segunda-feira, 1 de junho de 2026
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Comissionamento solar: o que o instalador testa antes de ligar na rede — e como cobrar isso dele

Comissionamento de sistema solar: 8 testes que o instalador deve fazer antes da energização em 2026. NBR 16690, medição de Voc/Isc e check de aterramento incluídos.

Eng. Marcela Vargas 8 min de leitura
Técnico eletricista medindo tensão em painel solar com multímetro durante comissionamento de sistema fotovoltaico
Técnico eletricista medindo tensão em painel solar com multímetro durante comissionamento de sistema fotovoltaico

A instalação terminou. O instalador juntou as ferramentas, pediu a assinatura e disse “já pode ligar”. Você ligou. O inversor subiu, a telinha mostrou geração, o instalador foi embora. Parece certo. Provavelmente não é.

O que acontece antes desse “pode ligar” é o comissionamento — o conjunto de testes elétricos, mecânicos e funcionais que a NBR 16690:2019 descreve e que diferencia uma instalação que vai durar 25 anos de uma que vai dar problema silencioso nos próximos 18 meses. A maioria dos instaladores residenciais não faz o comissionamento completo. Alguns não sabem que ele existe com esse nome. Outros sabem, mas apostam que você também não sabe.

A tese

A NBR 16690:2019 descreve um roteiro de verificação pré-energização para sistemas fotovoltaicos, mas ele raramente é seguido em instalações residenciais. O resultado prático é que defeitos detectáveis com um multímetro e uma câmera termográfica barata ficam escondidos dentro do sistema até se tornarem falha de rendimento, risco de incêndio ou vício oculto sem cobertura de garantia.

Vou mostrar os três pontos onde isso é mais grave, por que a situação é estrutural (não só culpa de instalador ruim), e o que você pede antes de assinar a ordem de serviço de entrega.


Evidência 1: a NBR 16690 cobre comissionamento — e quase ninguém lê essa parte

A NBR 16690:2019 (Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos) é citada em praticamente todo contrato solar como norma de referência, mas a maioria das citações para na seção de dimensionamento de condutores. A norma tem uma seção inteira dedicada a verificações e ensaios: inspeção visual, medição de continuidade, medição de resistência de isolamento, medição de Voc (tensão de circuito aberto) e Isc (corrente de curto-circuito) por string, e verificação funcional do inversor.

Segundo dados do CONFEA (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), apenas um subconjunto das ARTs registradas para projetos fotovoltaicos residenciais inclui laudos de comissionamento pós-instalação — a maioria registra projeto e execução como atividade única, sem o teste de entrega (CONFEA — Atividades e atribuições em fotovoltaico, 2025). Isso não é irregularidade explícita: a norma não impõe prazo nem penalidade ao instalador por não gerar relatório escrito do comissionamento. Mas é a janela pela qual defeitos de instalação passam invisíveis.

O contra-argumento honesto existe: pequenas integradoras residenciais trabalham com margem apertada, e instrumentação para comissionamento completo (analisador de string, termovisor, medidor de resistência de isolamento calibrado) representa custo de R$ 4.000 a R$ 15.000 em equipamento. Muitas fazem verificação visual + teste de tensão e chamam de comissionamento. Para sistemas abaixo de 5 kWp com string simples e telhado sem sombra, o risco é baixo. O problema aparece quando o sistema cresce, quando há mais de uma string, quando o telhado tem sombreamento parcial ou quando o instalador usou componentes de procedência duvidosa.


Evidência 2: os três testes que mais pegam problema real

Trabalhei em mais de 220 projetos fotovoltaicos desde 2014. Os defeitos que o comissionamento básico detecta e a “liga e vê se está gerando” não detecta se concentram em três categorias:

Resistência de isolamento abaixo do limite

A NBR 16690 exige medição de resistência de isolamento entre cada condutor CC e o terra de proteção, com tensão de ensaio de 500 V DC para sistemas abaixo de 600 V. O valor mínimo aceitável é 1 MΩ por trecho medido — e a recomendação de engenharia na prática é aceitar só acima de 10 MΩ em instalação nova.

Isolamento degradado no cabeamento CC (geralmente por conector MC4 mal crimpado, cabo solar roteado com raio de curvatura excessivo ou passagem por bordas metálicas sem proteção) não aparece no display do inversor como falha imediata. O inversor vê geração normal. A corrente de fuga vai para o aterramento, aquece o ponto de falha, e em meses vira carbonização. Em 2026, a ANEEL registrou relatos de ocorrências de incêndio com origem em sistema fotovoltaico residencial vinculados a falhas no cabeamento CC em inspeção pós-sinistro — dados compilados no relatório de regulação de segurança de sistemas de microgeração (ANEEL — Segurança em microgeração distribuída, 2025).

