segunda-feira, 1 de junho de 2026
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Laudo estrutural de telhado para solar: quando o instalador é obrigado a pedir

Quando o laudo estrutural é obrigatório em instalação solar, o que diz a NBR 16690, quanto custa e quais os red flags que mostram que o instalador pulou essa etapa.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Engenheiro inspecionando estrutura de telhado para instalação de painéis solares fotovoltaicos
Engenheiro inspecionando estrutura de telhado para instalação de painéis solares fotovoltaicos

Perguntei para doze integradores residenciais em diferentes estados se eles entregam laudo estrutural do telhado com o projeto. Quatro nem entenderam a pergunta. Cinco disseram que “só é necessário em comercial”. Dois disseram que fazem “vistoria visual”. Um — um único — disse que pede laudo quando o telhado tem mais de 15 anos ou quando a carga calculada ultrapassa o que a estrutura parece suportar.

Esse um está fazendo certo. Os outros onze estão repassando risco para o cliente sem informar.

O que a norma realmente diz

A NBR 16690:2019 (instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos) trata principalmente do lado elétrico. Mas ela não existe sozinha. A norma exige que o projeto fotovoltaico contemple a avaliação da capacidade estrutural da cobertura para suportar a carga adicional dos módulos, suportes e cabos.

Essa avaliação estrutural, quando formalizada em documento, é o laudo estrutural. E quando ela é feita por engenheiro civil ou estrutural e registrada em ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), passa a ter validade legal.

O ponto que a maioria dos instaladores omite: a NBR não diz “só em comercial”. Diz que o responsável técnico pelo projeto precisa garantir que a estrutura suporta. Em obra residencial, isso também vale.

Os critérios que definem se o laudo é indispensável

Não existe uma régua única no Brasil, mas os três critérios a seguir são os que engenheiros civis e integradores experientes usam para decidir. Aplique a lógica como checklist antes de fechar contrato:

Critério 1 — Idade e tipo do telhado

Telhado de fibrocimento com mais de 12-15 anos: laudo obrigatório, sem discussão. Fibrocimento envelhece, perde resistência à tração e pode fraturar com a carga dinâmica de vento + peso dos módulos. O tipo de cobertura influencia diretamente no método de fixação e na carga admissível — e telhado de fibrocimento velho é o caso de maior risco de colapso parcial depois de instalação mal dimensionada.

Telhado cerâmico com estrutura de madeira aparente e umidade visível: laudo. Madeira úmida ou com cupim pode ter resistência reduzida em 40 a 60% em relação ao valor calculado originalmente.

Telhado metálico novo com terças em aço: menor risco, mas depende do vão e da espessura do perfil. Ainda assim, qualquer sistema acima de 6 kWp merece pelo menos um cálculo formal de cargas.

Critério 2 — Potência do sistema

Sistema de 3-4 kWp com 6-8 módulos de 450 Wp: carga adicionada é da ordem de 200-280 kg no telhado, distribuída. Em estrutura de alvenaria nova, risco baixo — instalador experiente pode fazer avaliação visual fundamentada e registrar em ART de instalação elétrica.

Sistema de 7 kWp ou mais: acima de 500 kg de carga distribuída, mais a carga de vento. Aqui o cálculo formal de cargas permanentes e variáveis (NBR 6118 e NBR 7190 para madeira) já é recomendado. Acima de 10 kWp em telhado residencial, laudo estrutural separado é o padrão prudente.

Critério 3 — Laudo exigido pela distribuidora ou financiadora

Algumas distribuidoras estaduais, especialmente em regiões com histórico de sinistros, estão passando a exigir laudo estrutural como parte da documentação de conexão. Bancos que financiam via CDC Solar também podem exigir. Se você está no Nordeste e vai homologar junto à Coelba, Cosern ou Energisa-CE, pergunte antes: a lista de documentos da homologação junto à distribuidora pode incluir laudo como condicionante.

