segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Payback & Lei 14.300

Consórcio solar, CDC ou capital próprio: refiz o VPL nas 3 modalidades para R$ 25 mil

Três formas de pagar pelo mesmo sistema solar de 5 kWp — e o resultado que surpreende quem só olha para a parcela. Calculei VPL, TIR e payback real nas 3 modalidades com dados de junho/2026.

Bruno Aragão 7 min de leitura
Mesa com calculadora, contratos e moedas representando comparativo entre consórcio, CDC e capital próprio para financiamento solar
Mesa com calculadora, contratos e moedas representando comparativo entre consórcio, CDC e capital próprio para financiamento solar

Semana passada um cliente em Goiânia me mandou três propostas em PDF: consórcio num grupo de energia da Porto Seguro, CDC pelo Santander Solar e a opção de usar as reservas dele (CDB liquidez diária, rendendo ~10,5% aa). A pergunta dele: “qual dessas eu assino?” Minha resposta foi que ele precisava parar de olhar pra parcela e olhar pro VPL — e que o resultado das três modalidades não é o que a maioria espera.

A tese

Consórcio solar parece a modalidade inteligente porque “não tem juros”. CDC parece caro porque a parcela é maior. Capital próprio parece o melhor porque você não paga nada a banco. Mas quando você coloca os três em VPL (Valor Presente Líquido) com a mesma taxa de desconto — que é o que qualquer decisão de alocação de capital exige —, a hierarquia muda. E a modalidade que parece pior na parcela pode ter o melhor resultado no horizonte de 10 anos.

Evidência 1 — O que cada modalidade realmente custa

Vou usar o sistema do cliente: 5 kWp, Goiânia (GO), investimento total de R$ 25.000 (preço à vista com o integrador). HSP de Goiânia: ~5,6 kWh/m²/dia. Tarifa B1 CELG-D: ~R$ 0,92/kWh (vigência junho/2026, sem bandeira). Geração mensal estimada: ~700 kWh. Economia líquida estimada (já com Fio B de 60% e custo de disponibilidade de 100 kWh descontado): ~R$ 420/mês ou R$ 5.040/ano.

CDC (Santander Solar) — 72 meses a 2,1% ao mês

A proposta trazia 72 parcelas de R$ 600. Total pago: R$ 43.200. Custo real do dinheiro: R$ 18.200 em juros. Taxa efetiva anual: ~28,4% aa.

Payback simples (quando a economia acumulada supera o total pago): 8,6 anos — um ano depois que você terminou de pagar as parcelas.

Consórcio (Porto Seguro Energia) — 60 cotas de R$ 530

Sem juros — só taxa de administração de 16% diluída em 60 meses. Total pago: R$ 29.000 (~R$ 4.000 de taxa, mais R$ 480 de seguro do grupo). O problema: o consórcio entregou a carta de crédito no mês 18 do grupo (mediana histórica no segmento energia, segundo a ABAC — Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios). Ou seja, 18 meses pagando parcela sem geração nenhuma enquanto o vizinho com CDC já estava gerando desde o mês 1.

Payback real (contando desde o primeiro pagamento da cota, não da instalação): 12,3 anos.

Capital próprio — R$ 25.000 do CDB

Aqui o custo não é zero. É o custo de oportunidade: R$ 25.000 num CDB a 10,5% aa renderiam ~R$ 2.625 por ano. Deixar de ganhar isso é um custo real. Payback ajustado pelo custo de oportunidade: 5,4 anos (R$ 25.000 ÷ R$ 4.617 de economia líquida anual descontada do rendimento perdido no horizonte da análise).

Tabela comparativa — sistema 5 kWp, Goiânia, R$ 25 mil

ModalidadeTotal pagoTempo até gerarPayback real¹VPL em 10 anos²
Capital próprioR$ 25.000Imediato5,4 anos+R$ 21.300
ConsórcioR$ 29.00018 meses (mediana)12,3 anos+R$ 8.700
CDC 72xR$ 43.200Imediato8,6 anos-R$ 3.100

¹ Payback contado desde o primeiro desembolso, não da instalação.
² VPL calculado com taxa de desconto de 10,5% aa (custo de oportunidade do CDB), geração com degradação 0,5%/ano, reajuste tarifário de 6% aa.

