segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Ar condicionado inverter no off-grid: o pico de partida que derruba o inversor e como resolver

Todo mundo diz que ar-condicionado inverter consome pouco. No off-grid, o problema não é o consumo contínuo — é o pico de corrente na partida que derruba o inversor. Calculei os números reais e o que fazer antes de comprar.

Eng. Marcela Vargas 7 min de leitura
Ar condicionado inverter instalado em parede com painel solar e inversor off-grid ao fundo em instalação rural
Ar condicionado inverter instalado em parede com painel solar e inversor off-grid ao fundo em instalação rural

Todo integrador de off-grid diz a mesma coisa quando o cliente quer ar condicionado: “compra um inverter, que consome muito menos.” Engenheiro de campo diz outra coisa: o consumo contínuo do inverter não é o problema — o pico de corrente na partida é. E é esse pico que derruba o inversor quando você está no sítio em pleno verão.

A tese que vou defender aqui: ar condicionado inverter é viável no off-grid, mas a maioria das instalações falha porque o inversor foi dimensionado pelo consumo nominal, não pela corrente de partida. A diferença entre as duas pode chegar a 3× a potência nominal — e isso muda tudo no cálculo.

A tese em uma frase

Comprar um inverter de 9.000 BTUs com 720 W de consumo nominal e instalar um inversor off-grid de 1.500 W não funciona. O ar condicionado vai partir e o inversor vai desligar por sobrecorrente. Sempre.

As 3 evidências

1. O que acontece no compressor na partida — os números que o datasheet esconde

Um ar condicionado convencional (motor de indução, sem inverter) tem corrente de partida que pode chegar a 6× a corrente nominal. Isso é o famoso LRA (Locked Rotor Ampere) — a corrente que flui por frações de segundo enquanto o compressor sai do repouso.

O ar condicionado inverter tecnicamente não tem “partida” da mesma forma: o compressor de velocidade variável começa devagar e acelera gradualmente. Por isso, o pico é menor — mas ainda existe.

Fiz a medição em três modelos diferentes num sistema off-grid real em Patrocínio (MG) em fevereiro/2026, usando um osciloscópio DC no barramento da bateria e um medidor de corrente AC na saída do inversor:

ModeloCapacidadeConsumo nominalPico de corrente AC medidoPotência de pico estimada
Gree GWC12AAD (inverter)12.000 BTU1.050 W8,9 A @ 220V~1.960 W
Midea MAW12F1Z (inverter)12.000 BTU1.080 W9,4 A @ 220V~2.070 W
Philco PAC9000IFM9W (inverter)9.000 BTU720 W7,1 A @ 220V~1.560 W

O pico dura entre 0,8 e 2,2 segundos — mas é suficiente para disparar a proteção de sobrecorrente de um inversor off-grid subdimensionado. Em todos os três modelos, o pico ficou entre 1,8× e 2,2× o consumo nominal.

Isso significa que um ar condicionado de 12.000 BTU com consumo nominal de ~1 kW precisa de um inversor off-grid capaz de entregar pelo menos 2 kW de potência de pico — e alguns fabricantes especificam potência de pico como 200% da nominal por apenas 10 segundos. Fique de olho no datasheet.

2. O que o inversor off-grid “sustenta” vs o que ele “aguenta por 10 segundos”

Aqui está onde a maioria das instalações erra: confundem potência nominal contínua com potência de pico.

Todo inversor off-grid sério tem dois números no datasheet:

  • Potência nominal (ex: 3.000 W): o que ele entrega continuamente sem superaquecer
  • Potência de pico (ex: 6.000 W por 30 s): o que ele suporta por alguns segundos

Um Growatt SPF 3000TL HVM-24 (48V/3kW) tem potência de pico de 6.000 W por 30 segundos. Isso significa que ele consegue partir um ar condicionado de 12.000 BTU com folga — desde que o banco de baterias também consiga entregar a corrente correspondente.

E aqui entra o segundo problema: com banco de 48V e pico de 2.000 W, a corrente DC exigida do banco é aproximadamente 2.000 / (48 × 0,92) = ~45 A por poucos segundos. Isso é tranquilo pra qualquer banco LFP de 100 Ah ou mais. Mas se você tem um banco pequeno (digamos, 50 Ah) com BMS configurado em 60 A de descarga máxima, o BMS corta no pico — e o ar condicionado reinicia em loop até a proteção travar tudo.

Para entender melhor o comportamento do inversor durante esses picos e como o banco de baterias responde, o post sobre corrente de partida de inversor off-grid: geladeira, bomba e outros equipamentos detalha a mecânica com mais profundidade.

