Projeto elétrico solar: o documento que o instalador omite — e que protege você por 25 anos
O que é o projeto elétrico de um sistema fotovoltaico, o que ele deve conter (memorial descritivo, diagrama unifilar, ART) e por que muitos instaladores entregam só o orçamento.
Você recebeu três orçamentos para instalar solar. Todos em PDF de uma página: kWp, marca de painel, modelo de inversor, valor total. Nenhum dos três menciona projeto elétrico, diagrama unifilar ou memorial descritivo. Você assina com o mais barato, a instalação termina, a conta cai — e dois anos depois o inversor para. O instalador some. O fabricante pede o “projeto técnico da instalação” para abrir o chamado de garantia.
É nesse momento que a ausência de um documento que custaria R$ 800 transforma um problema de garantia em prejuízo de R$ 8.000.
O que o leitor precisa decidir aqui
Se você está orçando solar agora, a questão prática é simples: o instalador vai te entregar projeto elétrico assinado, com ART, ou só vai instalar e ligar? A diferença não é burocracia. É o que determina se você tem ou não amparo técnico, legal e de garantia pelos próximos 25 anos de vida útil do sistema.
Vou cobrir o que o projeto deve conter, como identificar quando o instalador está pulando etapas, e o critério que uso para separar proposta confiável de proposta que vai te custar caro depois.
Critério 1 — O que é o projeto elétrico fotovoltaico (e o que não é)
Projeto elétrico fotovoltaico é o conjunto de documentos técnicos que descreve o sistema antes de ser instalado, durante e depois. Não é o orçamento. Não é a proposta comercial. É o documento de engenharia.
No mínimo, um projeto solar residencial deve ter:
Memorial descritivo: texto que justifica as escolhas técnicas — quantos módulos, qual inversor, qual potência, por quê essa configuração para essa carga, qual a estimativa de geração anual em kWh, com qual HSP (Horas de Sol Pleno) regional. Sem memorial, não há rastreabilidade das decisões.
Diagrama unifilar: representação esquemática do sistema elétrico completo — desde os módulos no telhado, passando pelos condutores CC, pela string box (ou sem ela, justificado), pelo inversor, pelos condutores CA, pelo quadro de distribuição, até o ponto de conexão com a rede da distribuidora. É o “mapa” do sistema. A concessionária exige esse diagrama para aprovar a conexão à rede.
Diagrama de localização (planta de cobertura): onde os módulos ficam no telhado, com dimensões, inclinação, azimute e distâncias de segurança. Necessário para calcular geração real (sombra, orientação) e para replicar a instalação em caso de manutenção ou expansão.
Cálculo de dimensionamento: condutores escolhidos por seção adequada para a corrente de projeto, queda de tensão calculada, proteções dimensionadas (disjuntores, fusíveis, DPS — dispositivo de proteção contra surto). Esse cálculo é o que a NBR 16690:2019 e a NBR 5410 exigem.
ART de projeto e ART de execução: Anotação de Responsabilidade Técnica emitida no sistema do CONFEA/CREA, vinculando um engenheiro eletricista habilitado ao projeto e à execução. São documentos distintos — projeto pode ser assinado por um engenheiro e a execução por outro, mas ambos precisam existir.
O que não é projeto elétrico: a simulação de payback gerada pelo software do integrador, o PDF de proposta comercial com foto de módulo e preço total, o “memorial” de duas páginas genérico que copia especificações do datasheet sem calcular nada para o endereço específico do cliente.
Critério 2 — Por que muitos instaladores não entregam o projeto
A resposta honesta tem três partes.
Parte 1: custo real. Um projeto fotovoltaico residencial elaborado por engenheiro eletricista com ART custa entre R$ 600 e R$ 1.500 dependendo da complexidade e da região. Para o instalador que está competindo no menor preço, incluir esse custo na proposta significa perder o orçamento para quem não inclui. O resultado é um mercado com pressão sistêmica para cortar projeto.
Parte 2: exigência legal que não tem fiscalização no dia a dia. A Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021 exige projeto técnico para aprovação da microgeração junto à distribuidora, e a distribuidora exige o diagrama unifilar para dar o acesso. Ou seja, sem projeto você não homologa. Mas há instaladores que entregam um diagrama genérico só para passar pela distribuidora e não elaboram o projeto completo com memorial e cálculo. Isso passa pelo processo de homologação, mas não constitui projeto técnico de engenharia.
Parte 3: o instalador não é engenheiro. Boa parte dos instaladores solares no Brasil são eletricistas técnicos ou credenciados que aprenderam fotovoltaico por curso profissionalizante — o que é legítimo para execução, mas não para assinar projeto. A ART de projeto exige engenheiro eletricista com registro no CREA. Quem não tem engenheiro na equipe precisa terceirizar. Quem terceiriza aumenta custo. Daí o atalho de instalar sem elaborar projeto completo.
O contra-argumento que instaladores apresentam é real: para sistemas residenciais simples de 3-5 kWp em configuração padrão, a margem de erro de um eletricista experiente é baixa. O risco não está no sistema funcionando — está no que acontece quando algo falha, quando você quer expandir, quando o seguro precisa de laudo, ou quando você vende o imóvel e o comprador pede documentação.
Critério 3 — Como identificar se a proposta tem projeto real
Uso cinco perguntas que fazem o filtro antes de assinar. As respostas — ou a ausência delas — dizem tudo.