O que o laudo precisa conter (e o que o instalador não pode substituir por “vistoria visual”)

Um laudo estrutural válido para instalação solar tem, no mínimo:

  • Identificação do responsável técnico (engenheiro civil ou estrutural, com CREA)
  • Descrição do tipo de cobertura, vão, caibros/terças, material e estado de conservação
  • Cálculo de carga admissível versus carga instalada (peso dos módulos + suportes + sobrecarga de vento pela NBR 6123)
  • Conclusão técnica: apto, apto com reforço ou inapto
  • ART registrada no CREA com valor da obra declarado

O que o instalador faz na “vistoria visual”? Olha. Sobe no telhado, bate no caibro, estima. Isso não tem validade jurídica. Se o telhado ceder depois — e acontece, principalmente em chuvas fortes — o instalador que não pediu laudo vai responder civilmente. E, dependendo do contrato que ele te fez assinar, vai tentar transferir o risco para você.

Leia o contrato antes de assinar. As cláusulas de garantia e responsabilidade são exatamente o lugar onde o integrador costuma se blindar contra esse tipo de sinistro, colocando no cliente a obrigação de “verificar a adequação estrutural da cobertura”.

Quanto custa e por que o integrador esconde

Um laudo estrutural residencial em capital brasileira custa entre R$ 400 e R$ 1.200, dependendo da complexidade. Em cidade do interior, pode custar menos. Não é um custo proibitivo num projeto de R$ 20-40 mil.

Então por que o integrador não inclui? Dois motivos reais:

Primeiro: acrescenta responsabilidade. Ao encomendar o laudo, o integrador formaliza que avaliou a estrutura. Se a avaliação for feita por alguém da própria empresa (que não é engenheiro civil), é irregular. Se for terceirizada para um engenheiro, o custo sobe e o prazo aumenta. É mais fácil omitir e incluir no contrato uma cláusula de isenção.

Segundo: concorrência de preço. Em mercado onde o cliente compara orçamento por planilha de WhatsApp, o integrador que cobra R$ 800 a mais para cobrir o laudo perde a venda para o que ignora o passo. É uma corrida para o fundo que o consumidor mal-informado ajuda a financiar.

Na minha leitura, integrador que omite laudo estrutural sem ao menos informar o cliente que a avaliação foi feita visualmente (sem ART civil) está falhando no dever de informação do Código de Defesa do Consumidor. Isso é relevante — especialmente se o sinistro acontecer e o contrato precisar ser discutido no PROCON ou Juizado Especial Cível.

Onde isso falha (o contra-argumento honesto)

Nem toda situação justifica laudo formal. Telhado de concreto (laje plana) de edifício novo com instalação de módulos em suportes balastrados: o cálculo de carga é parte da ART do instalador elétrico e é mais simples. Telhado de zinco em galpão industrial com estrutura de metalon documentada pelo fabricante: o próprio datasheet do fabricante da estrutura já traz carga admissível.

O problema é que esses casos são a exceção — não a regra no residencial brasileiro, que é maioria de cerâmica e fibrocimento sobre madeira de procedência desconhecida. Para esse universo, a vistoria visual sem ART civil é risco assumido por quem instala — e, se o contrato for mal feito, transferido para quem pagou.

O que fazer com isso agora

  • Antes de fechar com qualquer integrador, pergunte diretamente: “Você vai entregar laudo estrutural do telhado ou vai registrar na ART de instalação elétrica que avaliou a capacidade estrutural?” Uma das duas respostas é aceitável. “Não precisa” não é.
  • Se o telhado tiver mais de 12 anos, fibrocimento ou madeira com sinais de umidade, exija laudo de engenheiro civil como condição para assinar.
  • No contrato, procure a cláusula de responsabilidade estrutural. Se ela colocar o ônus de verificação sobre você — sem que o instalador tenha entregado qualquer documento técnico — é red flag para negociar ou recusar.
  • Verifique se o instalador tem ART de instalação elétrica e as habilitações mínimas registradas no CREA antes de qualquer pagamento. O laudo estrutural complementa — não substitui — a documentação elétrica.

Fontes

  • ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos. abntcatalogo.com.br
  • ABNT NBR 6123:1988 — Forças devidas ao vento em edificações. abntcatalogo.com.br
  • Conselho Federal de Engenharia e Agronomia — ART: o que é e como consultar. crea.org.br
  • Canal Solar — Requisitos de projeto solar fotovoltaico residencial. canalsolar.com.br
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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

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