Prefixado ou pós-fixado no CDI: qual financiamento solar trava a taxa certa em 2026?
Cliente me perguntou se o pós-fixado não seria melhor com a Selic caindo. Refiz a conta com a taxa Sicoob Credpit (CDI + 0,40% a.m.) contra o CDC prefixado — e o resultado inverteu a intuição.
“Bruno, com a Selic caindo desde março, não faz mais sentido pegar o financiamento que acompanha o CDI, em vez de travar uma taxa fixa que pode ficar cara daqui a um ano?” A pergunta veio de um cliente de Porto Alegre que tinha duas propostas na mesa: uma prefixada, tabela Price fechada; outra pós-fixada, atrelada ao CDI, com parcela decrescente. Ele já tinha decidido mentalmente pela pós-fixada — “óbvio, a Selic só cai”. Abri a planilha pra confirmar o óbvio. Não confirmei.
O que importa decidir
A confusão que meu cliente fez é comum: tratar “a Selic está caindo” como sinônimo de “o pós-fixado já está mais barato agora”. São coisas diferentes. Antes de escolher entre as duas modalidades, quatro perguntas decidem o caso:
- Qual é a taxa pós-fixada HOJE, CDI mais o spread que o banco ou cooperativa cobra em cima — não o discurso de “acompanha a Selic”.
- O prazo é o mesmo nas duas propostas? Pós-fixado costuma vir com prazo mais longo, o que já encarece o total pago antes mesmo de discutir taxa.
- Quanto a taxa média do contrato inteiro precisaria cair pra pós-fixado empatar com o prefixado — não só “estar caindo agora”, mas caindo o suficiente, pelo tempo todo do contrato.
- Você aguenta parcela subindo se a Selic reverter por causa de um choque de inflação ou câmbio? Pós-fixado sobe junto, sem aviso prévio.
A conta: CDI + spread contra a tabela fixa
Usei como referência real a linha de crédito fotovoltaico da Sicoob Credpit, uma das poucas do mercado que oferece as duas modalidades lado a lado pro mesmo produto: prefixado a partir de 1,25% ao mês em até 60 meses, e pós-fixado em CDI mais 0,40% ao mês em até 72 meses, com parcela decrescente conforme o índice se move.
O CDI fechou em 13,65% ao ano em 27 de setembro de 2026, segundo o acompanhamento diário do Numerando — um dia depois de o Copom cortar a Selic pela quinta vez seguida, pra 13,75% ao ano, em 16 de setembro. Isso equivale a cerca de 1,07% ao mês. Somando o spread de 0,40%, a taxa pós-fixada de hoje fica em 1,47% ao mês — bem acima da faixa prefixada de 1,25%.
Rodei um sistema de 5,5 kWp em Porto Alegre (RS), R$ 27.500 de investimento (referência de R$ 5.000/kWp), HSP de 4,4 kWh/m²/dia segundo o Atlas Brasileiro de Energia Solar do CRESESB/CEPEL, performance ratio de 0,78. A geração fica perto de 566 kWh/mês. Com a tarifa B1 da CEEE Equatorial em R$ 0,822/kWh (TUSD + TE, sem impostos) e o Fio B de 60% da Lei 14.300 pesando sobre a energia injetada, a economia líquida gira em torno de R$ 445/mês — número que uso só pra situar o sistema, não como parte da conta de juros abaixo.
| Modalidade | Taxa hoje | Prazo | Parcela | Juros totais |
|---|---|---|---|---|
| Prefixado (tabela fixa) | 1,25% a.m. | 60 meses | R$ 654,24 | R$ 11.754 |
| Pós-fixado (CDI + 0,40%, taxa parada em set/2026) | 1,47% a.m. | 72 meses | R$ 621,74 | R$ 17.265 |
A parcela do pós-fixado parece mais leve — R$ 32 a menos por mês. Mas isso é ilusão de prazo, não de taxa: esticar 12 meses derruba a parcela e ainda assim deixa R$ 5.511 a mais em juros pagos no total, mesmo com a Selic supostamente “ajudando”. É a mesma armadilha que já mapeei comparando crédito com garantia de imóvel contra CDC solar: taxa baixa (ou, aqui, taxa que promete cair) esticada num prazo maior quase sempre perde pra taxa fixa mais curta.
O que a queda da Selic precisaria valer pra pós-fixado ganhar
Refiz a conta ao contrário: qual seria a taxa média que o pós-fixado precisaria manter nos 72 meses inteiros pra empatar em juros totais com o prefixado de 60 meses? O resultado: cerca de 1,04% ao mês — o que, descontando o spread de 0,40%, exige uma CDI média de aproximadamente 8% ao ano durante os seis anos inteiros do contrato.
Isso é quase 6 pontos percentuais abaixo de onde a CDI está agora. E mesmo a projeção mais otimista que encontrei pro ciclo de cortes — 13,25% ao ano até dezembro de 2026 e 11,25% em 2027, patamar que a casa que revisou sua estimativa depois da ata de setembro do Copom já considera o cenário mais agressivo de queda — deixa a taxa pós-fixada combinada em torno de 1,29% ao mês em 2027. Ainda seria mais cara que o prefixado de hoje, bem longe do 1,04% que fecharia a conta. E note: esse empate de juros totais nem leva em conta que os 12 meses extras do pós-fixado valem menos em dinheiro de hoje — trazendo a valor presente, a distância só aumenta.
Minha escolha e por quê
Eu fecharia o prefixado, e não é por desconfiar do Copom — é porque o mercado já precifica boa parte do corte esperado na taxa que os bancos oferecem hoje, e o spread do pós-fixado (0,40% ao mês, quase 6% ao ano só de margem) come qualquer vantagem de acompanhar o índice. Quem entra no pós-fixado achando que “a Selic só vai cair” está comprando uma aposta com prêmio embutido contra ele, não uma vantagem de graça.
A exceção honesta: se sua cooperativa oferecer um spread bem menor que 0,40% — vi propostas com 0,15% a 0,25% em relacionamentos antigos — e o prazo vier igual ao do prefixado (não maior), a conta pode virar. Nesse caso, peça as duas simulações no mesmo prazo, como já recomendei ao comparar prazos de 60, 72 e 84 meses: comparar taxa contra taxa só faz sentido quando o prazo não muda escondido no meio da proposta. E quem ainda está decidindo entre financiar e pagar à vista deveria rodar primeiro essa conta — porque nenhuma das duas modalidades de crédito bate capital próprio em TIR.
Perguntas que valem a pena responder
Financiamento pós-fixado acompanha exatamente a queda da Selic? Não. Ele acompanha o CDI, que anda perto da Selic mas com pequena defasagem, e ainda soma o spread da instituição — que não cai junto com o Copom.
Dá pra trocar de prefixado pra pós-fixado depois de assinar? Só via portabilidade de crédito formal, pedindo a outra instituição que assuma o saldo devedor. Já detalhei como funciona e quando compensa.
Pós-fixado existe em banco tradicional ou só em cooperativa? É bem mais comum em cooperativas de crédito, como Sicoob e Sicredi, que têm estrutura pra recalcular parcela pelo CDI. A maioria dos bancos comerciais que rodei em comparativos anteriores trabalha só com tabela prefixada.
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Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