1. “Qual engenheiro assina o projeto?” Resposta esperada: nome completo, número de registro CREA, e-mail ou telefone do profissional. Se o vendedor não sabe responder de imediato, provavelmente não há engenheiro vinculado ainda — ou o engenheiro é terceirizado e só aparece para assinar o diagrama que vai para a distribuidora.
2. “Você vai me entregar ART de projeto e ART de execução separadas, antes de iniciar a obra?” A ART de projeto deve ser emitida antes da execução, não depois. ART de execução é registrada após a conclusão. Se o instalador diz que “faz a ART no final”, a ART de projeto não existe — o que existe é só a ART de execução, que cobre a execução mas não a responsabilidade pelo dimensionamento.
3. “O memorial descritivo vai ter o cálculo de geração para o meu endereço, com o HSP da minha cidade?” Simulação de geração com HSP genérico nacional (4,8 ou 5,0) para um endereço em Fortaleza (HSP real 5,7) ou Porto Alegre (HSP real 4,3) gera erro de +18% ou -10% na estimativa. Instalador que não cita HSP regional no memorial está usando número conveniente, não número correto. Esse é um dos pontos que Bruno Aragão detalha ao comparar como calcular o payback solar sem errar nos dados de entrada.
4. “O diagrama unifilar vai mostrar a seção dos condutores CC e CA calculada para a minha instalação?” Diagrama genérico copiado de outro projeto não tem a seção calculada para a distância real do seu telhado até o inversor e do inversor até o quadro. Queda de tensão em cabo subdimensionado significa perda de geração permanente — e risco de aquecimento.
5. “Você consegue me enviar um exemplo de projeto que entregou para outro cliente?” Não precisa de nome — só os documentos. Se o instalador manda um PDF de duas páginas com logo bonito e especificação do painel, isso é proposta comercial. Se manda diagrama unifilar com numeração de circuito, seção de cabo, proteções e assinatura de engenheiro, é projeto técnico. A diferença visual é imediata.
Minha escolha e por quê
Depois de acompanhar o setor desde 2012, minha posição é clara: projeto elétrico com ART não é item opcional que você negocia no fechamento — é pré-requisito para colocar o orçamento na mesa.
Isso elimina automaticamente uma fatia relevante dos instaladores que competem só em preço. E está correto que elimine. Sistema fotovoltaico residencial com vida útil de 25 anos em telhado habitado não é produto de commodity que você compra pelo menor valor por kWp. É um sistema elétrico instalado no seu imóvel, sujeito a chuva, raio, oscilação de tensão e manutenção por décadas. A engenharia por trás dele importa.
O custo do projeto — R$ 600 a R$ 1.500 — representa 2% a 5% de um sistema de R$ 25.000. É o menor item do orçamento e o que mais protege você. Instalador que não consegue incluir isso no escopo está terceirizando o risco para você.
Para entender o que mais deve constar no contrato além da exigência de projeto, o artigo sobre cláusulas mínimas no contrato solar que o consumidor precisa garantir cobre o tema em detalhe. E se você está comparando propostas de múltiplos instaladores, o guia de como comparar 3 orçamentos solares sem cair em preço armadilha ajuda a estruturar a análise.
FAQ
O instalador pode fazer a ART sem ser engenheiro? Não. ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) é exclusividade de engenheiros e agrônomos registrados no CREA, ou arquitetos no CAU para projetos arquitetônicos. Eletricista técnico pode assinar RRT (Registro de Responsabilidade Técnica) junto ao CREA em algumas modalidades de execução, mas projeto elétrico fotovoltaico exige engenheiro eletricista. Fonte: CONFEA, Resolução 1.010/2005.
A distribuidora aprova a conexão sem projeto completo? A distribuidora exige diagrama unifilar e memorial simplificado para aprovação técnica da microgeração. Instaladores experientes sabem exatamente o mínimo que passa pela triagem da distribuidora — e esse mínimo pode ser bem menos que um projeto de engenharia completo. Aprovação na distribuidora não equivale a projeto técnico adequado.
Projeto elétrico e projeto estrutural são a mesma coisa? Não. Projeto elétrico cobre o sistema fotovoltaico (módulos, inversores, condutores, proteções). Projeto estrutural cobre a capacidade do telhado de suportar o peso dos módulos e a estrutura de fixação — e é exigido quando há dúvida sobre a integridade da cobertura. Os dois são independentes e frequentemente omitidos por razões distintas.
Se o instalador sumiu, o projeto serve de alguma coisa? Serve muito. Com projeto assinado por engenheiro e ART registrada no CREA, você pode contratar qualquer outro profissional habilitado para dar continuidade ao sistema, fazer manutenção ou expandir — porque o novo profissional tem a documentação técnica de base. Sem projeto, cada novo técnico começa do zero tentando entender o que foi instalado.
Fontes
- CONFEA — Resolução 1.010/2005: atribuições profissionais em engenharia elétrica e fotovoltaica. confea.org.br
- ANEEL — Resolução Normativa 1.000/2021: procedimentos de distribuição e requisitos para acesso de microgeração distribuída. aneel.gov.br
- ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos: dimensionamento e verificação. abntcatalogo.com.br
- Canal Solar — Guia de documentação para homologação de sistemas fotovoltaicos residenciais, 2026. canalsolar.com.br
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Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


