DPS solar: tipo 1 ou tipo 2, lado CC ou CA — como escolher sem errar em 2026
O DPS é o item mais barato do orçamento solar e o que mais some das propostas. Guia técnico com os 4 critérios pra escolher entre tipo 1 e tipo 2, lado CC e CA, e a tabela que mostra quando cada um é obrigatório.
Revisei um orçamento de 8 kWp semana passada em que o integrador detalhou marca de painel, modelo de inversor, bitola de cabo — e não tinha uma única linha sobre DPS. Perguntei. A resposta foi: “ah, isso já vem na string box”. Não vem necessariamente, e mesmo quando vem, quase ninguém checa se é tipo 1 ou tipo 2, nem se cobre os dois lados do inversor. É um componente de R$ 60 a R$ 300 que decide se um raio a 400 metros da sua casa vai custar a queima de um inversor de R$ 4 mil.
O que importa decidir antes de comprar
O DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos, ou SPD em inglês) desvia para o aterramento os picos de tensão causados por descargas atmosféricas diretas ou induzidas. No sistema solar você decide quatro coisas — e errar qualquer uma delas é jogar dinheiro fora ou deixar um flanco aberto.
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Tipo 1 ou tipo 2. O tipo 1 aguenta corrente de surto de descarga direta (forma de onda 10/350 µs) e só faz sentido onde existe SPDA (para-raios) na edificação ou risco alto de queda direta. O tipo 2 protege contra surtos induzidos (forma de onda 8/20 µs), que são a esmagadora maioria dos casos residenciais sem para-raios. Os dois critérios estão na ABNT NBR 16690, que rege as instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos (ABNT, NBR 16690:2019).
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Lado CC ou lado CA — ou os dois. O inversor tem entrada em corrente contínua (vinda dos módulos) e saída em corrente alternada (para o quadro da casa). Surto entra dos dois lados. DPS de CA é o de quadro comum; o de CC tem que ser específico para tensão fotovoltaica (existem modelos de até 1000 V e 1500 V CC), porque arco em corrente contínua não se apaga sozinho como em CA.
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A distância entre o DPS e o que ele protege. Acima de cerca de 10 metros de cabo entre o DPS e o inversor, a norma recomenda um segundo estágio de proteção mais perto do equipamento. Por isso é comum ver DPS na string box (perto dos módulos) e outro junto ao inversor.
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Tensão máxima de operação contínua (Uc). O DPS de CC precisa ter Uc acima da tensão de circuito aberto da string corrigida pela temperatura. Subdimensionar a Uc faz o DPS envelhecer rápido e, no limite, entrar em curto.
A tabela de decisão rápida
Montei isto a partir do que aplico em projeto residencial, cruzando os requisitos da NBR 16690 com a presença ou não de para-raios. É um ponto de partida, não substituto do laudo de risco.
| Situação da edificação | Lado CC | Lado CA | Observação |
|---|---|---|---|
| Casa sem SPDA, área urbana, baixo risco de raio | DPS tipo 2 (até 1000/1500 V CC) | DPS tipo 2 | Cenário mais comum no Brasil residencial |
| Casa com SPDA (para-raios) na edificação | DPS tipo 1+2 combinado | DPS tipo 1+2 combinado | SPDA exige tipo 1 para descarga direta |
| Telhado alto, zona rural, alta incidência de raios | DPS tipo 1+2 | DPS tipo 1+2 | Avaliar SPDA junto ao projeto |
| Cabo CC > 10 m entre string box e inversor | tipo 2 na string box e tipo 2 no inversor | tipo 2 no quadro | Dois estágios |
O erro que mais vejo é o oposto do que se imagina: não é gente comprando proteção de menos, é integrador colocando só DPS de CA e esquecendo o lado CC. A entrada CC do inversor é justamente a porta mais exposta, porque os cabos dos módulos correm pelo telhado, no ponto mais alto da casa, captando indução de qualquer descarga na vizinhança.
Minha escolha e por quê
Para a casa urbana típica, sem para-raios, eu especifico DPS tipo 2 nos dois lados — um na string box (CC) e um no quadro CA junto ao inversor. É o ponto onde custo e proteção se encontram: cobre os surtos induzidos, que são 90% dos eventos reais, sem pagar pelo tipo 1 que só compensa onde há SPDA ou risco de descarga direta.
Onde eu não economizo é na Uc do lado CC e na classe do produto. Já vi DPS de CC genérico de baixa Uc abrir em curto e desligar a string inteira num verão de chuva forte — o cliente achou que o painel tinha queimado. Era o DPS subdimensionado. Esse é o tipo de “economia” que custa uma visita técnica e dias de geração perdida.
Tem uma coisa que ninguém comenta no orçamento: o DPS é um item de sacrifício. Ele se gasta protegendo. Depois de um surto grande, o indicador de status (a janelinha que muda de verde para vermelho) avisa que o cartucho precisa ser trocado. Se o seu sistema não tem como você ou o instalador ver esse indicador, você está protegido só até o primeiro raio sério — e nunca vai saber que ficou desprotegido. Por isso a posição do DPS dentro do quadro importa tanto quanto o modelo. Esse cuidado anda junto com um aterramento bem-feito, que é o que dá pro DPS um caminho de escoamento real — DPS sem aterramento decente é enfeite.
O DPS quase sempre mora dentro da string box do lado CC, junto com fusíveis e seccionadora, então a discussão “preciso de string box?” e “qual DPS?” são a mesma conversa na prática. E como ele convive com a proteção contra sobrecorrente, vale entender quando os fusíveis de string passam a ser obrigatórios no arranjo fotovoltaico — em sistemas pequenos, às vezes o fusível é dispensável, mas o DPS raramente é.
FAQ
DPS é obrigatório em sistema solar residencial? A NBR 16690 não cita o DPS como item universal e incondicional para toda instalação — a obrigatoriedade depende da análise de risco da NBR 5419 e das condições de exposição. Na prática, distribuidoras e projetistas o exigem na quase totalidade dos projetos residenciais, e omiti-lo costuma ser red flag de orçamento. Em sistema com para-raios na edificação, o tipo 1 deixa de ser opcional.
Se eu já tenho DPS no quadro geral da casa, preciso de outro no solar? Sim, do lado CC quase sempre. O DPS de CA do quadro geral não protege a entrada de corrente contínua do inversor, que é o flanco mais exposto. São dispositivos diferentes para tensões e formas de onda diferentes.
Quanto custa um DPS solar e dá pra trocar sozinho? Um DPS tipo 2 de CC adequado fica na faixa de R$ 60 a R$ 300 por unidade em 2026, dependendo de tensão e marca (segundo cotações de distribuidores como a NeoSolar). A troca do cartucho depois de um surto é simples no modelo plugável, mas mexer dentro do quadro com o sistema energizado é serviço de eletricista — corrente contínua não dá segunda chance.
O seguro do sistema cobre queima por raio se eu não tinha DPS? Aqui mora a pegadinha. Algumas apólices condicionam a cobertura de surto à existência de proteção adequada conforme norma. Vale conferir as cláusulas antes — esse é um dos pontos que detalho no guia sobre como funciona o seguro do sistema solar contra roubo e danos.
Fontes
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


