segunda-feira, 1 de junho de 2026
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Payback solar por faixa de consumo em 2026: quando a conta não fecha

Com Fio B em 60% e custo de disponibilidade obrigatório, o payback solar muda radicalmente entre quem consome 150 kWh e quem consome 500 kWh. Calculei os três perfis.

Bruno Aragão 6 min de leitura
Conta de luz residencial ao lado de painel solar e planilha de payback com diferentes faixas de consumo
Conta de luz residencial ao lado de painel solar e planilha de payback com diferentes faixas de consumo

O integrador apareceu na porta com um tablet e uma pergunta: “Quanto você paga de luz por mês?” O cliente disse “umas três notas”. O vendedor digitou, mostrou o gráfico com payback de quatro anos e fechou o contrato de R$ 19 mil. O que o integrador não perguntou — e deveria — foi: quantos kWh você consome por mês? Essa pergunta muda o payback em até seis anos. E, em certos casos, inverte a decisão inteira.

A tese

Payback solar não é determinado pelo valor da conta — é determinado pelo volume de consumo. Uma conta de R$ 300 pode ter 250 kWh ou 180 kWh, dependendo de onde você mora e qual a sua distribuidora. Esse detalhe, ignorado por boa parte dos orçamentos, é o que separa um investimento razoável de um capital parado por uma década.

Evidência 1: o consumo baixo (150 kWh/mês) — onde o solar costuma perder

O perfil de 150 kWh/mês é mais comum do que parece: apartamento pequeno, casa de idoso aposentado, família que trabalha fora o dia todo.

Para atender esse perfil em São Paulo (HSP ~4,8 kWh/m²/dia, tarifa B1 de referência ~R$ 0,92/kWh), o sistema mínimo viável fica em torno de 2 kWp. Custo instalado em 2026: R$ 11 mil a R$ 13 mil (faixa de mercado de R$ 4.600 a R$ 5.200/kWp para sistemas pequenos, onde a escala não ajuda).

Geração estimada do sistema de 2 kWp em São Paulo: ~250 kWh/mês. O consumidor usa 150 kWh; o excedente vai para a rede e gera créditos. Esses créditos compensam parte da conta futura — mas há dois fatores que ninguém explica no panfleto:

Fator 1 — Fio B em 60%. A cada kWh injetado na rede, 60% do componente TUSD-Fio B não é compensado. Para uma tarifa B1 típica onde a TUSD representa ~40%, o desconto efetivo por kWh injetado cai de ~R$ 0,92 para ~R$ 0,75.

Fator 2 — Custo de disponibilidade. Mesmo que o sistema gere 100% do consumo, o consumidor continua pagando o mínimo de conexão: 30 kWh em ligação monofásica, 50 kWh em bifásica (Portal Solar). Em São Paulo isso representa aproximadamente R$ 27 a R$ 46 por mês que nunca some da conta, independente de quanto o sistema gerar.

Cenário SP — 2 kWpValor
Geração mensal estimada (HSP 4,8)~250 kWh
Consumo do perfil150 kWh
Custo de disponibilidade mínimo (monofásico, ~30 kWh)~R$ 27/mês
Economia líquida mensal estimada (descontado Fio B + custo disponibilidade)~R$ 95 a R$ 110
Investimento~R$ 12.000
Payback estimado9 a 10,5 anos

Nove anos de payback em São Paulo. Em Curitiba (HSP ~4,1), passa de 11 anos. Comparado a um CDB líquido diário a 12% ao ano, onde R$ 12 mil viram quase R$ 37 mil ao longo da mesma vida útil esperada do sistema, o investimento solar no perfil de baixo consumo dificilmente fecha.

Evidência 2: o consumo médio (300 kWh/mês) — onde o solar começa a fazer sentido

Com 300 kWh/mês, o perfil muda. A família já tem ar-condicionado de janela, freezer e chuveiro elétrico. O sistema necessário sobe para 3 a 4 kWp.

