Laudo estrutural de telhado para solar: quando o instalador é obrigado a pedir
Quando o laudo estrutural é obrigatório em instalação solar, o que diz a NBR 16690, quanto custa e quais os red flags que mostram que o instalador pulou essa etapa.
Perguntei para doze integradores residenciais em diferentes estados se eles entregam laudo estrutural do telhado com o projeto. Quatro nem entenderam a pergunta. Cinco disseram que “só é necessário em comercial”. Dois disseram que fazem “vistoria visual”. Um — um único — disse que pede laudo quando o telhado tem mais de 15 anos ou quando a carga calculada ultrapassa o que a estrutura parece suportar.
Esse um está fazendo certo. Os outros onze estão repassando risco para o cliente sem informar.
O que a norma realmente diz
A NBR 16690:2019 (instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos) trata principalmente do lado elétrico. Mas ela não existe sozinha. A norma exige que o projeto fotovoltaico contemple a avaliação da capacidade estrutural da cobertura para suportar a carga adicional dos módulos, suportes e cabos.
Essa avaliação estrutural, quando formalizada em documento, é o laudo estrutural. E quando ela é feita por engenheiro civil ou estrutural e registrada em ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), passa a ter validade legal.
O ponto que a maioria dos instaladores omite: a NBR não diz “só em comercial”. Diz que o responsável técnico pelo projeto precisa garantir que a estrutura suporta. Em obra residencial, isso também vale.
Os critérios que definem se o laudo é indispensável
Não existe uma régua única no Brasil, mas os três critérios a seguir são os que engenheiros civis e integradores experientes usam para decidir. Aplique a lógica como checklist antes de fechar contrato:
Critério 1 — Idade e tipo do telhado
Telhado de fibrocimento com mais de 12-15 anos: laudo obrigatório, sem discussão. Fibrocimento envelhece, perde resistência à tração e pode fraturar com a carga dinâmica de vento + peso dos módulos. O tipo de cobertura influencia diretamente no método de fixação e na carga admissível — e telhado de fibrocimento velho é o caso de maior risco de colapso parcial depois de instalação mal dimensionada.
Telhado cerâmico com estrutura de madeira aparente e umidade visível: laudo. Madeira úmida ou com cupim pode ter resistência reduzida em 40 a 60% em relação ao valor calculado originalmente.
Telhado metálico novo com terças em aço: menor risco, mas depende do vão e da espessura do perfil. Ainda assim, qualquer sistema acima de 6 kWp merece pelo menos um cálculo formal de cargas.
Critério 2 — Potência do sistema
Sistema de 3-4 kWp com 6-8 módulos de 450 Wp: carga adicionada é da ordem de 200-280 kg no telhado, distribuída. Em estrutura de alvenaria nova, risco baixo — instalador experiente pode fazer avaliação visual fundamentada e registrar em ART de instalação elétrica.
Sistema de 7 kWp ou mais: acima de 500 kg de carga distribuída, mais a carga de vento. Aqui o cálculo formal de cargas permanentes e variáveis (NBR 6118 e NBR 7190 para madeira) já é recomendado. Acima de 10 kWp em telhado residencial, laudo estrutural separado é o padrão prudente.
Critério 3 — Laudo exigido pela distribuidora ou financiadora
Algumas distribuidoras estaduais, especialmente em regiões com histórico de sinistros, estão passando a exigir laudo estrutural como parte da documentação de conexão. Bancos que financiam via CDC Solar também podem exigir. Se você está no Nordeste e vai homologar junto à Coelba, Cosern ou Energisa-CE, pergunte antes: a lista de documentos da homologação junto à distribuidora pode incluir laudo como condicionante.