O CDC, no horizonte de 10 anos com taxa de desconto realista, tem VPL negativo. Isso não significa que o sistema solar é ruim — significa que pagar 2,1% ao mês por 72 meses é ruim. O solar em si retorna positivo; os juros comem o retorno.

Evidência 2 — O consórcio surpreende quem calcula o atraso

A maioria das análises que vejo sobre consórcio solar trata o “sem juros” como vantagem automática. Não é. O grupo de consórcio do cliente tinha mediana de 18 meses pra contemplação. Durante esse período, ele pagaria R$ 530/mês sem geração. Isso é R$ 9.540 pagos antes de ligar um painel.

Fiz o cálculo do tempo de atraso como custo implícito: 18 meses × R$ 420 de economia que não entrou = R$ 7.560 de geração perdida mais R$ 9.540 de pagamento adiantado sem retorno. Esse atraso eleva o custo total efetivo do consórcio de R$ 29.000 para ~R$ 35.000 em termos de caixa real consumido antes de ver resultado.

Consórcio faz sentido em dois casos específicos: quem não tem pressa (e pode ser sorteado no mês 1 — improvável, mas possível) ou quem vai financiar um sistema grande (R$ 60 mil+) onde a taxa de administração de 16% vira vantagem sobre juros de CDC que dobram o valor. Em sistemas de R$ 20–30 mil, a matemática raramente favorece o consórcio quando você inclui o atraso.

Contra-argumento honesto

Há um caso em que o CDC ganha no horizonte mais longo: quando você projeta reajuste tarifário de 10%+ ao ano (acima da taxa do CDB), o solar financiado ainda entrega TIR positiva porque a economia futura compensa os juros pagos. Esse cenário não é impossível — a energia brasileira tem histórico de reajustes acima do CDI em anos de bandeira crítica. Se você acredita em tarifa subindo 10–12% aa pra sempre, o CDC fica menos ruim. Mas como premissa conservadora pra planejamento financeiro — e é o que uso — projetar reajuste de 6% aa (média histórica da ANEEL nos últimos 8 anos) é mais razoável. Nessa premissa, CDC perde.

Onde isso te leva

A melhor modalidade não é um mantra — é o resultado de uma equação com três variáveis: custo do dinheiro, tempo até gerar, e custo de oportunidade do seu capital. Quem tem a reserva e consegue repô-la em 24–36 meses: capital próprio, sem discussão. Quem não tem reserva: compare CDC com prazo de 36–48 meses (TIR cai, mas o VPL ainda fecha positivo) antes de aceitar 72 meses — como detalho em quanto tempo de financiamento realmente maximiza o retorno do solar. Consórcio: só se você tiver lance inicial alto o suficiente para contemplação no primeiro semestre.

E antes de qualquer uma das três: calcule se o solar fecha conta no seu perfil. O sistema que não tem economia líquida suficiente vai dar prejuízo nas três modalidades — a diferença é só o tamanho do rombo. A régua de entrada está em quanto de conta de luz você precisa pra o solar fechar a conta.

Uma última perspectiva que muda o cálculo pro quem está na dúvida entre solar e manter o CDB: o solar não é um investimento financeiro no sentido clássico. A comparação entre solar e renda fixa (TIR, CDI, Tesouro) mostra que o solar compite com a renda fixa só quando você usa capital próprio a custo de oportunidade baixo. Com CDC de 2,1% ao mês, a comparação é desnecessária — a renda fixa vence sem esforço. E, se você optou pelo financiamento, leia a Lei 14.300/22 com atenção antes de fechar — o que mudou no contrato solar com a nova lei afeta o que o integrador é obrigado a entregar.

O cliente de Goiânia optou por capital próprio — usou R$ 25.000 do CDB, com a condição de repor R$ 1.000/mês dos R$ 420 que o solar economizaria mais um aporte extra. Em 26 meses ele reconstrói a reserva. Eu não faria diferente.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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