Para São Paulo, com sistema de 3,5 kWp:

Cenário SP — 3,5 kWpValor
Geração mensal estimada~430 kWh
Consumo do perfil300 kWh
Economia bruta estimada~R$ 276/mês
Desconto Fio B (60%) sobre parcela injetada~R$ 38/mês
Custo de disponibilidade~R$ 27/mês
Economia líquida estimada~R$ 211/mês
Investimento (3,5 kWp a ~R$ 4.800/kWp)~R$ 16.800
Payback estimado em SP~6,6 anos
Payback estimado em Recife (HSP 5,5, tarifa semelhante)~4,8 anos

Aqui a decisão começa a ficar razoável, especialmente no Nordeste. Em Recife, payback de 4,8 anos com sistema que dura 25+ anos é uma TIR implícita acima de 15% ao ano — bate a maioria dos fundos de renda fixa depois do imposto.

Em São Paulo, 6,6 anos ainda é aceitável para quem vai ficar na casa por mais de 10 anos. É uma decisão de horizonte, não de rentabilidade imediata.

Evidência 3: o consumo alto (500+ kWh/mês) — onde o solar fecha fácil

Consumo acima de 500 kWh/mês é o território onde o argumento pró-solar é mais difícil de rebater.

Sistema de 6 kWp em São Paulo:

Cenário SP — 6 kWpValor
Geração mensal estimada~735 kWh
Consumo do perfil500 kWh
Economia bruta estimada~R$ 460/mês
Desconto Fio B sobre parcela injetada (grande parte é autoconsumo)~R$ 28/mês
Economia líquida estimada~R$ 432/mês
Investimento (6 kWp a ~R$ 4.600/kWp)~R$ 27.600
Payback estimado em SP~5,3 anos
Payback estimado em Recife~3,8 anos

Note que quanto maior o consumo, menor o impacto proporcional do Fio B: quem consome 500 kWh e gera 735 kWh tem ~235 kWh injetados. O Fio B afeta só o que é injetado — o autoconsumo direto (da geração para o consumo imediato) paga tarifa zero, sem desconto. Então no perfil de alto consumo, o Fio B corrói menos da economia total do que nos perfis onde o sistema gera muito mais do que o consumidor usa.

O contra-argumento honesto

Essa análise favorece o perfil de alto consumo — mas há um cenário onde o baixo consumo pode fechar: Nordeste com tarifa alta e ligação trifásica. Se você mora em Fortaleza, tem consumo de 200 kWh, mas sua distribuidora (Enel/Equatorial CE) cobra tarifa B1 elevada e sua ligação é bifásica (custo de disponibilidade de 50 kWh), o payback pode cair para 7 a 8 anos — ainda longo, mas diferente de São Paulo.

O segundo contra-argumento é a valorização do imóvel. Estudos de mercado imobiliário mostram que imóveis com solar instalado atingem premiums de 4% a 8% no preço de venda, o que pode alterar o cálculo total de quem está num perfil de consumo médio e planeja vender em 5 a 7 anos.

Não incluo esses fatores na tabela porque são difíceis de quantificar com precisão. Eles existem — mas não viro argumento de venda.

Onde isso te leva

Antes de aceitar qualquer orçamento solar, separe doze faturas e calcule o consumo médio em kWh — não o valor em reais. Se estiver abaixo de 200 kWh/mês, peça que o integrador justifique o payback incluindo o custo de disponibilidade e o Fio B real da sua distribuidora. Se ele não souber o que é Fio B, agradeça e feche a porta.

Se seu consumo está acima de 350 kWh/mês, a conversa muda. Aí o solar em 2026 é uma das melhores alocações de capital próprio para pessoa física no Brasil, especialmente no Nordeste e Centro-Oeste. Não porque eu estou vendendo — porque a planilha fecha.

O problema não é o produto. É que a mesma planilha que faz sentido pra quem consome 500 kWh vira furada pra quem consome 150. E o integrador que não te diz essa diferença está priorizando a comissão, não a sua decisão.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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