sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Geladeira, TV e ferro: quantas baterias seu off-grid precisa de verdade?

Fiz o cálculo real de autonomia pra um sítio com geladeira, TV, iluminação e ferro de passar. O número de baterias LiFePO4 que saiu vai te surpreender — e explica por que tanto sistema fica no escuro no 2º dia sem sol.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Sistema off-grid solar com banco de baterias LiFePO4 e painel fotovoltaico em propriedade rural
Sistema off-grid solar com banco de baterias LiFePO4 e painel fotovoltaico em propriedade rural

Toda semana alguém me manda mensagem com variação da mesma pergunta: “Marcela, montei o sistema e no segundo dia de chuva a bateria zerou. O que errei?”

A resposta quase sempre é a mesma: dimensionamento de baterias feito pelo custo, não pelo consumo. Vendedor cotou o mínimo viável, cliente aceitou o valor menor, e ninguém fez a conta de quantos dias sem sol aquela região realmente enfrenta. Aqui vou mostrar exatamente essa conta — do jeito que eu faço pra clientes, sem arredondar pra baixo.

O que o sítio típico realmente consome

Antes de calcular bateria, preciso do número base: o consumo diário em Wh. Trabalho sempre com levantamento de carga por aparelho, não com “média de conta de luz” — conta de luz não existe no off-grid, por definição.

Para um sítio médio com 2 adultos e uso moderado, o levantamento costuma ficar assim:

AparelhoPotência (W)Horas/diaWh/dia
Geladeira Frost-Free 400L classe A (etiqueta Procel)45 (médio ciclo compressor)241.080
Iluminação LED (5 pontos × 9W)455225
TV 43” LED804320
Carregadores / roteador308240
Ferro de passar (1.200W, uso 2× semana)1.2000,3 (média diária)360
Total2.225 Wh/dia

Esse total — 2,2 kWh/dia — é o piso. Não inclui bomba d’água (que pode dobrar o número), chuveiro elétrico (que inviabiliza off-grid sem gerador) nem ar-condicionado.

A fórmula que ninguém te mostra completa

Dimensionar bateria tem uma fórmula bem estabelecida. O problema é que integradores costumam aplicar ela com parâmetros otimistas. Veja a versão honesta:

Capacidade do banco (Wh nominal) = Consumo diário (Wh) × Dias de autonomia ÷ DoD

Onde DoD (Depth of Discharge — profundidade de descarga) é o quanto você deixa a bateria descarregar antes de parar. Para LiFePO4, fabricantes garantem 80% de DoD seguro para 3.000+ ciclos; para ser conservador com vida útil, eu uso 0,80.

Aplicando pro nosso sítio com 2 dias de autonomia (padrão mínimo para o Centro-Oeste e Sudeste, onde sequências de 2–3 dias nublados são comuns especialmente entre maio e agosto):

2.225 Wh × 2 ÷ 0,80 = 5.562 Wh nominais

Arredondando pra múltiplo comercial: 6 kWh de banco de baterias LiFePO4.

Para 3 dias de autonomia — recomendado para áreas com muita nebulosidade ou geração fotovoltaica mais limitada (Norte do Brasil, Mata Atlântica densa):

2.225 Wh × 3 ÷ 0,80 = 8.344 Wh nominais

Ou seja: pelo menos 8 kWh de banco para dormir tranquilo numa sequência de 3 dias sem sol.

Comparativo: o que cada tamanho de banco entrega

Na prática, os bancos de baterias LiFePO4 residenciais são vendidos em módulos de 5 kWh, 10 kWh ou 15 kWh. Veja o que cada um entrega para o perfil de consumo acima (2,2 kWh/dia):

Banco LiFePO4Capacidade utilizável (×0,80)Dias de autonomiaViável para
5 kWh4,0 kWh1,8 diasSítio com gerador de backup
10 kWh8,0 kWh3,6 diasRegião Sul/Sudeste (inverno nublado)
15 kWh12,0 kWh5,4 diasNorte/Nordeste com baixa irradiação em março-abril
20 kWh16,0 kWh7,2 diasOff-grid sem gerador, conforto máximo

O banco de 5 kWh — o mais vendido porque é o mais barato — dá menos de dois dias úteis. Está bem dimensionado se o sítio tiver gerador a diesel como backup, ou se o padrão de uso for mais leve que o levantamento acima. Mas como sistema autônomo exclusivo num Sudeste com invernos de São Paulo ou Minas Gerais? Insuficiente.

O erro que vejo repetir: dimensionar pelo painel, não pela bateria

Atendi um cliente em Pouso Alegre (MG) em 2025 com sistema de 3 kWp instalado e banco de 5 kWh. O integrador vendeu o argumento de que “3 kWp gera mais de 3 kWh por dia nessa região” — o que é correto em termos de geração anual média.

O problema é que geração média não resolve sequência de dias ruins.

Pouso Alegre tem HSP média de 4,6 kWh/m²/dia (dados CRESESB, referência atlas solar). Isso significa que nos piores meses de inverno (junho-julho), a HSP real cai para 3,8–4,0 — e numa sequência de 4 dias encobertos, o painel gera 30–40% do esperado. Com banco de 5 kWh, o sistema zerava na noite do segundo dia e o cliente chamava minha ligação na terceira manhã.

A correção foi simples: adicionamos um módulo de 5 kWh ao banco existente (de 5 para 10 kWh), redimensionamos o controlador de carga e o problema acabou. Custo da correção em maio de 2025: R$ 9.800 em peças + R$ 1.200 de mão de obra. Custo que poderia ter sido evitado com R$ 4.000 a mais no orçamento original.

Como calcular para o seu caso específico

Três perguntas definem tudo:

1. Qual o consumo diário real? — Levante aparelho por aparelho (não use média de conta de luz). Some os Wh. Geladeira nova tem etiqueta Procel com consumo mensal em kWh: divida por 30.

2. Quantos dias de autonomia você precisa? — Pesquise a nebulosidade histórica da sua região. Sul e Sudeste (especialmente jun-ago): mínimo 3 dias. Nordeste e Centro-Oeste (seco no inverno): 2 dias costuma bastar. Norte (chuvas de fev-maio): 3–4 dias.

3. Tem gerador de backup? — Com gerador, pode trabalhar com 1,5–2 dias de autonomia na bateria, usando o gerador como último recurso. Sem gerador, dimensione para 3+ dias.

A fórmula final é a mesma: Consumo × Dias ÷ 0,80 = kWh nominal do banco.

Para o sítio que usei de exemplo — 2,2 kWh/dia, interior de São Paulo, sem gerador — o número correto é 10 kWh de banco, não 5 kWh. Quase o dobro do que os kits básicos oferecem.

Se o integrador cotar um banco menor que esse, peça que ele mostre os cálculos. Se não tiver, esse é o sinal.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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