TUSD-Fio B: o que é essa cobrança que vai chegar na conta solar em 2027 — e quanto vai custar
A Lei 14.300/22 criou uma cobrança progressiva chamada TUSD-Fio B que começa a valer de verdade em 2027. Entenda o que é, como o percentual sobe por ano e qual o impacto real no payback de quem instalar agora.
Em março de 2024, um leitor me mandou uma mensagem que eu guardei porque ela resume bem a confusão que paira sobre o setor:
“Jhonathan, fechei o financiamento solar em dezembro de 2023. O integrador me prometeu payback de 4,5 anos. Agora li que a partir de 2027 vou pagar ‘fio B’ na conta. É verdade? Isso muda o payback?”
Sim, é verdade. E sim, muda o payback — em quanto depende da distribuidora, do tamanho do sistema e do quanto ele superdimensionou pra exportar créditos. O problema é que a maioria dos integradores ainda não inclui esse componente nas propostas, porque a cobrança parecia distante. Ela não está mais.
O que aconteceu
A Lei 14.300, sancionada em janeiro de 2022, criou o Marco Legal da Microgeração e Minigeração Distribuída. Ela garantiu às pessoas que já tinham sistema instalado (ou que instalassem antes de 31 de dezembro de 2022) o direito ao modelo antigo por 25 anos — sem qualquer nova cobrança sobre a energia injetada na rede.
Para quem instalou depois disso, a lei criou um regime de transição. A ideia era simples: quem chega na rede usa a infraestrutura da rede — cabos, transformadores, subestações. Essa infraestrutura tem custo de manutenção. Logo, quem usa paga uma parte. Esse componente se chama TUSD-Fio B — a parcela da Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição relativa à Rede Básica.
O que a lei determinou foi uma entrada gradual dessa cobrança, escalonada por ano de conexão:
| Ano de conexão aprovada | % da TUSD-Fio B cobrada |
|---|---|
| Até 31/12/2022 | 0% (isenção total por 25 anos) |
| 2023 | 15% |
| 2024 | 15% |
| 2025 | 30% |
| 2026 | 30% |
| 2027 | 45% |
| 2028 | 60% |
| 2029 | 75% |
| 2030 e além | 90% |
Isso significa que um prossumidor que conectou o sistema em 2023 paga 15% da TUSD-Fio B sobre a energia que injeta na rede. Quem conectar em 2030 pagará 90%. O modelo pleno — 100% — não está previsto em lei por enquanto: a discussão regulatória continua aberta na ANEEL.
O impacto concreto — a conta que fiz
Para entender o efeito prático, recalculei o payback de um sistema residencial típico em duas cidades com perfis distintos: Fortaleza (CE) e Porto Alegre (RS).
Perfil do sistema: 5 kWp, orientação Norte, inclinação 20°, degradação 0,55% ao ano.
Fortaleza: HSP de 5,8 kWh/m²/dia (média anual CRESESB), tarifa Coelce B1 R$ 0,93/kWh (junho 2026), geração estimada de ~7.300 kWh/ano no primeiro ano.
Porto Alegre: HSP de 4,0 kWh/m²/dia, tarifa RGE Sul B1 R$ 0,97/kWh, geração estimada de ~5.040 kWh/ano.
A TUSD-Fio B não incide sobre o consumo que a residência absorve direto do painel — incide sobre a energia que sobra e é injetada na rede, depois compensada como crédito. Num sistema sem bateria (a maioria), grande parte da geração diurna é exportada e trazida de volta à noite como crédito.
Considerando uma taxa de autoconsumo de 30% (típica em residência com perfil de consumo noturno), 70% da geração vira crédito na rede.
Para quem conectar em 2027 (45% da TUSD-Fio B):
-
Em Fortaleza: a TUSD-Fio B da Coelce representa cerca de R$ 0,18/kWh (componente isolado, estimativa pela composição tarifária pública). 45% disso = R$ 0,081/kWh cobrado sobre os créditos exportados. Para 7.300 kWh × 70% = 5.110 kWh exportados, o custo anual é ~R$ 414. Isso reduz a economia bruta anual e estica o payback em aproximadamente 6 a 8 meses vs. um sistema conectado em 2022.
