 9.055/1995 e a NBR 16690 dizem — e o que o integrador raramente menciona.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Técnico inspecionando telhado de fibrocimento antes de instalar sistema solar, com equipamentos de proteção individual
Técnico inspecionando telhado de fibrocimento antes de instalar sistema solar, com equipamentos de proteção individual

O orçamento chegou com tudo descrito em detalhe: marca do painel, potência do inversor, tipo de estrutura de fixação, prazo, garantia. O que não aparecia em nenhuma das três propostas que o Carlos recebeu, em Ribeirão Preto, era uma linha sequer sobre o telhado de fibrocimento da casa — construída em 1998, com as telhas originais. Todos os três integradores olharam pro telhado, fizeram a medição e foram embora sem tocar no assunto.

Quando o Carlos perguntou diretamente a um deles se havia algum procedimento especial, a resposta foi: “Fibrocimento é tranquilo, a gente trabalha com isso todo dia.”

Essa resposta está tecnicamente incompleta. E o silêncio que ela representa é o tema deste post.

A tese

Telhado de fibrocimento com amianto crisotila não é impedimento absoluto para solar — mas exige protocolo que 90% dos integradores residenciais não seguem, não documentam e não alertam o cliente. E quando algo dá errado, quem fica com o risco sanitário e jurídico é o dono do imóvel.

Evidência 1 — O amianto não sumiu do Brasil em 1995

A Lei 9.055 de 1995 proibiu o uso do amianto anfibólio (o mais cancerígeno) mas permitiu o crisotila até nova regulamentação. O STF só declarou a inconstitucionalidade plena da comercialização do crisotila em 2017, via ADI 3.937. Ou seja: tudo que foi construído entre 1995 e 2017 com fibrocimento “permitido” pode conter crisotila — e antes de 1995, é quase certeza.

A ABNT NBR 16929 e a Resolução CONAMA 307 regulam o descarte de resíduos de construção com amianto como Classe D (resíduo perigoso). Isso inclui a poeira gerada ao furar, serrar ou romper telhas de fibrocimento com crisotila — mesma poeira que o instalador vai produzir ao fixar os parafusos de ancoragem da estrutura solar.

Estima-se que cerca de 60% dos imóveis residenciais brasileiros construídos antes de 2010 tenham algum tipo de cobertura com fibrocimento, segundo dados do setor de construção civil consolidados pelo SindusCon-SP. Uma parcela relevante desses telhados ainda contém crisotila — especialmente no interior e no Centro-Oeste, onde as construções mais antigas predominam.

Evidência 2 — A NBR 16690 e a NR-15 dizem coisas que o integrador não repete

A NBR 16690:2019 (Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos) não trata especificamente de amianto, mas impõe ao responsável técnico a obrigação de analisar o estado da cobertura antes do projeto. Telha degradada, frágil ou com risco de ruptura invalida qualquer levantamento de carga estrutural.

A NR-15 (Atividades e Operações Insalubres), Anexo 12, classifica o trabalho com fibras de amianto como atividade de insalubridade máxima — grau 40% sobre o salário mínimo. Isso vale para os trabalhadores que furem ou manipulem as telhas. Um instalador que trabalha sem EPI adequado (respirador PFF-2, macacão descartável Tyvek, vedação do perímetro) está em situação ilegal — e a fiscalização recai tanto sobre a empresa quanto sobre o tomador do serviço, que é você, o dono da casa.

O problema prático: a maioria dos integradores residenciais não tem equipe treinada e equipada para trabalho com amianto. A solução que costumam adotar é não tocar no assunto e trabalhar como se o fibrocimento fosse “comum”. Legalmente, isso é negligência documentável.

Se surgir qualquer processo trabalhista — ou problema de saúde ocupacional posterior ao serviço — e você tiver autorizado e pago a obra sem registrar nenhuma diligência, pode ser corresponsabilizado.

Evidência 3 — Furar errado quebra a telha, a garantia e a estanqueidade

Além do risco sanitário, há um problema construtivo concreto. Telhado de fibrocimento com amianto envelhece diferente do fibrocimento sem amianto: a matriz de cimento fica mais friável com o tempo, a resistência à tração cai e a telha absorve mais água.

Furar nesse material com broca de impacto — como boa parte das equipes faz — gera microfissuras ao redor do furo. Microfissura vira infiltração em 18 a 36 meses, dependendo da incidência de chuva. E infiltração em telhado com painel solar é difícil de detectar porque o módulo cobre exatamente o ponto de entrada d’água.

