Módulo solar caiu 40% — então por que o seu orçamento caiu só 8%? A conta que falta na proposta
O preço do painel fotovoltaico despencou desde 2023, mas o custo do sistema instalado mal se mexeu. Entenda onde foi a margem, quem ficou com ela, e como usar esse dado concreto na hora de negociar com o integrador.
Em novembro de 2023, um módulo monocristalino de 500 Wp saía por volta de R$ 680 no mercado brasileiro. Em junho de 2026, o mesmo módulo — ou um com especificação equivalente em TOPCon — custa entre R$ 390 e R$ 420. Queda de quase 40% em menos de três anos.
Quando mostro esse número pras pessoas que me procuram pedindo indicação de orçamento, a pergunta imediata é sempre a mesma: “Então por que o integrador me mandou proposta de R$ 28 mil num sistema de 5 kWp? Em 2023 eu chequei e era R$ 30 mil. Caiu só R$ 2 mil?”
Essa pergunta tem resposta. E a resposta muda a conversa que você precisa ter antes de assinar.
O que aconteceu com o preço do módulo
A queda não é impressão. É documentada e consistente desde meados de 2023, quando a indústria chinesa — responsável por mais de 80% da produção global de módulos fotovoltaicos — saiu de uma fase de expansão acelerada de capacidade fabril para um cenário de sobrecapacidade severa. Fabricantes como JA Solar, Trina, Risen, Canadian Solar e Jinko Solar todos reportaram compressão de margem bruta em 2024 e 2025, com preços de venda que em alguns trimestres ficaram abaixo do custo de produção (BloombergNEF, Solar Module Price Index, Q1 2026).
No Brasil, a queda chegou com atraso de 6 a 9 meses por causa do câmbio e do estoque em trânsito. Mas chegou. Um levantamento informal que fiz em junho de 2026 com distribuidores de três estados (SP, MG e PE) confirma a faixa de R$ 390–420 por módulo 500 Wp TOPCon, contra R$ 660–700 no mesmo mercado em meados de 2023 — queda de 37% a 43% dependendo da marca e do lote.
O mercado brasileiro de instalações também contraiu, como a ABSOLAR confirmou com queda de 7% no volume instalado em 2025 em relação a 2024. Menos obra, mais oferta de equipamento. Deveria baratear mais ainda.
E não barateu — não proporcionalmente.
O sistema é mais do que o módulo
Aqui mora o ponto que a maioria ignora ao comparar o preço do painel com o preço do sistema instalado.
Um sistema fotovoltaico de 5 kWp residencial tem, grosso modo, a seguinte composição de custo em 2026:
| Componente | Participação no custo total |
|---|---|
| Módulos (10 x 500 Wp) | 28% a 34% |
| Inversor (string ou híbrido) | 12% a 16% |
| Estrutura de fixação (alumínio/aço) | 8% a 11% |
| Cabeamento, proteções elétrica (DPS, disjuntores, string box) | 5% a 7% |
| Mão de obra de instalação | 14% a 18% |
| Projeto elétrico + ART + CREA | 3% a 5% |
| Homologação na distribuidora (taxa + tempo do técnico) | 2% a 4% |
| Margem comercial do integrador | 15% a 22% |
| Impostos sobre a operação (ISS, IRPJ, CSLL, PIS, COFINS) | 5% a 8% |
O módulo, que teve queda de ~40%, representa no máximo um terço do custo total. Os outros dois terços — mão de obra, estrutura metálica, inversor, impostos, margem — não caíram na mesma proporção. Alguns subiram.
A estrutura de alumínio subiu com a commodity. A mão de obra qualificada de eletricista com NR-10 ficou mais cara em SP e RJ onde o mercado aqueceu em 2024. A taxa de registro no CREA e o valor da ART acompanharam o índice do Confea. E o inversor — o componente mais sensível depois do módulo — caiu sim, mas apenas 15% a 20% no período, muito menos que o painel.