Voc e Isc de string fora da tolerância

Medir a tensão de circuito aberto (Voc) e a corrente de curto-circuito (Isc) de cada string antes de conectar no inversor leva 10 minutos e exige só um multímetro com medição de corrente ou um clamp. O que isso revela:

  • Módulo invertido na string (polaridade trocada): Voc cai pela diferença em vez de soma, o inversor protege, mas pode não proteger rápido o suficiente para não estressar o diodo de bypass.
  • Módulo com célula trincada não visível: Isc abaixo do valor de datasheet em mais de 3% indica célula fora do plano ou trinca oculta — caso documentado no nosso estudo de caso real de módulo com vidro quebrado e perda silenciosa de geração.
  • String com número incorreto de módulos: soa óbvio, mas já vi orçamento de 16 módulos entregue com 14 por “erro de remessa” que o instalador não checou porque não mediu Voc.

O datasheet de cada módulo traz Voc e Isc nominais em STC (25°C, 1000 W/m²). No campo, com irradiação menor, o Voc real é ajustado pelo coeficiente de temperatura. A NBR 16690 prevê esse ajuste na verificação — não é simples “bate com o número do catálogo”.

Aterramento e equipotencialização da estrutura

A resistência de aterramento do sistema fotovoltaico precisa ser medida com terrômetro (método Wenner ou pino de terra) e, para instalações residenciais, a referência prática adotada por projetos alinhados à NBR 5410 e à NBR 16690 é abaixo de 10 Ω. Estrutura metálica dos módulos, trilhos, inversor e quadro CA devem estar equipotencializados em condutor de proteção verde-amarelo dimensionado conforme a corrente de curto.

Na maioria das instalações que reviso, o aterramento foi feito, mas não foi medido. O instalador cravou o borne de terra, conectou o fio, e partiu. Se o solo é seco (muito comum no interior do Nordeste e Centro-Oeste), a resistência pode estar acima de 50 Ω, o que significa que na presença de surto (raio direto ou indireto) o equipamento é destruído e a estrutura fica energizada. O erro de aterramento silencioso que identificamos na prática detalha o caso — o consumidor só descobre na primeira tempestade de verão.


Evidência 3: o relatório de comissionamento é o seu principal instrumento de garantia

Quando o inversor falha no mês 14 e o instalador diz que “a falha foi de uso incorreto”, você precisa provar que a instalação foi entregue conforme. Sem relatório de comissionamento — com valores medidos, assinatura do responsável técnico e ART de execução — você não prova nada. A garantia do inversor cobre defeito de fabricação, não má instalação. A garantia do instalador (se existir no contrato) cobre execução, mas exige que você demonstre que o defeito veio da instalação, não de uso.

O relatório de comissionamento é o documento que faz esse trabalho. Ele registra os valores de Voc, Isc, resistência de isolamento e aterramento na data de entrega, com o sistema funcionando corretamente. Se seis meses depois o valor de isolamento desabar, você tem linha de base para provar que a degradação aconteceu depois da entrega.

Integradoras que entregam relatório escrito são minoria no segmento residencial. Quando você exige esse documento antes de assinar a ordem de serviço de conclusão, está fazendo o instalador se comprometer com um padrão — e filtrando quem vai embora sem assinar porque sabe que não vai conseguir entregar os números.


O que fazer com isso agora

  1. Antes de assinar o contrato: insira cláusula exigindo “relatório de comissionamento conforme NBR 16690:2019, contendo valores medidos de Voc e Isc por string, resistência de isolamento CC-terra, resistência de aterramento e verificação de equipotencialização da estrutura, assinado pelo responsável técnico com número da ART.” Modelo simples, funciona.

  2. No dia da entrega: peça para acompanhar a medição. Não precisa entender os números — precisa ver o instalador medir e anotar. Instalador que não mede na frente do cliente provavelmente não vai medir depois.

  3. Se o instalador disser que “não é obrigação”: tecnicamente correto — não há penalidade específica por ausência de relatório em instalação residencial hoje. Mas a ausência de comissionamento é excludente de garantia na maioria dos contratos de equipamento. Ou seja, o instalador está te vendendo um sistema onde a garantia de 10 anos do inversor pode não cobrir falha que veio de má instalação. Entenda o risco que você está aceitando, e reveja se o preço menor justifica.

  4. Para sistemas acima de 10 kWp: contrate termografia infravermelha em no mínimo dois momentos — logo após a instalação e novamente em 6 meses. Conexões frouxas e células defeituosas aparecem como pontos quentes que câmera de celular com app de termografia básico já detecta. Custo de R$ 300 a R$ 600 por visita — payback imediato no primeiro defeito encontrado antes de virar falha.

Para entender o que deve constar no contrato de instalação antes de chegar nessa etapa, veja a lista de cláusulas mínimas que todo contrato solar residencial precisa ter.

E se você está avaliando qual tipo de instalador buscar antes de pedir orçamento, o guia como escolher instalador solar por ART, CREA e INMETRO cobre o filtro de credencial antes do técnico.


Fontes

  • ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos. abntcatalogo.com.br
  • CONFEA — Atividades e atribuições profissionais em sistemas fotovoltaicos, 2025. confea.org.br
  • ANEEL — Segurança em microgeração distribuída, nota de regulação 2025. aneel.gov.br
  • Canal Solar — Homologação e padrões de instalação fotovoltaica residencial, 2026. canalsolar.com.br
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Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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