Reajustes de tarifa elétrica em 2026: o que a ANEEL já aprovou e o que muda no payback do seu solar
Seis distribuidoras tiveram reajuste aprovado pela ANEEL entre janeiro e junho de 2026. Jhonathan Meireles mostra os percentuais reais, calcula o impacto no payback de quem ainda não tem solar e explica por que quem já tem se beneficia mais.
Entre janeiro e junho de 2026, a ANEEL aprovou reajustes tarifários para pelo menos seis grandes distribuidoras — CEMIG, CELESC, ENEL SP (agora Enel/Energisa), COPEL, ENERGISA MT e COELBA. Os percentuais variam, mas a direção é a mesma: tarifa residencial subindo. Para quem tem solar, isso é uma notícia boa — cada centavo a mais na tarifa encurta o payback do sistema existente. Para quem ainda não tem, a conta da espera fica mais cara a cada ciclo de reajuste.
Os reajustes aprovados pela ANEEL no primeiro semestre de 2026
A ANEEL publica os Atos Homologatórios de Reajuste no Diário Oficial da União. Os principais do primeiro semestre de 2026, para a subclasse residencial B1 (a que a maioria dos usuários de solar se enquadra):
| Distribuidora | Estado | Reajuste médio aprovado | Vigência |
|---|---|---|---|
| CEMIG-D | MG | 8,4% | Abril/2026 |
| CELESC-D | SC | 6,1% | Março/2026 |
| COPEL | PR | 7,2% | Fevereiro/2026 |
| COELBA | BA | 9,8% | Maio/2026 |
| ENERGISA MT | MT | 11,3% | Janeiro/2026 |
| Enel SP (Energisa) | SP | 5,9% | Junho/2026 |
Fonte: ANEEL — Atos Homologatórios de Reajuste Tarifário, 2026. Os percentuais são “reajuste médio” — a variação real por consumidor depende do perfil de consumo e subgrupo tarifário.
O destaque é a ENERGISA MT, que acumula os maiores reajustes históricos da região Centro-Oeste desde 2021, refletindo uma combinação de investimentos na rede e perdas técnicas e comerciais elevadas. Para o consumidor de Cuiabá ou Sinop, a tarifa B1 hoje está em torno de R$ 0,85/kWh — e o payback do solar na região, mesmo com o TUSD-Fio B parcial da Lei 14.300/22, segue entre os mais rápidos do País.
Como o reajuste muda o payback — o cálculo em 3 cenários
Para entender o impacto financeiro, refiz o cálculo de payback para um sistema residencial típico de 5 kWp em três distribuidoras diferentes. Usei:
- Geração estimada: 600 kWh/mês (autoconsumo 100%)
- Custo do sistema instalado: R$ 22.000 (capital próprio, sem financiamento)
- Degradação anual dos módulos: 0,5%
- Sem bandeira tarifária (mês referência)
Cenário 1 — Curitiba (COPEL, tarifa B1 pós-reajuste: R$ 0,81/kWh)
Economia mensal: 600 × R$ 0,81 = R$ 486/mês. Payback simples: R$ 22.000 / R$ 486 = 45,3 meses (3,8 anos). Com a tarifa anterior ao reajuste de 7,2% (R$ 0,75/kWh), o payback seria 4,1 anos.
A diferença: 0,3 ano. Parece pouco. Mas multiplicada pela vida útil de 25 anos do sistema, o retorno adicional sobre o investimento é de R$ 3.200 só pelo efeito do reajuste de 2026.
Cenário 2 — Belo Horizonte (CEMIG, tarifa B1 pós-reajuste: R$ 0,79/kWh)
Economia mensal: 600 × R$ 0,79 = R$ 474/mês. Payback simples: R$ 22.000 / R$ 474 = 46,4 meses (3,9 anos).
Cenário 3 — Cuiabá (ENERGISA MT, tarifa B1 pós-reajuste: R$ 0,85/kWh)
Economia mensal: 600 × R$ 0,85 = R$ 510/mês. Payback simples: R$ 22.000 / R$ 510 = 43,1 meses (3,6 anos).
O que esses números mostram: reajuste de tarifa sempre beneficia o prossumidor existente (mais economia por kWh compensado) e sempre torna o solar mais atrativo para quem está decidindo agora. A direção é linear — e os reajustes no Brasil historicamente superam a inflação IPCA na maioria dos anos, especialmente nas distribuidoras com alta dependência hídrica.
Para entender como calcular esse payback com os números específicos da sua distribuidora, veja como calcular o payback solar passo a passo sem errar.
O que os reajustes de 2026 dizem sobre os próximos anos
A composição tarifária no Brasil tem três grandes componentes: custos de geração (energia comprada pela distribuidora), encargos setoriais (como o CDE, a CCC e o PROINFA) e os custos de rede (TUSD, que inclui o famoso Fio B que afeta o prossumidor solar pela Lei 14.300/22).
Em 2026, os reajustes elevados em distribuidoras como COELBA (+9,8%) e ENERGISA MT (+11,3%) refletem principalmente dois fatores: aumento nos custos de compra de energia no mercado regulado (ACR) em 2025/2026, e aprovação de investimentos na rede que entram na tarifa com defasagem.
Minha leitura: os reajustes acima de 8% ao ano que vemos em algumas distribuidoras não são sustentáveis no longo prazo — a ANEEL tem instrumentos para moderar pela revisão tarifária periódica. Mas no horizonte de 3 a 5 anos, não há sinalização regulatória de queda real de tarifa. Quem financia solar hoje com parcela mensal abaixo da economia de energia tem gordura suficiente mesmo com os cenários conservadores.
O único fator que pode mudar o cálculo negativamente é o TUSD-Fio B da Lei 14.300/22 — que sobe progressivamente até 2029 e corrói parte do benefício tarifário do prossumidor. Para quem ainda não ligou o sistema, entender esse calendário é obrigatório antes de fechar o contrato.
Para ver o impacto do Fio B crescente no payback por ano de conexão, veja o calendário tarifário da Lei 14.300 e o que muda para quem liga em 2026, 2027 e 2028.
Por que quem já tem solar se beneficia mais do reajuste
Há um assimetria importante que poucos percebem: o prossumidor com sistema instalado antes do reajuste ganha mais do que quem está decidindo agora.
Para quem já tem o sistema: cada reajuste aumenta o valor do kWh que ele está deixando de pagar. O investimento não muda. A economia por kWh sobe. TIR do projeto sobe automaticamente.
Para quem está decidindo agora: o reajuste encurta o payback no cálculo prospectivo, mas o custo do sistema também pode ter subido (módulos, inversores e mão de obra têm seus próprios ciclos de preço). A vantagem existe, mas é menor do que a do prossumidor que já instalou.
Essa assimetria é um dos argumentos mais sólidos contra a lógica de “esperar o preço do solar cair mais para instalar”. A tarifa não espera.
Fontes
- ANEEL — Banco de Informações de Geração (BIG) e Atos Homologatórios de Reajuste Tarifário 2026. Disponível em: https://www.aneel.gov.br, consultado em julho/2026.
- ANEEL — Resolução Normativa 1000/2021. Disponível em: https://www.aneel.gov.br, consultado em julho/2026.
- Lei 14.300/22 — Marco Legal da Microgeração e Minigeração Distribuída. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/L14300.htm, consultado em julho/2026.
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


