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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Preciso trocar a telha com o sistema solar já instalado: quem remove os painéis e quem paga

Quatro anos depois da instalação solar, a telha começou a vazar e o instalador que fez o sistema já nem atende mais o telefone. Bruno Aragão mostra quem banca a remoção e reinstalação dos módulos, e quando essa conta não é sua.

Bruno Aragão 6 min de leitura
Telhado residencial com painéis solares parcialmente removidos durante reforma de telha
Telhado residencial com painéis solares parcialmente removidos durante reforma de telha

Dona Terezinha, de Caruaru (PE), instalou 12 módulos em 2022. Sistema funcionando redondo, conta de luz baixa, tudo certo — até a telha cerâmica embaixo do terceiro módulo da fileira começar a rachar de tanto sol direto, coisa que qualquer telhado nordestino sofre depois de alguns anos. Ela ligou pro WhatsApp do integrador que fez a instalação. Número inexistente. A empresa tinha fechado seis meses antes.

O problema dela não é o painel — é achar quem tira e recoloca 12 módulos sem estragar nada, sem perder a garantia do fabricante e sem pagar um preço de “resgate” porque quem está cobrando sabe que ela não tem opção. E essa é uma conta que quase nenhum orçamento inicial de instalação solar menciona.

O que acontece na prática quando o telhado precisa de reforma

Painel solar não é decorativo — ele fica fixado por trilho de alumínio parafusado na estrutura do telhado, com cabeamento solar passando por baixo ou ao lado das telhas. Trocar uma telha que está sob (ou perto) de um módulo, sem tirar o módulo primeiro, é praticamente impossível sem quebrar o vidro ou romper o cabo. Então a sequência inevitável é: desconectar o sistema, desmontar o trecho afetado (às vezes o array inteiro, dependendo de onde fica o dano), fazer a reforma do telhado, remontar a estrutura, reconectar e testar de novo antes de religar.

Cada uma dessas etapas tem risco técnico real. Um módulo de vidro temperado aguenta granizo e vento, mas não aguenta ser desmontado por alguém sem prática — microfissura na célula não aparece a olho nu no dia, só reduz geração aos poucos, meses depois. Fabricantes como Canadian, JA Solar e outras marcas tier-1 deixam isso escrito na letra miúda do certificado de garantia: a cobertura vale se a instalação e qualquer remoção e reinstalação seguirem as instruções técnicas do fabricante — e os custos dessa remoção e reinstalação, via de regra, ficam de fora da garantia, são por conta do proprietário (termos de garantia RESUN, via Neosolar).

Tem uma segunda camada que o consumidor raramente sabe: a garantia de equipamento (fabricante) e a garantia de serviço (integrador) são coisas separadas, e cobrem riscos diferentes. Se o integrador some, a garantia de mão de obra da instalação original desaparece com ele — mas os módulos e o inversor continuam garantidos pelo fabricante, só que a mão de obra de quem for remover e reinstalar não está incluída em nenhuma das duas (Canal Solar — garantia dos equipamentos fotovoltaicos). Já tratamos o que a garantia de serviço cobre de verdade neste guia — vale ler antes de assinar qualquer serviço avulso de remoção.

Duas situações diferentes, duas contas diferentes

Aqui separo o que a maioria dos textos sobre o assunto embola numa coisa só. Existem dois cenários possíveis, e eles têm resposta jurídica oposta:

Reforma banal. O telhado envelheceu naturalmente — telha rachou de sol, argamassa se soltou, calha entupiu e vazou. Nada disso tem relação com a instalação solar em si. Nesse caso, a conta de remoção e reinstalação dos módulos é do proprietário, do mesmo jeito que seria se fosse trocar uma calha qualquer. Você contrata quem for fazer a reforma (de preferência com o mesmo instalador ou outro tecnicamente qualificado) e paga como serviço avulso.

Reforma corretiva. O vazamento ou a rachadura apareceu por causa de como o sistema foi instalado — parafusamento sem vedação adequada, gancho mal fixado, sobrecarga de peso num ponto que a estrutura não aguentava. Isso não é desgaste natural, é defeito da instalação original, e o Código de Defesa do Consumidor trata isso como fato do serviço, não simples vício. A diferença importa no prazo: vício comum prescreve em 90 dias da entrega (art. 26, CDC), mas quando o defeito da instalação causa um dano que só aparece depois — uma infiltração que se manifesta 3 anos depois de o parafuso ter sido mal instalado — o prazo pra reclamar é de 5 anos contados da ciência do dano e de quem é o responsável (art. 27, CDC) (Planalto — CDC, Lei 8.078/1990). Na prática: se o integrador ainda existe, a conta pode ser dele, não sua — mas você precisa provar o nexo entre a instalação e o dano, o que quase sempre exige um laudo técnico.

A conta que ninguém mostra antes de você precisar dela

Fiz a proporção com base no que já detalhamos sobre custo de mão de obra de instalação completa: ela representa de 15% a 20% do valor total do sistema. Serviço avulso de remoção + reinstalação não tem essa economia de escala — não há equipamento novo pra diluir o custo fixo de mobilização, e o técnico corre risco extra manuseando módulo já instalado (mais frágil de desmontar do que de montar do zero), além de precisar refazer teste de isolamento e comissionamento antes de religar. Isso empurra o valor por Wp acima da fatia proporcional da instalação original:

Porte do sistemaMão de obra estimada na instalação original (15-20%)Faixa estimada só pra remoção + reinstalação
4 kWp (residencial pequeno, ~R$ 18 mil)R$ 2.700 – R$ 3.600R$ 1.200 – R$ 2.200
6 kWp (residencial médio, ~R$ 25 mil)R$ 3.750 – R$ 5.000R$ 1.800 – R$ 3.000
10 kWp (residencial grande/comercial pequeno, ~R$ 40 mil)R$ 6.000 – R$ 8.000R$ 2.800 – R$ 4.500

São faixas editoriais, não tabela de preço fixo — cada instalador cobra diferente por região e por dificuldade de acesso ao telhado. O padrão se repete: o serviço avulso custa proporcionalmente mais caro por módulo do que a instalação nova, porque você paga risco e mobilização sem comprar equipamento junto. E quem cobra sem avisar antes está em posição confortável — ninguém orça “remoção e reinstalação de painel” antes de precisar dela.

O que fazer com isso agora

  1. Antes de qualquer reforma, fotografe e documente o estado atual do telhado e da fixação dos módulos — isso vira prova se depois for preciso provar que o defeito é da instalação, não do desgaste.
  2. Peça 2-3 orçamentos específicos pra remoção + reinstalação, não confie em cotação única — a diferença de preço entre integradores costuma ser grande justamente porque não existe tabela de referência pública.
  3. Exija por escrito quem assume a responsabilidade técnica pela reconexão — reinstalação malfeita pode gerar reprovação numa vistoria futura da distribuidora, do mesmo jeito que instalação original ruim gera.
  4. Confira se o instalador original ainda existe e tem CNPJ ativo antes de decidir contratar outro — se sumiu, veja como checar reputação e histórico de reclamações de quem for contratar no lugar dele.
  5. Não deixe pra última hora: reforma de telhado com sistema solar em cima não é serviço de emergência de fim de semana — a maioria dos instaladores sérios pede agenda com antecedência porque envolve desligar o sistema por dias.

E não confunda as duas coisas: manutenção de rotina (limpeza, checagem de conector) é diferente de reforma estrutural — o que o instalador faz de graça normalmente não inclui desmontar o array pra trocar telha, então não espere isso vir junto do plano de manutenção anual.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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