segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Quase 3 GW de solar jogados fora — e o leilão de baterias que ainda não veio

Em 2026 o Brasil já cortou 2.843 MW médios de solar e eólico. O primeiro leilão exclusivo de baterias foi prometido para abril, depois junho — e até agora nada. Entenda o que está travando e o que isso custa.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Parque solar e turbinas eólicas ao pôr do sol com representação de bateria de armazenamento de energia
Parque solar e turbinas eólicas ao pôr do sol com representação de bateria de armazenamento de energia

No Nordeste, o dia começa com sol forte e vento constante — e as usinas solares e eólicas produzindo mais energia do que a rede consegue absorver. O que acontece com esse excedente? O ONS manda cortar. Em janeiro deste ano, um fazendeiro de Pernambuco que vive a 4 km de um parque solar de 80 MWp podia olhar pro campo e ver painéis sem gerar nada na hora de maior irradiação — não porque o sol faltou, mas porque não havia onde colocar a energia. Isso se chama curtailment. Em 2026, o Brasil já jogou fora o equivalente a quase 3 GW médios de geração limpa por dia. E o leilão de baterias que deveria resolver parte disso ainda não saiu.

O que aconteceu: do recorde de renováveis ao desperdício estrutural

O Brasil encerrou 2025 desperdiçando 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível, segundo dados do Canal Solar com base em relatórios do ONS — uma perda estimada em R$ 6 bilhões anuais. Em 2026, o problema piorou.

Entre janeiro e abril de 2026, o corte médio de renováveis chegou a 2.843 MW diários, contra 2.436 MW no mesmo período de 2025 — alta de 16,7% na comparação interanual (Canal Solar, maio/2026). O Nordeste concentra 2.233 MW desse corte total, com Ceará, Bahia, Piauí e Pernambuco liderando. São Paulo e Minas Gerais aparecem em seguida.

A causa principal não é falta de demanda. O ONS classifica 62% dos cortes como “excesso de oferta” — renováveis gerando mais do que o sistema consegue transportar e consumir em tempo real. O gargalo está na transmissão. As grandes linhas que deveriam escoar energia do Nordeste pro Sudeste não existem ainda; a previsão mais otimista é 2028.

A solução mais rápida de implementar seria o armazenamento. Baterias no ponto de geração capturam o pico de produção e despacham quando a rede precisa. O Chile, para comparação, já tem 8 GW de BESS em implantação — incluindo um sistema de 200 MW/800 MWh da Atlas Renewable Energy com disponibilidade de 98% para serviços ancilares (PV Magazine, maio/2026). O Brasil, com toda a sua matriz renovável, deve ultrapassar apenas 1 GW até o fim de 2026.

Por que o leilão de baterias não saiu ainda

O MME prometeu o primeiro leilão exclusivo de sistemas de armazenamento em baterias para abril de 2026. Depois postergou para “até junho”. Até a publicação desta análise, a portaria com as diretrizes definitivas ainda não foi publicada.

Os 18 GW de projetos de BESS registrados mostram que a oferta não é o problema. O entrave é regulatório e político.

Regulatório: A Portaria MME nº 878/2025 estabeleceu requisitos técnicos — potência mínima de 30 MW, entrega por 4 horas diárias, eficiência mínima de 85%, tecnologia grid-forming obrigatória. Mas o marco regulatório definitivo ainda está em consulta pública. Sem regras claras de remuneração e despacho, bancos não financiam projetos.

Político: O LRCAP de março de 2026 contratou 19 GW de capacidade — 86% em termelétricas. Petrobras (2,2 GW), Eneva (mais de 5 GW) e J&F ficaram com mais da metade da capacidade a gás (Eixos, março/2026). As baterias foram explicitamente excluídas dessa rodada e remetidas a “processo separado”. O que esse processo separado significa na prática: os interesses das termelétricas já estão contratados por 10-15 anos; as baterias precisam encontrar espaço político que não conflite com essa decisão.

Por que isso importa pra você agora

Para o consumidor de energia solar residencial, o curtailment tem dois efeitos que poucos integradores mencionam.

Efeito 1 — Tarifa de bandeira. Quando o ONS corta renováveis e aciona termelétricas para cobrir picos, o custo vai pro sistema tarifário. Bandeira vermelha, bandeira escassez, encargos de capacidade — tudo isso sobe na conta de luz. O sistema residencial solar amortece parte disso, mas a tarifa base segue subindo enquanto o modelo de despacho for esse.

Efeito 2 — Lei 14.300 e Fio B. A fração do Fio B que você paga pelo uso da rede cresce progressivamente até 2030. A lógica do governo para essa cobrança é parcialmente sustentada pelo custo de manter a rede confiável — uma rede que, em tese, seria mais barata de operar com armazenamento distribuído. Sem baterias na rede, você paga mais pela rede.

A boa notícia é que o mercado residencial e comercial não está parado. A capacidade instalada de armazenamento no setor comercial e industrial já alcançou 500 MWh em 2026, sem esperar pelo leilão (PV Magazine, maio/2026). Um sistema de 5 kWh residencial custa menos de R$ 8.000 em regiões de maior oferta — e o payback, na tarifa atual do Nordeste (em torno de R$ 0,87/kWh, Cemig e Equatorial referência), começa a fazer sentido financeiro sem depender de nenhuma regulação nova.

Minha leitura: o leilão de baterias vai acontecer. Provavelmente não em junho. O volume inicial de 2 GW é menor do que o problema exige — o PDE projeta déficit de 55 GW até 2034, e a ABSAE estima que BESS pode cobrir entre 9 e 10 GW desse total (ABSAE, 2026). A questão não é se o Brasil vai escalar armazenamento, é quantos anos de curtailment vamos jogar fora esperando por ele.

O que fazer com isso

Se você tem sistema solar instalado no Nordeste e está pensando em adicionar bateria: o mercado de BESS residencial não depende do leilão. A regulação da Lei 15.269/2025 (que inseriu armazenamento no escopo da ANEEL) já permite conexão por trás do medidor. O primeiro projeto BESS co-localizado com usina solar foi autorizado pela ANEEL em Uibaí (BA), um projeto de 1.250 kW e 5.016 kWh da Statkraft — marco regulatório que estabelece o modelo para expandir (Canal Solar, 2026).

Se você está no Sudeste e ainda paga conta acima de R$ 350/mês sem solar: o argumento financeiro para instalar agora não muda com o leilão. O que muda é o custo futuro da bateria — que deve cair ao longo de 2026-2027 à medida que mais fornecedores (Huawei Digital Power, BYD, CATL, Sungrow) entram no mercado BR com produto localizado.

O Brasil tem sol demais pra desperdiçar — mas falta decisão política pra guardar esse sol onde ele precisa estar.

Fontes

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

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