segunda-feira, 1 de junho de 2026
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Solar ou Tesouro IPCA+? Comparei os dois investimentos pra um sistema de R$ 28 mil em 2026

A pergunta que todo cliente me faz: vale a pena tirar dinheiro da renda fixa pra instalar solar? Comparei TIR do sistema com Tesouro IPCA+ 2035 e CDI a 10,5%. A resposta depende de uma variável que ninguém olha.

bruno-aragao 6 min de leitura
Gráfico de bolsa sobreposto a painéis fotovoltaicos representando comparação de investimentos
Gráfico de bolsa sobreposto a painéis fotovoltaicos representando comparação de investimentos

Todo banco grande te liga em maio oferecendo Tesouro IPCA+ 2035 pagando IPCA + 7,3% ao ano. No mesmo mês, o integrador te manda proposta de solar de R$ 28 mil prometendo “payback em 4 anos”. A pergunta que o cliente me fez na semana passada — e que ninguém quer responder com número — foi: se eu já tenho o dinheiro aplicado rendendo, vale a pena tirar pra colocar no telhado?

A tese

Solar não compete com CDI nem com Tesouro Selic — compete com Tesouro IPCA+ de prazo longo, porque os dois protegem da mesma coisa: inflação da tarifa de energia, que sobe colado no IPCA há uma década. E nessa comparação, num cenário de 2026 com Fio B 60% já vigente, o sistema solar ganha em TIR real — mas perde em três coisas que o integrador nunca cita: liquidez, risco-cliente e custo de manutenção que sai do seu bolso, não do gestor do fundo.

Evidência 1: a TIR real do solar em 2026 ainda bate IPCA+ 7,3%

Refiz o cálculo pra um sistema de 4 kWp em Belo Horizonte (MG), perfil mediano de cliente residencial de R$ 480/mês de conta. Premissas explícitas (que todo integrador deveria mostrar):

  • HSP BH: 5,1 kWh/m²/dia (CRESESB/Atlas Solarimétrico)
  • Performance ratio: 80%
  • Geração ano 1: 4 × 5,1 × 365 × 0,80 = 5.957 kWh/ano
  • Tarifa Cemig B1 vigente: R$ 0,98/kWh (com Fio B 60% já descontado)
  • Economia bruta ano 1: 5.957 × 0,98 = R$ 5.838/ano ou R$ 487/mês
  • Degradação anual módulo: 0,55% (datasheet Tier 1)
  • Reajuste tarifário projetado: IPCA + 2 pp ao ano (histórico ANEEL aponta 8 a 10% ao ano na última década — fonte: relatórios SRD/ANEEL)
  • Custo do sistema: R$ 28.000 instalado
  • Horizonte: 25 anos
  • Custo de manutenção: R$ 400/ano a partir do ano 6 (limpeza, troca de fusível, inspeção)
  • Inversor: troca prevista no ano 11, R$ 4.200

Com esses fluxos, a TIR nominal do sistema chega a 17,4% ao ano e a TIR real (descontada IPCA projetado de 4% aa) fica em 12,9% ao ano.

Tesouro IPCA+ 2035 hoje paga IPCA + 7,3%, com taxa de custódia B3 de 0,2% e IR regressivo (15% no longo prazo). TIR real líquida: 6,0% a 6,2% ao ano.

Diferença: o solar entrega ~6,7 pontos percentuais de TIR real a mais.

InvestimentoAporteTIR nominalTIR real líquidaLiquidez
Sistema solar 4 kWp BHR$ 28.00017,4%12,9%Baixa
Tesouro IPCA+ 2035R$ 28.000~10,7%6,0%Alta (D+1)
CDI 100% (Selic 10,5%)R$ 28.000~10,5%5,1%Alta (D+0)
LCI/LCA 95% CDIR$ 28.000~10,0%6,3%Média (carência)

A premissa que faz a conta colar é tarifa subindo IPCA + 2 pp. Se você acha que o reajuste vai ficar abaixo do IPCA daqui pra frente, a TIR do solar cai pra ~10% real e o jogo aperta. Veja a conta detalhada de TIR e VPL no comparativo financiamento vs à vista — usa a mesma estrutura de planilha.

Evidência 2: solar é hedge contra tarifa, IPCA+ é hedge contra preço médio

Essa é a parte que ninguém te explica direito. Tesouro IPCA+ te protege do IPCA cheio, que é uma média ponderada de uma cesta de bens. Energia elétrica pesa 4,5% do IPCA. Os outros 95,5% são alimento, transporte, vestuário, saúde — coisas que sobem em ritmo diferente da sua fatura da Cemig.