O que o laudo precisa conter (e o que o instalador não pode substituir por “vistoria visual”)
Um laudo estrutural válido para instalação solar tem, no mínimo:
- Identificação do responsável técnico (engenheiro civil ou estrutural, com CREA)
- Descrição do tipo de cobertura, vão, caibros/terças, material e estado de conservação
- Cálculo de carga admissível versus carga instalada (peso dos módulos + suportes + sobrecarga de vento pela NBR 6123)
- Conclusão técnica: apto, apto com reforço ou inapto
- ART registrada no CREA com valor da obra declarado
O que o instalador faz na “vistoria visual”? Olha. Sobe no telhado, bate no caibro, estima. Isso não tem validade jurídica. Se o telhado ceder depois — e acontece, principalmente em chuvas fortes — o instalador que não pediu laudo vai responder civilmente. E, dependendo do contrato que ele te fez assinar, vai tentar transferir o risco para você.
Leia o contrato antes de assinar. As cláusulas de garantia e responsabilidade são exatamente o lugar onde o integrador costuma se blindar contra esse tipo de sinistro, colocando no cliente a obrigação de “verificar a adequação estrutural da cobertura”.
Quanto custa e por que o integrador esconde
Um laudo estrutural residencial em capital brasileira custa entre R$ 400 e R$ 1.200, dependendo da complexidade. Em cidade do interior, pode custar menos. Não é um custo proibitivo num projeto de R$ 20-40 mil.
Então por que o integrador não inclui? Dois motivos reais:
Primeiro: acrescenta responsabilidade. Ao encomendar o laudo, o integrador formaliza que avaliou a estrutura. Se a avaliação for feita por alguém da própria empresa (que não é engenheiro civil), é irregular. Se for terceirizada para um engenheiro, o custo sobe e o prazo aumenta. É mais fácil omitir e incluir no contrato uma cláusula de isenção.
Segundo: concorrência de preço. Em mercado onde o cliente compara orçamento por planilha de WhatsApp, o integrador que cobra R$ 800 a mais para cobrir o laudo perde a venda para o que ignora o passo. É uma corrida para o fundo que o consumidor mal-informado ajuda a financiar.
Na minha leitura, integrador que omite laudo estrutural sem ao menos informar o cliente que a avaliação foi feita visualmente (sem ART civil) está falhando no dever de informação do Código de Defesa do Consumidor. Isso é relevante — especialmente se o sinistro acontecer e o contrato precisar ser discutido no PROCON ou Juizado Especial Cível.
Onde isso falha (o contra-argumento honesto)
Nem toda situação justifica laudo formal. Telhado de concreto (laje plana) de edifício novo com instalação de módulos em suportes balastrados: o cálculo de carga é parte da ART do instalador elétrico e é mais simples. Telhado de zinco em galpão industrial com estrutura de metalon documentada pelo fabricante: o próprio datasheet do fabricante da estrutura já traz carga admissível.
O problema é que esses casos são a exceção — não a regra no residencial brasileiro, que é maioria de cerâmica e fibrocimento sobre madeira de procedência desconhecida. Para esse universo, a vistoria visual sem ART civil é risco assumido por quem instala — e, se o contrato for mal feito, transferido para quem pagou.
O que fazer com isso agora
- Antes de fechar com qualquer integrador, pergunte diretamente: “Você vai entregar laudo estrutural do telhado ou vai registrar na ART de instalação elétrica que avaliou a capacidade estrutural?” Uma das duas respostas é aceitável. “Não precisa” não é.
- Se o telhado tiver mais de 12 anos, fibrocimento ou madeira com sinais de umidade, exija laudo de engenheiro civil como condição para assinar.
- No contrato, procure a cláusula de responsabilidade estrutural. Se ela colocar o ônus de verificação sobre você — sem que o instalador tenha entregado qualquer documento técnico — é red flag para negociar ou recusar.
- Verifique se o instalador tem ART de instalação elétrica e as habilitações mínimas registradas no CREA antes de qualquer pagamento. O laudo estrutural complementa — não substitui — a documentação elétrica.
Fontes
- ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos. abntcatalogo.com.br
- ABNT NBR 6123:1988 — Forças devidas ao vento em edificações. abntcatalogo.com.br
- Conselho Federal de Engenharia e Agronomia — ART: o que é e como consultar. crea.org.br
- Canal Solar — Requisitos de projeto solar fotovoltaico residencial. canalsolar.com.br
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


