Solar aos 65: o payback que importa não é o do integrador, é o seu
Refiz a conta de um sistema de 5,5 kWp para quem tem mais de 60 anos: à vista, financiado em 60 meses e o que fica para quem herda. A resposta muda conforme a idade, mas quase nunca para "não vale".
Todo integrador mostra o mesmo slide: “payback de 5 anos, sistema de 25 anos de vida”. Para um cliente de 35 anos, a frase fecha. Para o seu Antônio, 66, aposentado, que me mandou a proposta de um sistema de R$ 27.500 com a pergunta “eu vou viver para ver isso pagar?”, ela não responde nada. Ele não precisa saber quando o sistema empata consigo mesmo. Precisa saber quando o caixa dele empata.
A tese
Para quem tem mais de 60 anos, o prazo certo do financiamento é o que faz o fluxo de caixa virar positivo cedo, e não o que tem a menor parcela. À vista, o solar costuma ser uma das raras decisões em que o aposentado troca capital parado por uma renda reajustada pela inflação da tarifa. Financiado em prazo longo, vira uma dívida que sobrevive ao tomador.
O cenário que usei
Peguei a mesma base de outros posts da série: sistema de 5,5 kWp em Porto Alegre (RS), R$ 27.500 de investimento, geração de cerca de 566 kWh por mês com HSP de 4,4 kWh/m²/dia, segundo o Atlas Brasileiro de Energia Solar do CRESESB/CEPEL. Tarifa B1 de R$ 0,822/kWh antes de impostos, como na minha conta de prefixado contra pós-fixado.
Premissas minhas, não de fonte externa: economia líquida de R$ 5.100 no primeiro ano (já descontando a cobrança do Fio B a 60% prevista na Lei 14.300 e o custo de disponibilidade), tarifa subindo 6% ao ano e degradação de 0,8% ao ano nos módulos. É conservador em degradação e otimista em tarifa; se você acha 6% muito, leia o que um ponto a mais de reajuste vale no payback e ajuste.
Evidência 1: à vista, o aposentado empata em 5 anos
Com essas premissas, o saldo acumulado do sistema pago à vista fica assim:
| Ano | Economia no ano | Saldo acumulado |
|---|---|---|
| 4 | R$ 5.930 | menos R$ 5.469 |
| 5 | R$ 6.235 | mais R$ 766 |
| 8 | R$ 7.249 | mais R$ 21.466 |
| 10 | R$ 8.015 | mais R$ 37.104 |
Aos 66, o seu Antônio empata aos 71 e termina o décimo ano, aos 76, com R$ 37 mil de saldo positivo. É um retorno que só depende dele estar vivo e morando na casa. E se não estiver morando, o imóvel carrega a vantagem, como mostrei em valorização do imóvel com solar.
Evidência 2: financiado em 60 meses, o fluxo vira no ano 7
Usei a parcela de R$ 654,24 (1,25% ao mês, 60 meses) da linha da Sicoob Credpit que citei no post de prefixado. São R$ 7.851 por ano de parcela contra R$ 5.100 a R$ 6.235 de economia nos primeiros cinco anos. Ou seja: durante todo o contrato, o aposentado paga mais do que economiza.
| Ano | Saldo acumulado financiado |
|---|---|
| 3 | menos R$ 7.451 |
| 5 | menos R$ 10.988 |
| 6 | menos R$ 4.432 |
| 7 | mais R$ 2.462 |
| 10 | mais R$ 25.350 |
O fundo do poço é de quase R$ 11 mil negativos no quinto ano. Quem tem aposentadoria de um salário mínimo e fecha esse contrato está pagando, por 60 meses, uma parcela de R$ 654 para economizar uns R$ 425 na conta de luz. Na planilha parece “investimento”; no extrato do mês é rombo. Eu não faria esse contrato com renda apertada. Para esse perfil, comparei alternativas no post sobre consignado para pagar energia solar, que costuma ter taxa menor.
Evidência 3: o prazo longo e a herança
O desconforto que ninguém coloca na proposta: um financiamento de 84 ou 96 meses para quem tem 70 anos pode passar dos 78. Pergunte ao banco se existe seguro prestamista, quanto ele custa e o que cobre; ele entra no CET e encarece a parcela. Pergunte também o que acontece com o contrato em caso de falecimento. A resposta varia por instituição e por contrato, e é justamente por isso que precisa estar escrita. Em prazo de 60, 72 ou 84 meses mostrei que esticar derruba a parcela e infla os juros; para idoso, soma-se o risco de o contrato durar mais do que o planejado.
O contra-argumento honesto
Existe um argumento forte contra a minha tese: se o aposentado tem R$ 27.500 aplicados em renda fixa a mais de 13% ao ano, tirar esse dinheiro para o solar tem custo de oportunidade. Tem mesmo. Comparei os dois caminhos para um perfil parecido em solar contra Tesouro IPCA+. Meu ponto: o rendimento da renda fixa paga imposto e vira renda tributável; a economia na fatura não. Mesmo assim, se a reserva de emergência é todo o patrimônio líquido, não toque nela. Solar não é reserva, não se resgata em D+1.
Onde isso te leva
Minha regra prática para quem tem mais de 60 anos, sem dogma:
- Tem o dinheiro sobrando além da reserva de seis meses de despesas: à vista, sem pensar muito.
- Não tem, mas a conta de luz passa de R$ 450 por mês: financie em até 60 meses e só se a parcela couber folgada na aposentadoria, lembrando do que vale o tamanho mínimo de conta para o solar fechar.
- Conta abaixo de R$ 250: o integrador vai insistir, e a minha planilha diz que dificilmente fecha em prazo confortável.
- Em qualquer caso: exija contrato com garantia de produção dos módulos e do inversor por escrito, porque quem está na terceira idade não tem tempo nem paciência para brigar por garantia.
Fontes
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