Solar te protege especificamente do componente “energia residencial”, que historicamente sobe acima do IPCA cheio. Entre 2014 e 2024, a tarifa B1 média no Brasil subiu cerca de 178% (ANEEL). O IPCA acumulado no mesmo período foi 76%. A diferença — esses ~100 pontos percentuais a mais — é exatamente o que o investidor em renda fixa não consegue capturar.

Por isso a comparação correta não é “qual rende mais”. É “qual protege da inflação que efetivamente machuca seu fluxo de caixa”. Pra quem mora em casa e paga conta de luz, solar é hedge específico. Tesouro IPCA+ é hedge genérico.

Evidência 3: o cálculo muda com Fio B 75% em 2027

Aqui o cenário aperta. Em 2027, a fração de Fio B sobe pra 75%, e a economia mensal do mesmo sistema cai cerca de 6 a 8%. Refiz a conta com o sistema ligado em janeiro/2027:

  • Economia ano 1: cai de R$ 5.838 pra ~R$ 5.430
  • TIR nominal: cai de 17,4% pra ~15,8%
  • TIR real líquida: cai pra ~11,5%

Ainda ganha do IPCA+, mas a vantagem encolhe de 6,7 pp pra 5,5 pp. Em 2028 (Fio B 90%), a TIR real cai pra ~10,2%. O sistema continua melhor que renda fixa pura — mas o “buraco” vai fechando ano a ano. Quem ainda não decidiu, esperar custa caro: já mostrei a conta de instalar agora ou esperar 2027.

O contra-argumento honesto: 3 coisas que o solar perde pra renda fixa

Sou consultor financeiro, não vendedor de painel. Onde a renda fixa é melhor:

  1. Liquidez. Tesouro IPCA+ você resgata em D+1 com o valor de mercado (que oscila, mas existe). Sistema solar instalado vale 30 a 50% do investimento no mercado de seminovo, e ainda precisa de desmontagem.
  2. Risco-cliente. Se você se mudar em 3 anos, o sistema fica. O próximo dono raramente paga por ele no preço cheio — então sua TIR pode virar 5%, não 12,9%. Imóvel alugado é pior: você instalou no telhado de alguém. Antes de assinar, leia a análise sobre aluguel de telhado solar e quem fica com a conta no fim.
  3. Custo de manutenção e oportunidade técnica. Inversor queima fora da garantia? Sai R$ 4 mil do seu bolso. Microinversor com defeito? Você liga pro fornecedor que pode ter sumido. No Tesouro, o “risco operacional” é zero.

Pra quem tem patrimônio total abaixo de R$ 60 mil e o Tesouro IPCA+ é a única reserva, eu não recomendo tirar tudo pra colocar no telhado. Mantenha 6 a 12 meses de emergência líquida primeiro. Tem caixa folgado e quer alocar R$ 25-30 mil de longo prazo? Aí a matemática joga a favor do solar.

Onde isso te leva

A pergunta certa não é “solar ou renda fixa”. É “quanto do meu patrimônio eu posso travar 25 anos num ativo ilíquido em troca de uma TIR real 6 pontos acima do IPCA+ 2035?”. Se a resposta for “10 a 25%”, solar entra como diversificação inteligente. Se a resposta for “100% do que tenho”, o problema não é o solar — é a sua estrutura patrimonial.

E uma ressalva final: a TIR de 12,9% real depende das premissas que listei. Se a sua tarifa local for menor (ex: Copel em Curitiba a R$ 0,76/kWh), refaça o cálculo com sua fatura. Pegue uma planilha simples, jogue os fluxos e calcule a TIR no Excel ou Google Sheets — leva 15 minutos e te poupa de R$ 28 mil de decisão errada.

Fontes consultadas

  • ANEEL — Relatórios da SRD (Superintendência de Regulação dos Serviços de Distribuição) sobre tarifas residenciais B1 e histórico de reajustes 2014-2024
  • BACEN — Relatório Focus, projeções de IPCA e Selic 2026-2028 (acessado em 26/05/2026)
  • Tesouro Direto — Taxas vigentes Tesouro IPCA+ 2035 com juros semestrais (26/05/2026)
  • CRESESB / Atlas Solarimétrico do Brasil — HSP médio Belo Horizonte
  • Lei 14.300/22 — cronograma de transição Fio B (60% em 2026, 75% em 2027, 90% em 2028, 100% em 2029)
  • Greener — Estudo Estratégico Mercado Solar Brasileiro 2025/2026 (referência de preço por Wp instalado)
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Escrito por

bruno-aragao

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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