-
Em Porto Alegre: o componente Fio B da RGE Sul é proporcionalmente menor em relação à tarifa total, mas o efeito em meses de payback é similar: 4 a 7 meses adicionais.
Para quem esperar até 2030 (90% da TUSD-Fio B), o impacto quase dobra: mais de um ano no payback em regiões com tarifa mais baixa.
Essa conta, por si só, não inviabiliza o investimento. Solar ainda compensa. Mas muda o tempo até o retorno — e nenhum integrador que conheço está apresentando essa projeção nas propostas de 2026. Eu testei: pedi simulação a três integradores diferentes em maio passado. Nenhum citou Fio B espontaneamente. Quando perguntei, dois não souberam explicar. O terceiro disse “isso é insignificante”. A conta acima mostra que não é.
Por que importa pra você agora
Há três situações em que esse dado muda sua decisão:
1. Você está avaliando instalar solar em 2026 vs. esperar 2027.
Instalar com conexão aprovada em 2026 trava você no percentual de 30%. Esperar pra 2027 sobe pra 45%. Essa diferença de 15 pontos percentuais pode valer meses no payback. Se o seu sistema está orçado e aprovado, não adie sem motivo.
2. Você está comparando sistema menor (autoconsumo alto) vs. maior (exportação alta).
Quanto mais você exporta pra rede, mais paga de Fio B. Superdimensionar o sistema com a expectativa de acumular créditos e usar nos meses chuvosos fica menos atrativo do que era antes de 2022. Há circunstâncias específicas em que superdimensionar ainda faz sentido — mas o cálculo agora precisa incluir o custo do Fio B sobre os créditos excedentes.
3. Você está revendo o payback de um sistema que instalou depois de 2022.
Se o seu integrador fez a projeção sem incluir TUSD-Fio B, o payback real é mais longo do que o prometido. Isso não é escândalo — é consecuência natural de uma lei nova num setor que ainda está aprendendo a modelar os novos custos. Mas você precisa saber. Se está avaliando qual prazo de financiamento usar, o payback real (com Fio B) precisa entrar nessa conta.
O que fazer agora
Se você ainda não instalou:
- Peça ao integrador uma simulação que inclua a TUSD-Fio B sobre os créditos exportados, com base no percentual correspondente ao ano de conexão esperado.
- Pergunte qual é a taxa de autoconsumo estimada do sistema. Quanto menor ela for (mais exportação), maior o impacto do Fio B.
- Considere dimensionar pra cobertura de consumo sem excedente excessivo — exportar muito pra “guardar crédito” ficou mais caro.
Se você já instalou e quer revisar:
- Identifique o percentual da TUSD-Fio B que se aplica ao seu ano de conexão (tabela acima).
- Puxe a última fatura e veja a composição da TUSD — o componente Fio B aparece discriminado nas faturas de várias distribuidoras a partir de 2024.
- Refaça a projeção de economia anual descontando o custo sobre os créditos exportados. Se a diferença for relevante e você tiver financiamento aberto, pode valer recalcular a estratégia de amortecimento de parcelas do CDC solar.
Uma última observação: a Lei 14.300 ainda tem partes em disputa regulatória. Em 2024, a ANEEL abriu consulta pública sobre a metodologia de cálculo do Fio B aplicável às distribuidoras concessionárias. Esse processo pode ajustar os valores — pra cima ou pra baixo — dependendo do resultado da revisão tarifária de cada empresa. Minha leitura é que dificilmente haverá recuo no modelo de cobrança progressiva em si: a lógica de quem usa a rede paga pela rede está consolidada no texto da lei e nos documentos da ANEEL. O que pode mudar é o tamanho do Fio B de cada distribuidora, não o princípio.
Isso é diferente de dizer que o solar não compensa. Compensa. Mas precisa-se de conta honesta pra saber exatamente quanto — e a conta honesta inclui esse componente que a maioria das propostas ainda ignora.
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Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


