Payback solar por região: o ranking das capitais brasileiras em 2026
O mesmo sistema solar se paga em 3,4 anos no Nordeste e em 6 anos no Sul. Montei o ranking de payback de 8 capitais com HSP, tarifa e Fio B reais de 2026.
Dois clientes me mandaram o mesmo orçamento na mesma semana: sistema de 5 kWp, R$ 22 mil, do mesmo fabricante de painel. Um mora em Teresina, o outro em Curitiba. O integrador prometeu “payback de até 4 anos” pros dois — usando a mesma planilha, com o mesmo número de sol. O problema é que Teresina recebe quase 40% mais radiação por dia que Curitiba, e a tarifa de energia das duas cidades nem se parece. Quando refiz a conta de cada um separado, a diferença foi de mais de dois anos e meio. Mesmo sistema, mesmo preço, mundos diferentes.
A pergunta que quase ninguém faz antes de assinar é simples: quanto o solar demora pra se pagar na MINHA cidade — não na cidade da planilha genérica do vendedor? É isso que vou responder, capital por capital.
O que muda o payback de uma cidade pra outra
Antes do ranking, quatro variáveis que mexem no resultado mais do que a marca do painel — e que o orçamento padrão costuma esconder:
- HSP (Horas de Sol Pleno). É quanta energia o sol entrega por dia na sua região. Vai de cerca de 4,2 kWh/m²/dia no Sul a 5,9 no semiárido nordestino, segundo a base CRESESB SunData / CEPEL. Mais HSP = mais geração com o mesmo sistema = payback mais curto.
- Tarifa de energia (B1). Quanto mais cara a luz da sua distribuidora, mais cada kWh que o painel gera vale. Tarifa residencial varia muito entre estados, conforme o ranking da ANEEL.
- Fio B (Lei 14.300/2022). Sobre a energia que sobra e vai pra rede, incide um pedaço da TUSD-Fio B: 60% em 2026, subindo pra 75% em 2027 e 90% em 2028 (ANEEL — Geração Distribuída). Isso vale igual no Brasil inteiro, mas pesa mais onde a tarifa é alta.
- Autoconsumo. Energia consumida na hora que o painel gera vale a tarifa cheia; a que sobra leva a mordida do Fio B. Casa com gente em casa de dia tem payback melhor — esse fator independe da cidade, mas distorce qualquer média regional.
O ranking: 8 capitais, mesmo sistema, conta refeita
Pra comparar maçã com maçã, fixei o sistema e variei só a geografia. Premissas, todas na mesa:
- Sistema: 5 kWp, custo R$ 22.000 (R$ 4,40/Wp, faixa real de mercado residencial em 2026).
- Performance ratio: 80% (perdas de inversor, cabo, temperatura e sujeira).
- Consumo da casa: dimensionado pra zerar a fatura, com 70% de autoconsumo e 30% injetado na rede.
- Fio B: 60% da TUSD-Fio B em 2026, num valor médio de R$ 0,30/kWh sobre a parte injetada.
- HSP: base CRESESB de cada capital. Tarifa B1: faixa vigente da distribuidora local com tributos.
- Sem reajuste de tarifa projetado — payback real tende a ser um pouco menor, porque a luz sobe quase todo ano.
Geração mensal estimada = 5 kWp × HSP × 30 × 0,80. A economia mensal mistura a parte autoconsumida (tarifa cheia) com a injetada (tarifa menos Fio B). Daí saem os anos:
| Capital | HSP (kWh/m²/dia) | Tarifa B1 aprox. | Economia/mês | Payback estimado |
|---|---|---|---|---|
| Teresina (PI) | 5,8 | R$ 0,92 | ~R$ 560 | ~3,3 anos |
| Fortaleza (CE) | 5,7 | R$ 0,88 | ~R$ 530 | ~3,5 anos |
| Cuiabá (MT) | 5,5 | R$ 0,95 | ~R$ 545 | ~3,4 anos |
| Goiânia (GO) | 5,3 | R$ 0,89 | ~R$ 490 | ~3,7 anos |
| Brasília (DF) | 5,2 | R$ 0,80 | ~R$ 430 | ~4,3 anos |
| Belo Horizonte (MG) | 5,0 | R$ 0,98 | ~R$ 500 | ~3,7 anos |
| São Paulo (SP) | 4,6 | R$ 0,78 | ~R$ 365 | ~5,0 anos |
| Curitiba (PR) | 4,3 | R$ 0,82 | ~R$ 360 | ~5,1 anos |
Repare numa coisa que destrói a ideia de “Nordeste sempre ganha”: Belo Horizonte tem HSP médio, mas paga uma das tarifas mais caras do país — e isso empurra o payback de BH pra perto do de Goiânia, que tem mais sol e luz mais barata. Sol não é tudo. A conta é HSP vezes tarifa, e quem só olha o mapa de irradiação erra feio.
