segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Roubaram os painéis do seu vizinho — e o seguro não pagou. O que você precisa saber antes que aconteça com você

Roubo de placas solares disparou no Brasil em 2025-2026, especialmente no interior do Nordeste e Sudeste. Veja como funciona o seguro do sistema solar, o que as seguradoras cobrem de verdade e como não errar na contratação.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Telhado residencial com painéis solares e cadeado representando proteção e seguro do sistema
Telhado residencial com painéis solares e cadeado representando proteção e seguro do sistema

Em março de 2026, um produtor rural de Petrolina (PE) acordou com o telhado vazio. Levaram 12 módulos de 545 Wp — R$ 14.400 em painel, fora inversor e cabeamento danificado na fuga. O sistema tinha três anos. Ele tinha seguro residencial. A seguradora negou o sinistro.

O motivo? O contrato cobria “eletrodomésticos e bens de uso doméstico fixados à estrutura do imóvel” — mas o laudo do perito classificou os painéis como “equipamento de geração de energia”, não bem de uso doméstico. Exclusão de cobertura. Fim de conversa.

Esse tipo de caso não é exceção. Com o valor médio de um sistema residencial girando entre R$ 18.000 e R$ 45.000, e o roubo de componentes fotovoltaicos crescendo junto com o mercado, entender o que o seguro cobre — e o que ele esconde no miúdo — virou uma conta tão importante quanto o payback.

O que aconteceu: roubo de placas virou mercado paralelo

O crescimento da base instalada criou um mercado paralelo de peças solares roubadas. A lógica é simples: módulo fotovoltaico não tem número de série visível de longe, pesa entre 20 e 25 kg, e é revendido sem nota em feiras de equipamentos usados do interior do Nordeste, SP e MG.

A Associação Brasileira de Instaladores de Energia Solar (ABSOLAR) não publica dados oficiais de roubo por segmento — o número fica disperso em boletins de ocorrência estaduais. Mas integradores com carteira de clientes no interior do Nordeste relatam aumento expressivo de casos desde 2024: sistemas rurais, propriedades com acesso de estrada de terra e sem câmera são os alvos preferidos.

Além do roubo, há outros sinistros que o dono do sistema nunca planejou:

  • Queda de granizo: módulo sem vidro temperado adequado ou com microfissuras prévias quebra na primeira chuva forte do Paraná ou Minas
  • Raio direto: inversor queimado por descarga mesmo com DPS instalado (o DPS protege a linha, não absorve raio direto no inversor)
  • Danos de instalação: micro-arcos (arcing) que causam incêndio no telhado — risco real documentado em estudos internacionais sobre BESS residencial
  • Queda de árvore/galho: estrutura de fixação amassada, módulos quebrados, telhado danificado junto

Nenhum desses riscos está automaticamente coberto em apólice residencial padrão.

Por que o seguro residencial comum não basta

A maioria dos donos de sistema solar assume que o seguro residencial que já tem cobre tudo. Raramente cobre.

As apólices residenciais padrão do mercado brasileiro (Porto Seguro, Tokio Marine, Allianz, Suhai, etc.) têm três padrões de cobertura para sistemas fotovoltaicos, dependendo da versão do produto e da data de contratação:

Sem cobertura alguma: as apólices antigas (pré-2022) raramente mencionam fotovoltaico. O perito enquadra como “bem não previsto em contrato” e nega.

Cobertura parcial como equipamento elétrico: algumas seguradoras cobrem o inversor e a fiação como parte da cobertura elétrica residencial, mas excluem o módulo (classificado como estrutura da edificação em alguns contratos, e como equipamento em outros). A inconsistência de classificação é o principal vetor de negativa.

Cobertura específica via endosso: a única forma confiável. Você descreve o sistema fotovoltaico como item segurado, com valor declarado, e paga prêmio adicional. Porto Seguro, Tokio Marine e algumas corretoras especializadas já oferecem esse produto. O custo fica entre 0,6% e 1,2% do valor do sistema por ano — para um sistema de R$ 30.000, são R$ 180 a R$ 360/ano.

O que fazer: guia prático em 5 passos

Aqui está o que eu recomendo a qualquer dono de sistema solar com valor acima de R$ 15.000:

1. Leia a apólice que você tem agora

Procure os termos “fotovoltaico”, “módulo solar”, “painel solar”, “geração de energia”. Se não aparecerem, seu sistema provavelmente não está coberto por nome. Ligue para a seguradora e peça confirmação por escrito — e-mail serve como prova.

2. Peça endosso específico ou cobertura adicional

Toda seguradora com produto residencial consegue fazer endosso de equipamento para sistemas fotovoltaicos. Você precisa fornecer:

  • Nota fiscal dos equipamentos (ou orçamento/contrato do integrador se não tiver NF)
  • Número de série dos módulos e inversor (anote antes de instalar — depois é difícil)
  • Laudo de instalação com ART (isso ajuda na hora do sinistro)

3. Guarde o número de série de cada módulo

Fotografe cada módulo antes de fixar no telhado. Painel com número de série registrado é possível de rastrear em caso de apreensão policial — e a seguradora exige para sinistro de roubo.

4. Considere câmera com visão do telhado

Câmera IP de R$ 150 cobrindo o telhado é o deterrente mais barato. Seguradoras como Porto Seguro oferecem desconto de até 10% no prêmio para imóveis com monitoramento por câmera.

5. Verifique a cobertura de responsabilidade civil

Se o seu sistema causar um incêndio ou dano ao vizinho (raio propagado pela fiação, por exemplo), você pode ser responsabilizado. Apólice com RC Familiar cobre isso. Verifique se o valor de RC é compatível com o custo do sistema e do imóvel adjacente.

O que isso muda na hora de contratar um sistema

Se você está planejando instalar — ou acabou de instalar — incluir o custo do seguro no cálculo de payback do sistema solar é um passo que a maioria dos integradores simplesmente ignora. O valor anual é pequeno, mas o risco de não ter é alto.

Outro ponto que passa despercebido: ao comparar orçamentos de instaladores, pergunte se o integrador entrega laudo com ART e se fornece o número de série dos módulos por escrito. Esses documentos são exigidos em qualquer processo de sinistro. Integrador que não entrega ART dificulta ou inviabiliza a cobertura do seguro.

Para quem está em região de granizo frequente (sul de MG, PR, SC, RS), vale também checar se o módulo tem certificação contra impacto de granizo — o padrão é IEC 61215, que testa resistência a bolas de gelo de 25 mm a 23 m/s. Sistemas com módulos sem esse certificado podem ter sinistro contestado pela seguradora com o argumento de “equipamento inadequado para a região”.

E para quem já instalou e não tem seguro: não espere o próximo caso do vizinho. O mercado de seguros fotovoltaicos está amadurecendo no Brasil, com produtos mais específicos surgindo ao longo de 2026. Busque uma corretora que conheça o produto — não adianta ligar pro 0800 do seguro residencial e perguntar “cobre solar?” A resposta vai ser sim, e ela pode estar errada.

Minha leitura: seguro de sistema solar ainda é subcontratado no Brasil porque ninguém fala sobre isso na venda. O integrador foca em payback e tarifa zero; a seguradora não conhece o produto. O dono do sistema fica no meio sem informação. Isso vai mudar à medida que os casos de negativa de sinistro acumularem — mas é melhor não ser o case de exemplo.

Fontes

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

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