Mercado solar vai cair 7% em 2026 — e o residencial não é a vítima que parece
A ABSOLAR projeta o 2º ano seguido de queda no solar. Mas os 55 mil sistemas de maio contam outra história para quem vai instalar em casa.
Todo headline da semana diz a mesma coisa: o mercado solar brasileiro vai encolher de novo em 2026. A ABSOLAR projeta 10,6 GW de adição no ano, contra 11,4 GW em 2025 — uma queda de 7% que vem em cima de uma queda de 24% no ano anterior. A leitura fácil é “o solar esfriou”. A leitura fácil está olhando para o número errado.
A tese
A retração de 7% é quase toda da geração centralizada — usinões que apanham de curtailment sem compensação. Para quem vai botar painel no telhado de casa em maio de 2026, o cenário é o melhor da história em preço de equipamento, e o gargalo real não é demanda: é a distribuidora dizendo “não tem rede”. Tratar os dois como o mesmo problema é o erro de leitura que vai te fazer adiar uma instalação que paga.
Vou pelas três evidências.
Evidência 1: o número de maio desmente o “esfriou”
Segundo o balanço de geração distribuída divulgado com base em dados da ANEEL, só em maio de 2026 entraram em operação cerca de 55,5 mil usinas solares, somando aproximadamente 523 MW de potência em um único mês. O acumulado até 31 de maio chegou a 3,59 milhões de sistemas conectados e potência instalada perto de 40,45 GW na geração distribuída.
Mês com 55 mil novas instalações residenciais e comerciais não é mercado morto. É mercado que continua adicionando, só que num ritmo um pouco menor que o pico de 2024 — quando havia corrida para “ligar antes do Fio B subir”.
| Indicador | 2024 | 2025 | 2026 (proj. ABSOLAR) |
|---|---|---|---|
| Adição anual de potência | ~15 GW | 11,4 GW | 10,6 GW |
| Variação ano a ano | — | −24% | −7% |
| Investimento no setor | — | ~R$ 40 bi | R$ 31,8 bi |
| Empregos novos | — | 396,5 mil | 319,9 mil |
Fontes: ABSOLAR (projeção divulgada em 10/12/2025) e balanço de geração distribuída com base em dados da ANEEL (maio/2026).
Repare na desaceleração da própria queda: de −24% para −7%. A derivada está virando. Não é colapso — é acomodação depois de uma bolha regulatória.
Evidência 2: a queda é centralizada, não residencial
A ABSOLAR é explícita sobre os motivos da retração de 2026, e nenhum deles é “consumidor parou de querer solar”. Os dois principais:
- Curtailment sem compensação nas grandes usinas — o operador manda cortar geração e o gerador não é ressarcido. Isso destrói o caso financeiro de projeto centralizado, não de telhado residencial.
- Negativas de conexão à rede na geração distribuída, justificadas por “inversão de fluxo” e incapacidade das linhas de distribuição.
O primeiro motivo é problema de quem investe em usina de dezenas de MW. O segundo, sim, atinge o residencial — mas é um problema de oferta de rede, não de apetite do consumidor. Tem gente querendo instalar e a distribuidora segurando o parecer de acesso. Isso é o oposto de demanda fraca.
A própria projeção acumulada da ABSOLAR diz isso nas entrelinhas: 75,9 GW até o fim de 2026, sendo 51,8 GW de geração distribuída contra 24,1 GW de centralizada. A GD continua sendo o motor — só está pedalando contra um freio de infraestrutura.
Evidência 3: o preço do equipamento nunca esteve tão a favor
Enquanto o noticiário fala de retração, o custo de quem instala caiu. Levantamentos de mercado de 2026 apontam queda de cerca de 15% no preço de painéis frente a 2025, com módulos de 550 W na faixa de R$ 550 a R$ 750 e sistema residencial de 5 kWp instalado entre R$ 17,5 mil e R$ 25 mil.
Junte as peças: equipamento mais barato, instaladores mais maduros, e uma janela de Fio B em 60% que ainda não é o teto de 90% que vem em 2029. Para o consumidor residencial, “mercado em queda” e “péssimo momento para instalar” não são a mesma frase. Frequentemente são frases opostas — porque retração de investimento agregado costuma vir junto com pressão de preço para baixo.
O detalhe do perfil que confirma a tese
O mesmo balanço de geração distribuída traz a composição por classe de consumo, e ela reforça o ponto. Dos sistemas em operação, os consumidores residenciais respondem por cerca de 80% das usinas (perto de 2,9 milhões), o comércio por ~10% (cerca de 358 mil) e a classe rural por ~8,5% (cerca de 307 mil). Quem segura o número de novas conexões mês a mês é o residencial — exatamente o segmento que o discurso de “mercado em queda” trata como o que está recuando.
Não está recuando por falta de interesse. Está limitado, na ponta, por dois freios distintos: o macro (menos investimento agregado, consolidação de integradores) e o de infraestrutura (negativa de conexão em alimentador saturado). O primeiro é ruído de manchete para quem vai instalar uma casa; o segundo é o que de fato precisa ser checado antes de comprar. Confundir os dois é o erro de leitura que custa meses de adiamento desnecessário.
O contra-argumento honesto
A queda não é totalmente inofensiva para o residencial, e eu seria desonesto se dissesse que é. Menos investimento agregado e R$ 31,8 bilhões em 2026 (contra ~R$ 40 bi em 2025) significam menos integradores no mercado, consolidação, e o risco real de você fechar com uma empresa que não existirá para honrar a garantia em 2032. As negativas de conexão também são concretas: em algumas distribuidoras, o parecer de acesso virou gargalo de meses.
Ou seja: o cenário macro não é desculpa para não instalar, mas é motivo de sobra para escolher integrador com lastro e checar a capacidade de conexão do seu alimentador antes de assinar.
Onde isso te leva
Se você lê “mercado solar cai 7%” e entende “vou esperar o mercado melhorar”, você leu o gráfico errado. O gráfico que importa para você não é o de investimento agregado nacional — é o do preço do kit no seu CEP e o do parecer de acesso da sua distribuidora.
Minha leitura, sem rodeio: a retração de 2026 é uma história de usina grande e de rede de distribuição saturada. A parte residencial do mercado está mais barata e mais madura do que estava no pico. O risco que mudou de lugar não é “vale a pena?” — é “com quem eu fecho e a minha distribuidora me deixa conectar?”. Resolva esses dois e o macro não é seu problema.
Fontes
- ABSOLAR — Projeção de retração de 7% do mercado solar em 2026 (divulgada em 10/12/2025), via Canal Solar e PV Magazine Brasil
- Balanço de micro e minigeração distribuída com base em dados abertos da ANEEL — acumulado e mês de maio/2026
- ABSOLAR — Projeção de capacidade acumulada (75,9 GW até fim de 2026)
- Levantamento de preços de kit solar residencial — mercado brasileiro, maio/2026
- ANEEL — Relação de empreendimentos de micro e minigeração distribuída (Dados Abertos)
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