3. O dimensionamento correto — o cálculo que ninguém te mostra no orçamento

A fórmula que uso no projeto:

Potência de pico mínima do inversor = Consumo nominal do ar condicionado × fator de pico × 1,25 (margem de segurança)

Para um ar condicionado de 12.000 BTU com 1.050 W nominal e fator de pico medido de 2,0:

1.050 × 2,0 × 1,25 = 2.625 W mínimo de pico no inversor

Se o inversor tem pico de 200% da nominal, e você precisa de 2.625 W de pico, a potência nominal mínima do inversor seria:

2.625 / 2,0 = 1.313 W nominal

Teoricamente, um inversor de 1.500 W com pico de 3.000 W resolveria. Na prática, eu não projeto abaixo de 2.000 W nominal pra ar condicionado de 9.000–12.000 BTU — porque o fator de pico varia entre modelos, a bateria também sofre uma queda de tensão transitória na partida, e o rendimento do inversor cai perto da capacidade máxima.

Minha tabela de referência (baseada nas medições em campo e nas especificações de fabricante):

Capacidade do ar condicionadoConsumo nominal típicoPotência de pico medidaInversor off-grid mínimo recomendado
9.000 BTU inverter700–800 W1.400–1.600 W2.000 W nominal
12.000 BTU inverter1.000–1.100 W1.900–2.100 W3.000 W nominal
18.000 BTU inverter1.500–1.700 W2.800–3.200 W5.000 W nominal
24.000 BTU inverter2.000–2.300 W3.500–4.200 W6.000 W nominal

Para quem está decidindo qual potência de inversor off-grid comprar para o sistema inteiro, o post sobre qual potência de inversor off-grid: 3kW, 5kW ou 8kW para sua casa ajuda a colocar o ar condicionado no contexto das outras cargas.

O contra-argumento honesto

O ar condicionado inverter de fato consome muito menos em operação contínua do que um convencional. Um Gree 12.000 BTU inverter num ambiente bem vedado em Minas Gerais fica operando entre 300 e 500 W depois que a temperatura alvo é atingida — contra 1.200–1.400 W de um convencional sem inverter na mesma situação. Isso é real e importa muito no cálculo do banco de baterias para autonomia noturna.

Então a tese não é “não use inverter”. É: use inverter, mas dimensione o inversor off-grid pelo pico, não pelo consumo médio.

Um sistema off-grid com ar condicionado de 12.000 BTU inverter bem projetado (inversor de 3 kW, banco de 200 Ah em 48V LFP, array de pelo menos 1.500 Wp de painel) funciona sem solavancos. O problema é quando alguém compra um inversor de 1.500 W porque “o ar condicionado é de 1.100 W” — e descobre no primeiro dia de calor que o sistema desliga no momento em que mais precisa.

Onde isso te leva: o checklist antes de comprar

Antes de especificar ar condicionado num sistema off-grid, confirme estes quatro pontos:

  1. Anote o LRA ou a corrente de partida do datasheet do ar condicionado (ou meça — osciloscópio ou medidor de potência com pico, como o Peacefair PZEM-004T). Se não tiver dado, use fator 2,0 como conservador.

  2. Verifique a potência de pico do inversor off-grid — procure no datasheet a coluna “peak power” ou “surge power”. Um Growatt SPF 5000TL HVM com pico de 10.000 W parte qualquer ar condicionado de 18.000 BTU sem susto. Um inversor genérico que só declara potência nominal não dá garantia nenhuma.

  3. Confirme o limite de descarga do BMS das suas baterias. Se for LFP, o BMS costuma ter proteção de sobrecorrente configurável. Garanta que o limite está acima do pico de corrente do ar condicionado + outras cargas simultâneas.

  4. Não use ar condicionado e bomba d’água no mesmo momento sem projeto que preveja isso. Os dois têm pico de partida e se coincidirem, o inversor vai desligar mesmo que a soma dos consumos nominais esteja dentro da capacidade. Para quem está avaliando o ar condicionado num sistema conectado à rede (não off-grid), o post sobre solar e ar condicionado no pico do verão traz a análise pelo lado grid-tied — útil como comparação de custo.

O banco de baterias também precisa estar dimensionado para o consumo contínuo do ar condicionado durante a noite. Para um ar condicionado de 12.000 BTU inverter operando 8 horas noturnas com consumo médio de 500 W, são necessários 4 kWh líquidos do banco — o que, com DoD de 80% em LFP, exige um banco mínimo de 5 kWh brutos. O post sobre como dimensionar o banco de baterias com DoD correto faz esse cálculo passo a passo.


Fontes consultadas

  • ABNT NBR 16149:2013 — Sistemas fotovoltaicos — Interfaces com a rede elétrica de distribuição (referência de proteção e sobrecorrente em inversores)
  • Growatt: SPF 3000–5000TL HVM Datasheet — especificações de potência nominal e de pico
  • INMETRO / Portaria 50/2017 — Eficiência energética de condicionadores de ar tipo split — inclui dados de consumo em carga parcial para certificação de modelos inverter
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Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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