Onde o solar ainda se paga rápido em 2026: ranking de payback por região com Fio B em 60%
Com o kit a R$ 3.800–5.500/kWp e o Fio B em 60%, montei um ranking de payback de Recife a Curitiba. A diferença entre o topo e o fim da lista passa de 3 anos.
“Bruno, o solar ainda vale a pena em 2026 ou já era?” Recebo essa pergunta toda semana, e ela está mal formulada. Não existe “ainda vale a pena” no singular — vale muito em Petrolina, vale razoavelmente em São Paulo e vale apertado em Curitiba. A mesma conta, o mesmo Fio B em 60%, o mesmo kit, dá resultados que diferem em mais de três anos dependendo do CEP. Montei o ranking abaixo justamente para responder a pergunta certa: onde ainda vale, e por quanto.
O que importa decidir antes de olhar o ranking
Payback de solar residencial depende de cinco variáveis. Quatro delas mudaram em 2026 e a maioria dos orçamentos só mexe numa.
- Preço do kit (R$/kWp). Caiu. Em 2026 o sistema residencial sai entre R$ 3.800 e R$ 5.500/kWp instalado, ante R$ 5.500 a R$ 6.500/kWp em 2022, puxado pela queda do módulo com a superoferta chinesa (Solar dos Pomares; Revista Oeste).
- Irradiação (HSP) da região. Não muda — é física. Nordeste fica perto de 5,5 kWh/m²/dia, Sudeste em torno de 4,8, Sul perto de 4,2.
- Tarifa de energia local (B1). Varia por distribuidora. Quanto mais cara a tarifa, mais rápido o sistema se paga.
- Fio B em 60%. Subiu, e é igual no país todo: 60% do Fio B deixa de ser compensado em 2026 para quem homologou na janela de transição (Canal Solar).
- Bandeira tarifária. Maio de 2026 está em bandeira amarela: + R$ 1,885 a cada 100 kWh (Canal Solar). Encarece a energia da rede, o que joga a favor do payback.
A variável que decide o ranking é a 2 combinada com a 3. Preço do kit e Fio B são quase iguais no país; o que separa as regiões é sol e tarifa.
O ranking — payback estimado de um sistema residencial em 2026
Premissas que usei, declaradas: sistema de 5 kWp, custo de R$ 4.600/kWp (meio da faixa de mercado de 2026), totalizando R$ 23.000; degradação de 0,55% ao ano; bandeira amarela aplicada; Fio B em 60% sobre a parcela injetada; tarifa B1 e HSP típicos de cada praça. São estimativas comparativas, não orçamento.
| # | Região (praça) | HSP (kWh/m²/dia) | Tarifa B1 de referência | Payback estimado |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Petrolina / sertão PE | ~5,7 | Alta | ~3,4 anos |
| 2 | Teresina (PI) | ~5,5 | Alta | ~3,7 anos |
| 3 | Cuiabá (MT) | ~5,3 | Média-alta | ~4,1 anos |
| 4 | Goiânia (GO) | ~5,2 | Média | ~4,4 anos |
| 5 | São Paulo (capital) | ~4,8 | Média-alta | ~4,9 anos |
| 6 | Belo Horizonte (MG) | ~5,0 | Média | ~5,0 anos |
| 7 | Porto Alegre (RS) | ~4,3 | Média | ~5,8 anos |
| 8 | Curitiba (PR) | ~4,1 | Média-baixa | ~6,6 anos |
A leitura honesta da tabela: o topo e o fim diferem em 3,2 anos. O Fio B em 60% empurrou todo mundo para cima de forma quase uniforme — uns 8 a 10 meses a mais que no cenário de 45% —, mas não inverteu a ordem. Quem manda no ranking continua sendo o sol. Curitiba não ficou inviável; ficou um investimento de retorno mais lento, comparável a aplicações conservadoras de prazo médio, com a diferença de que aqui o “rendimento” é isenção de uma despesa que sobe todo ano.
Minha escolha e por quê
Se eu estivesse no topo do ranking (Nordeste, Centro-Oeste), eu fecharia em 2026 sem hesitar — payback abaixo de 4,5 anos com uma despesa que só sobe é uma das melhores alocações de capital próprio disponíveis para pessoa física hoje, melhor que a maioria da renda fixa líquida depois do imposto.
Se eu estivesse no fim do ranking (Sul, payback acima de 6 anos), eu não trataria como “não vale”. Eu trataria como decisão de horizonte: se você fica na casa mais de 8 anos, ainda compensa, porque o sistema dura 25+ e o retorno continua depois do payback. Se você pensa em vender o imóvel em 3 ou 4 anos, aí eu pensaria duas vezes — o ganho de valor do imóvel com solar instalado existe, mas é menos previsível que o fluxo de economia.
O que eu não faria em região nenhuma: financiar a 2,3% ao mês para “pagar com a própria economia”. Nessa taxa, em boa parte das praças o custo do crédito come a vantagem do payback. Capital próprio ou consórcio contemplado mudam o jogo — fiz essa conta em detalhe num post anterior de financiamento.
Perguntas que chegam de verdade
O Fio B em 60% não matou o payback? Não. Atrasou. Na minha planilha, a passagem de 45% para 60% adicionou de 8 a 10 meses ao payback nas praças medianas. É um custo real, não uma sentença. Quem fica fora da janela de transição é que enfrenta risco maior — esse é assunto regulatório, não de planilha de hoje.
Vale esperar o kit cair mais? O módulo já caiu forte (preço FOB despencou de cerca de US$ 0,25/W para a casa de US$ 0,09/W com a superoferta chinesa, segundo o noticiado). O ganho marginal de esperar mais um ano é pequeno e some diante de mais um ano pagando conta cheia e mais um degrau de Fio B em 2027. A conta de esperar quase nunca fecha.
Apartamento entra nesse ranking? Não diretamente — telhado compartilhado tem outra dinâmica (geração compartilhada, autoconsumo remoto). O ranking acima é para casa com telhado próprio.
Fontes
- Solar dos Pomares — Kit energia solar residencial: preço por kWh em 2026
- Revista Oeste — Preço do sistema solar residencial em 2026
- Canal Solar — Consumidores passarão a arcar com 60% do Fio B a partir de 2026 (e bandeira amarela maio/2026)
- pv magazine Brasil — Fio B chega a 60% em 2026 e acelera transição para híbridos
- Portal Solar — Brasil deve adicionar 10,6 GW de energia solar em 2026
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