Fiz a conta pra um sistema de 5 kWp em São Paulo com os preços de 2023 versus 2026:
2023: Módulos R$ 6.900 + demais componentes + mão de obra + margem = ~R$ 30.500 instalado.
2026: Módulos R$ 4.050 + demais componentes ajustados (alta de mão de obra ~12%, estrutura +8%, inversor -18%, projeto +5%) + margem + impostos = ~R$ 26.200 instalado.
Isso é uma queda de R$ 4.300 — em torno de 14%. Não 40%. E não 8% como alguns integradores praticam.
Quem ficou com o restante da queda
A resposta direta: parte ficou com o integrador, parte foi absorvida por outros custos que subiram, e parte ainda está no estoque antigo que o integrador comprou em 2023 e 2024.
O terceiro ponto é o mais relevante pra quem está orçando agora. Muitos integradores pequenos e médios — que representam a maioria das instalações residenciais no Brasil — compraram estoque de módulos antes da queda mais acentuada de 2025 e ainda estão liquidando esse estoque a preços de custo antigos. Você pode estar pagando o preço do painel que o integrador comprou há 14 meses, não o preço de mercado de hoje.
Como descobrir? Pergunte diretamente: “Qual o preço de custo do módulo nesta proposta e quando vocês compraram esse lote?” Um integrador transparente responde. Um que trava ou muda de assunto está te dando um sinal.
Há também a questão da margem comercial. Com o volume de instalações caindo, integradores precisam de mais margem por obra para manter a operação viável. Isso é uma lógica de negócio compreensível — mas não é sua obrigação absorvê-la sozinho. Comparar três orçamentos de integradores diferentes continua sendo o filtro mais eficiente que existe.
O que fazer com essa informação agora
Antes de qualquer coisa: isso não significa que o integrador está te enganando. Significa que o preço do sistema envolve custos que o leitor médio não vê — e que a queda do módulo não se traduz automaticamente em queda proporcional do orçamento. Mas significa também que há margem de negociação que você não está usando se chegar sem essa informação.
Cinco movimentos práticos:
1. Peça a composição por item. “Me manda o orçamento detalhado com custo por componente?” Um bom integrador tem isso. Quem não tem está vendendo “solar” como pacote fechado sem transparência. Veja os red flags de orçamento que indicam fuga de transparência antes de assinar qualquer coisa.
2. Cheque o preço do inversor separado. Inversores de marcas como Growatt, Goodwe e WEG têm preços facilmente verificáveis em distribuidores online. Se o orçamento embute o inversor 30% acima do preço de mercado, você sabe onde está a gordura.
3. Negocie módulo por módulo, não o total. “Estou vendo módulos 500 Wp TOPCon a R$ 410 em distribuidora. Qual sua margem sobre isso?” A conversa muda quando você entra com referência de mercado.
4. Prefira quem comprou recente. Pergunte quando o lote de módulos foi adquirido. Compra de 2025 em diante já reflete as cotações de queda. Compra de 2023 ou início de 2024, não.
5. Calcule com o payback ajustado pelo preço real. Se você conseguir negociar R$ 3 mil de desconto num sistema de R$ 28 mil, isso reduz o payback em cerca de 5 a 7 meses — um impacto real que vale o esforço da negociação. Use o passo a passo de cálculo de payback com custo real pra refazer a conta com o preço que você negociou.
A leitura que faço desse mercado agora
Na minha avaliação: 2026 é um dos melhores momentos dos últimos cinco anos para instalar solar no Brasil — não porque o sistema ficou muito mais barato do que foi, mas porque a combinação de módulo mais acessível, tarifa de energia que reajusta consistentemente acima da inflação e a janela regulatória da Lei 14.300 ainda com percentuais de Fio B relativamente baixos cria uma convergência favorável.
O que eu não faria: aceitar a proposta de um integrador sem questionar a composição de custo. A queda de 40% no módulo é real. O que você vai absorver dessa queda depende da conversa que você tem antes de assinar.
Um integrador que não tolera essa conversa não é parceiro de longo prazo. E solar é um compromisso de 25 anos.
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Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


