Parafuso errado na estrutura solar corrói em 2 anos — e o instalador não avisa
Aço comum no trilho de alumínio parece detalhe. Não é: em 18 a 24 meses, o par galvânico destrói o ponto de fixação, afrouxa o módulo e abre caminho para infiltração. Como identificar e exigir do instalador.
Dois anos depois da instalação, o cliente me chamou dizendo que o módulo do canto estava “balançando”. Quando subi no telhado, entendi o que tinha acontecido: o instalador tinha usado parafuso de aço galvanizado comum nos trilhos de alumínio anodizado. Cor ainda era praticamente a mesma. Mas ao girar o parafuso com a chave, ele cedeu sem resistência — a cabeça saiu seca, sem torque, porque o metal embaixo tinha virado pó branco acinzentado.
Aquele módulo de 580 Wp estava preso no telhado pela gravidade e pela sorte. Mais dois ventos fortes e ele teria saído.
Isso tem nome técnico: corrosão galvânica. É o erro de fixação mais silencioso da instalação fotovoltaica residencial, e a maioria dos instaladores não comenta porque ou não sabe o que causa, ou sabe que o parafuso de aço é mais barato que o de inox A2 e aposta que você não vai perceber antes do prazo de garantia acabar.
O que aconteceu naquele telhado — e por que o alumínio é o cúmplice
Corrosão galvânica é um processo eletroquímico. Dois metais com potenciais elétricos diferentes, em contato físico, com umidade funcionando como eletrólito: o metal de menor nobreza corrói mais rápido do que corroeria sozinho.
Alumínio e aço galvanizado estão suficientemente distantes na série galvânica para o processo ser relevante. O Canal Solar documentou casos em que trilhos de alumínio instalados com parafusos de aço galvanizado comum apresentaram falha estrutural visível entre 18 e 36 meses em regiões costeiras e úmidas — e entre 3 e 5 anos em regiões mais secas do interior.
O problema do alumínio é que ele forma uma camada de óxido superficial que parece proteção, mas não é: essa camada se dissolve quando em contato com íons de ferro em solução aquosa. O parafuso de aço fornece esses íons. A cada chuva, a reação avança.
Os sinais que o leigo não vai perceber de baixo:
- Mancha branca ou acinzentada em volta da cabeça do parafuso (hidróxido de alumínio)
- Parafuso que gira sem torque ao ser reajustado
- Trilho que apresenta pequena folga lateral no ponto de fixação
- Em casos avançados: fissura no trilho ao redor do furo
Os três materiais que separam uma instalação de 25 anos de uma de 5
Em campo, aprendi a classificar a qualidade de uma estrutura solar em três categorias pelo que o instalador usa nos pontos de contato metálico:
Categoria 1 — Compatível e durável
Parafusos de aço inoxidável austenítico A2 (norma DIN 933 ou equivalente) ou parafusos de alumínio nos trilhos de alumínio. Estrutura do trilho em alumínio 6005-T5 ou 6061-T6 com anodização mínima de 15 µm. Grampos de fixação de módulo em alumínio anodizado ou aço inox.
Este é o padrão que mantém a estrutura íntegra pelos 25 anos de garantia do módulo.
Categoria 2 — Aceitável com ressalvas
Parafusos de aço galvanizado a quente (zincagem por imersão, não eletrozincagem) nos trilhos de alumínio, com separador plástico ou borracha EPDM entre os metais. Funciona razoavelmente em clima seco, mas perde desempenho em litoral ou Nordeste úmido.
Categoria 3 — Problema esperando para acontecer
Parafuso de aço galvanizado eletrolítico (barato, camada de zinco fina) direto no trilho de alumínio sem separador. É o que estava naquele telhado em Belo Horizonte.
O cálculo que o instalador não faz — e o custo que você paga sozinho
Fiz o levantamento de custo em um sistema residencial típico de 6 kWp (telhado cerâmico, 14 módulos de 440 Wp, três strings de 4 + 10 módulos):
| Item | Parafuso aço galvanizado | Parafuso inox A2 |
|---|---|---|
| Quantidade (fixação trilho + grampos) | 48 unidades | 48 unidades |
| Custo unitário médio (maio 2026) | R$ 0,45 | R$ 1,90 |
| Custo total de parafusos | R$ 21,60 | R$ 91,20 |
| Diferença no sistema completo | — | R$ 69,60 |
Menos de R$ 70 de diferença em material num sistema de R$ 18.000 a R$ 28.000.
Se a estrutura falhar em 3 anos — o que acontece com frequência no litoral —, a mão de obra para subir no telhado, desmontar os módulos, substituir os trilhos comprometidos e remontar o sistema custa, em média, R$ 1.800 a R$ 3.200, dependendo da região. Isso sem contar o risco de módulo quebrado durante a desmontagem.
O integrador que economizou R$ 70 em parafuso não vai aparecer para pagar esse conserto.
A NBR 16690:2019 (instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos) exige que os materiais da estrutura sejam compatíveis entre si e com o ambiente de instalação. Mas a norma não especifica o par galvânico — deixa a cargo do responsável técnico da instalação. Na prática, quem não tem ART assinada por engenheiro não tem quem responda por essa escolha.
O que fazer com isso agora — antes de assinar o contrato
Construí esse checklist depois de inspecionar mais de 40 sistemas com problemas estruturais nos últimos dois anos:
- Peça a especificação técnica dos parafusos por escrito. Aço inox A2 (austenítico, norma DIN 933) é o mínimo aceitável para contato direto com alumínio.
- Pergunte sobre o separador entre estrutura e telhado. Borracha EPDM ou suporte plástico entre o trilho de alumínio e a telha cerâmica/metálica evita contato bimetálico e infiltração simultânea.
- Veja se o instalador cita a série da liga de alumínio dos trilhos. 6005-T5 ou 6061-T6 são séries estruturais adequadas. “Alumínio” sem especificação pode ser liga ornamental, que dobra com vento acima de 60 km/h.
- Exija ART assinada. A ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) do CREA é o documento que vincula um engenheiro responsável pela especificação de materiais. Sem ela, você não tem a quem recorrer se a estrutura falhar.
- Fotografe a instalação antes do fechamento do telhado. Registre os pontos de fixação, os parafusos visíveis e o tipo de grampo dos módulos. Essa prova valerá ouro se houver litígio.
Na minha leitura, esse é o erro estrutural mais subnotificado da instalação fotovoltaica residencial brasileira. Aterramento ruim e string mal dimensionado aparecem mais porque causam falha elétrica visível — o inversor trava, o cliente liga para o instalador. Corrosão galvânica corrói em silêncio por 3, 4, 5 anos. Quando aparece, o prazo de garantia da instalação (geralmente 1 a 5 anos) já expirou.
R$ 70 de parafuso inox. É o seguro mais barato da instalação inteira.
Fontes
- Corrosão galvânica em estruturas metálicas de sistemas fotovoltaicos — Canal Solar
- Prevenção da corrosão nas estruturas metálicas fotovoltaicas — Canal Solar
- ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos — Requisitos de projeto (Target Normas)
- Os 10 erros mais comuns em instalações fotovoltaicas — Sharenergy
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Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