E o outro extremo: Curitiba não tem payback “ruim” — tem payback de cinco anos, que ainda é um investimento excelente pra um ativo que dura 25 anos. O erro do vendedor não foi dizer que solar compensa no Sul. Foi prometer o mesmo prazo do Nordeste.
Minha leitura: onde o solar é “óbvio” e onde exige conta
Com Fio B em 60% e subindo, eu separo o Brasil em três grupos pra decisão de payback:
- Compensa quase sempre (payback < 4 anos): Nordeste, Centro-Oeste e o miolo seco do país. Teresina, Fortaleza, Cuiabá, Goiânia. Aqui o sol carrega a conta mesmo com tarifa moderada. Se você mora nessa faixa e tem telhado bom, a dúvida não é “se” — é qual integrador.
- Compensa com folga, mas exige autoconsumo bom (4 a 5 anos): Sudeste em geral, Brasília, BH. O payback é ótimo, mas é sensível ao quanto você consome de dia. Casa vazia das 8h às 18h derruba o autoconsumo e estica o prazo. Vale dimensionar com cuidado pra não comprar um sistema maior do que o telhado consegue pagar.
- Compensa, mas é decisão de longo prazo (acima de 5 anos): Sul. Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis. Continua valendo muito — só não espere milagre de três anos. Aqui a comparação certa é solar contra outras aplicações, não solar contra fatura; já fiz esse comparativo de TIR do solar contra CDI e Tesouro.
Uma observação que vale pra todo o ranking: esses prazos sobem um pouco a cada ano da transição do Fio B. Quem liga o sistema em 2027 e 2028 paga uma fatia maior sobre a energia injetada — então a casa com alto autoconsumo sofre menos com a mudança, em qualquer região. Se a maior parte da sua geração é consumida na hora, o Fio B quase não te toca.
Perguntas que recebo toda semana
Esses números servem pro meu orçamento? Servem como régua, não como contrato. Se o vendedor te prometer um payback muito mais curto que o da sua faixa aqui, peça pra ele mostrar a conta com HSP da sua cidade e Fio B de 60%. Se ele usar 0% de Fio B ou HSP de outra região, a planilha está inflada.
Por que minha cidade não está na lista? Peguei 8 capitais pra cobrir os extremos. Pra estimar a sua: pegue o HSP da sua cidade no CRESESB SunData, veja sua tarifa B1 na conta de luz e compare com a capital mais parecida da tabela. O payback anda junto com HSP × tarifa.
Vale a pena esperar a tarifa subir pra instalar? Não. Tarifa mais alta melhora o payback de quem já tem sistema, mas adiar significa pagar conta cheia o ano inteiro de espera — e ainda entrar numa faixa pior do Fio B. O melhor dia pra ligar foi ontem; o segundo melhor é antes da próxima virada de ano da Lei 14.300.
O payback muda muito entre marcas de painel? Muito menos do que entre regiões. A diferença de geração entre um módulo bom e um excelente fica na casa de 2% a 4% ao ano. A diferença entre Teresina e Curitiba é de 35%. Resolva a geografia e o dimensionamento primeiro; a escolha de marca é fine-tuning depois disso.
Vale terminar com o que repito pra todo cliente: o solar quase sempre compensa no Brasil inteiro. O que muda — e muda muito — é quando ele se paga. Quem entende isso negocia melhor, dimensiona melhor e não cai na promessa de prazo único que serve pra qualquer CEP.
Fontes
- CRESESB / CEPEL — base SunData de irradiação solar (HSP por município): http://www.cresesb.cepel.br/index.php?section=sundata
- ANEEL — Tarifas de energia elétrica: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas
- ANEEL — Microgeração e Minigeração Distribuída (Lei 14.300/2022 e transição do Fio B): https://www.gov.br/aneel/pt-br/centrais-de-conteudos/principais-temas/microgeracao-e-minigeracao-distribuida
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


