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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Fogão de indução ou botijão no off-grid: a conta do ponto de virada

Todo mundo que monta um sítio solar pergunta se dá pra cozinhar na indução. Refiz a conta com o preço do botijão e a eficiência de cada fogão, e achei o custo do kWh da bateria em que a indução passa a vencer o gás.

Eng. Marcela Vargas 4 min de leitura
Cooktop de indução com panela fervendo em cozinha rústica
Cooktop de indução com panela fervendo em cozinha rústica

Quase todo projeto off-grid que passa pela minha mesa tem a mesma linha riscada no levantamento de cargas: “fogão: gás mesmo”. Ninguém calcula, ninguém compara. Só que o botijão de 13 kg, que parece custo zero na cabeça de quem já tem o hábito, tem um preço por kWh útil que dá pra medir. E quando você mede, a decisão deixa de ser fé e vira um número.

A tese

Na indução, o off-grid só perde do gás quando o seu kWh de bateria custa mais que cerca de R$ 1,00. Na maioria dos sistemas bem dimensionados, ele custa bem menos. O que trava a indução não é o custo de energia: é a potência instantânea que o inversor precisa entregar.

Evidência 1: o botijão em kWh

O gás de cozinha é vendido em quilos, mas o fogão trabalha em energia. Segundo a ANP, noticiada pela Istoé Dinheiro, o botijão de 13 kg custava em média R$ 112,42 na segunda semana de abril de 2026. Confira o preço da sua cidade, porque a variação regional é grande.

O poder calorífico do GLP fica em torno de 46 MJ por quilo, valor de referência de engenharia, ou cerca de 12,8 kWh por quilo. Fiz a conta: 13 kg dão aproximadamente 166 kWh de energia térmica no botijão. O gás custa, então, uns R$ 0,68 por kWh térmico.

Só que ninguém cozinha com a energia térmica inteira. Os dados do Procel citados pela Brastemp dão eficiência de 57% pro fogão a gás e 84% pro cooktop de indução. Parte da energia sobe pelas laterais da panela, parte aquece a cozinha.

Evidência 2: o custo do kWh que chega na panela

Com 57% de aproveitamento, o botijão entrega cerca de 95 kWh úteis. Dividindo R$ 112,42 por 95, o gás custa R$ 1,19 por kWh útil.

Pra entregar 1 kWh útil, a indução pede 1,19 kWh do banco de baterias (1 dividido por 0,84). A igualdade fecha em R$ 1,19 vezes 0,84, ou seja, R$ 1,00 por kWh retirado da bateria. Abaixo disso, a indução é mais barata. Acima, o gás ganha.

Pra ter ordem de grandeza, e isto é hipótese minha, não dado de mercado: um banco LFP de 5 kWh úteis a R$ 7.000, com 6 mil ciclos, custa uns R$ 0,23 por kWh só de bateria. Somando painéis, inversor e reposição, é difícil passar de R$ 0,60. Quem quiser fazer a conta com os próprios números pode usar o raciocínio do custo por ciclo no 24V ou 48V e do gerador versus bateria.

Ainda hipotético: uma família que gasta um botijão em 45 dias usa uns 2,1 kWh úteis por dia, ou 2,5 kWh do banco. Isso pede cerca de 0,7 kWp de painel a mais, com HSP de 5 e perdas de 25%. São duas placas de 550 W.

Evidência 3: a potência é o gargalo de verdade

Uma boca de indução puxa de 1.400 a 2.000 W, e o cooktop de duas bocas pode passar de 3.000 W com tudo no máximo. Não tem motor de partida, então não há o pico de 6 a 8 vezes que derruba o inversor na corrente de partida da geladeira, mas é uma carga resistiva pesada que dura de 10 a 40 minutos, bem na hora do almoço, em que o banco já está longe do pico solar.

Na prática: com inversor de 3 kW, uma boca de cada vez e nada mais pesado ligado. Pra duas bocas e forno elétrico juntos, pense em 5 kW, e o texto sobre inversor off-grid de 3, 5 ou 8 kW mostra onde cada um para de ser suficiente.

O contra-argumento honesto

A tese falha em três situações. Se a cozinha é cheia, com forno e fritadeira elétrica, a indução sozinha não resolve e o gás continua útil pro forno. Se o sítio passa semanas nublados, cada kWh de cozinha disputa com geladeira e bomba, e a conta de autonomia em dias sem sol pesa. E tem a panela: indução só funciona com fundo magnético, e quem tem alumínio e inox fino vai trocar o jogo.

Onde isso leva

Minha escolha, em projeto novo: indução de uma ou duas bocas pro uso diário, mais um botijão pequeno de reserva pra semana ruim e pro forno. Você corta 80% do gás e mantém a segurança. E antes de fechar o inversor, soma a indução no levantamento de cargas com a hora real em que ela vai ligar.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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