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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Rastreador solar (tracker): o ganho real vale o investimento fora da usina?

Vendedor de tracker promete até 35% mais energia. Fui atrás do único estudo brasileiro que mediu isso em campo e refiz o payback com o número medido, não o do catálogo.

Eng. Marcela Vargas 5 min de leitura
Fileiras extensas de painéis solares fixados em estrutura de rastreamento sobre terreno aberto
Fileiras extensas de painéis solares fixados em estrutura de rastreamento sobre terreno aberto

Todo vendedor de rastreador solar (tracker) diz a mesma frase: “ganha até 35% mais energia porque o painel segue o sol o dia inteiro”. Fui atrás do único trabalho brasileiro que testou isso em campo de verdade, não em folheto de venda — uma dissertação de mestrado feita no semiárido potiguar, uma das regiões de melhor sol do país. O número medido foi menos de um terço do que o catálogo promete. E isso derruba a conta de quem está cotando um sistema de solo maior achando que o tracker se paga sozinho.

A tese

Rastreador de eixo único é equipamento bom vendido pro público errado. Ele existe pra fazer sentido financeiro numa usina de geração distribuída de centenas de kW pra cima — não pro sítio de 8 kWp que o vendedor tentou empurrar semana passada. O problema não é só o preço do motor e do rolamento. É que o ganho real, medido em campo no Brasil, fica bem abaixo do número que sai do PDF do fabricante.

O número que a dissertação mediu — e o número que o vendedor usa

A pesquisadora Romênia Gurgel Vieira comparou, na dissertação de mestrado em Sistemas de Comunicação e Automação da UFERSA, um painel fixo e um painel com rastreamento de eixo único instalados lado a lado em Mossoró (RN) — cidade a 5° de latitude sul, com sol quase constante o ano inteiro, cenário ideal pra tracker. O ganho médio medido do módulo móvel sobre o estático foi de 11%, sem descontar ainda a energia que o próprio motor de rastreamento consome pra girar a estrutura.

Compare com o que o mercado anuncia. Fabricantes e integradoras costumam falar em ganho de 20% a 35% pra tracker de eixo único, número que aparece repetido em material de venda e em simuladores comerciais como o da CustoSolar, que cita até 25% de ganho típico pro Nordeste. Não é mentira — é o teto teórico em condições ideais de céu limpo e sem sombreamento entre fileiras. O número de campo, com nuvem passageira, poeira e o próprio consumo do sistema de rastreamento, fica bem mais perto do que a UFERSA mediu.

Onde o tracker realmente vive no Brasil hoje

Um levantamento da consultoria Greener, reportado pelo Canal Solar, avaliou 1,9 mil usinas de geração distribuída em construção ou operação no país — todas com potência mínima de 500 kW. Dessas, mais de 5 GW já usam tracker contra 1,46 GW em estrutura fixa. Ou seja: o tracker não é raro no Brasil, é comum — mas exclusivamente na faixa de usina, não na faixa residencial. E ele só existe montado no solo: não há como instalar rastreador em telhado, porque a estrutura precisa girar livre, sem sombrear o módulo vizinho, o que muda completamente a lógica de espaçamento em relação a uma estrutura de solo fixa comum.

A conta que muda quando você troca o número do catálogo pelo número medido

Refiz o cálculo de payback pra um sistema de solo de 8 kWp numa propriedade rural no Nordeste, HSP 5,5 kWh/m²/dia, tarifa de R$ 0,85/kWh — cenário parecido com o de quem está calculando o payback numa fazenda com tarifa agropecuária. A geração fixa de base fica em torno de 12.000 kWh/ano. O custo adicional do tracker, usando a referência de R$ 1.200/kWp da CustoSolar, dá R$ 9.600 de investimento extra sobre os 8 kWp.

CenárioGanho de geraçãoEnergia extra/anoValor extra/anoPayback do extra
Número do vendedor (25%)+25%3.000 kWhR$ 2.550~3,8 anos
Número medido (UFERSA, 11%)+11%1.320 kWhR$ 1.122
Número medido, líquido de O&M*+11%1.320 kWhR$ 802~12 anos

*O&M extra do tracker (lubrificação semestral, calibragem) fica entre R$ 30 e R$ 50/kWp/ano segundo a mesma referência — usei R$ 320/ano pros 8 kWp.

O payback do investimento extra em tracker mais que triplica quando você troca o número de venda pelo número de campo. Doze anos ainda cabe dentro dos 25 anos de vida útil do módulo — mas o motor, o rolamento e o sensor do tracker raramente chegam lá sem manutenção corretiva no meio do caminho, o que a conta de payback simples não captura.

O contra-argumento honesto

Onde minha tese pode falhar: se você já tem terreno de sobra, HSP acima de 5,5 e não paga mão de obra pela manutenção — é o próprio dono fazendo a lubrificação semestral —, a conta aperta menos. Um produtor rural com 30 a 50 kWp de área livre e disposição de cuidar do equipamento chega a um payback diferencial mais perto de 8 anos que dos 12 do cenário acima. Ainda é um prazo longo pra quem quer retorno rápido, mas dentro da vida útil do sistema. Não é “nunca vale a pena” — é “raramente vale numa escala que a maioria das propriedades rurais e residenciais brasileiras não tem”.

Onde isso te leva

Se seu sistema é de telhado, a pergunta nem se aplica: tracker não sobe em telhado. Se é de solo e fica abaixo de 30 kWp, o ganho real medido dificilmente cobre o custo extra dentro de um prazo que compense o risco mecânico adicional — prefira investir a diferença em mais módulo fixo, que converte 100% do investimento em geração sem peça girando. Se você está mesmo assim decidido a instalar tracker numa propriedade grande, exija o projeto com ART antes de assinar — o dimensionamento de espaçamento entre fileiras pra evitar autossombreamento é ainda mais crítico com estrutura móvel do que com fixa, e erro nesse cálculo derruba o ganho que sobrou depois de já ter pago o extra pelo motor.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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