Eu comparei dois orçamentos recebidos por um leitor do Solar Brasil em Goiânia, em maio de 2026. O primeiro integrador cotou estrutura de alumínio com parafusos de expansão diretamente na telha. O segundo cotou o mesmo sistema, mas adicionou R$ 480 em “adaptadores de fixação sem perfuração direta” (ganchos com vedação expansiva que distribuem carga na cumeeira sem furar a telha em si). Diferença de custo: menos de 2% do valor do projeto. Diferença de risco: considerável.

A segunda proposta existia. O cliente nunca soube da primeira por que furar é mais rápido e o integrador não quis perder o negócio explicando a diferença.

O contra-argumento honesto

A indústria de instalação solar vai dizer — com razão parcial — que muitos telhados de fibrocimento com crisotila são estáveis, que a poeira só é liberada em quantidade significativa quando a telha está muito deteriorada e que, na prática, obras cuidadosas não geram risco mensurável.

Há alguma verdade nisso. Telha em bom estado, fixação por ganchos sem perfuração ou perfuração úmida controlada (técnica que molha o ponto de corte para suprimir poeira), com respiradores adequados — o risco individual cai bastante. Isso é reconhecido até por pesquisadores que estudam exposição ocupacional a fibras de amianto.

O problema não é o risco em condições ideais. O problema é que “condições ideais” dependem de informação que o integrador não repassa, equipamento que ele não usa e documentação que ele não registra. Quando tudo corre bem, o assunto some. Quando algo dá errado — um trabalhador adoece anos depois, a telha racha, a infiltração aparece — a ausência de protocolo documentado vira evidência contra todos os envolvidos.

Onde isso te leva

Antes de fechar orçamento solar com telhado de fibrocimento antigo, três ações práticas:

Confirme se há amianto. Peça ao instalador um laudo simples (análise visual por profissional habilitado ou, em caso de dúvida, análise de fibra por microscopia). Se o imóvel foi construído antes de 2010 e as telhas são originais, a probabilidade de crisotila é alta o suficiente para justificar a diligência.

Exija no contrato o tipo de fixação e o protocolo de EPI. Ganchos sem perfuração direta ou parafusos com perfuração úmida, respirador PFF-2 e descarte correto de resíduos como Classe D. Se o integrador resistir a colocar isso no papel — leia esse sinal como você leria qualquer outra red flag que examinamos em como identificar as principais red flags em orçamentos de instalador solar.

Verifique a certificação da equipe. A NBR 16690 exige que o responsável técnico conheça as condições da cobertura. Para telhados com amianto, isso inclui treinamento específico. Peça o comprovante. O checklist de certificações mínimas (NR-10, NR-35, NBR 16690) que publicamos em certificações que o instalador solar precisa ter — e como conferir cobre os documentos que você pode exigir por escrito.

Um detalhe que muda a conta de payback: se o telhado precisar de reforço estrutural ou troca de telhas antes da instalação, esse custo precisa entrar na planilha. Como calcular o payback real do solar — com os 4 erros que inflam o resultado tem a fórmula correta para incluir esse tipo de despesa pre-instalação e não distorcer o resultado.

O integrador honesto vai levantar o assunto antes de você precisar perguntar. O que não levanta — talvez valha um segundo orçamento antes de fechar.

Além das três referências acima, outros posts desta categoria tratam da verificação de reputação do instalador: como investigar a reputação de um instalador antes de assinar cobre o passo a passo de CNPJ, Reclame Aqui e processos — útil para confirmar se o instalador tem histórico de reclamações relacionadas a danos em cobertura.


Fontes

  1. STF — ADI 3.937 (2017): Declaração de inconstitucionalidade da comercialização de amianto crisotila no Brasil. Disponível em portal.stf.jus.br.
  2. Lei 9.055/1995 — Presidência da República: Disciplina a extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte do asbesto/amianto. Disponível em planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9055.htm.
  3. ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos. Disponível para compra no abntcatalogo.com.br.
  4. NR-15 — Ministério do Trabalho e Emprego: Atividades e operações insalubres, Anexo 12 (Trabalho com fibras de amianto). Disponível em gov.br/trabalho-e-emprego.
  5. Resolução CONAMA 307/2002 e atualizações: Classificação de resíduos de construção civil, incluindo Classe D (resíduo perigoso com amianto). Disponível em ibama.gov.br.
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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

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