segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Payback & Lei 14.300

Solar com piscina: payback real da bomba, aquecedor e UV — fiz a conta para 3 perfis

Piscina eleva o consumo em 150 a 600 kWh/mês. Recalculei o payback solar para três perfis de dono de piscina no Brasil — com bomba, aquecedor a bomba de calor e UV separados, HSP regional e tarifa real.

Bruno Aragão 7 min de leitura
Piscina residencial ao sol com painéis solares visíveis no telhado ao fundo
Piscina residencial ao sol com painéis solares visíveis no telhado ao fundo

Conversei em março de 2026 com um proprietário em Ribeirão Preto (SP) que estava feliz com o solar que havia instalado dois anos antes — mas a conta de luz continuava em R$ 490 por mês. O sistema de 5 kWp cobria a casa inteira. O problema? A piscina de 45 mil litros, com bomba de 1,5 cv e aquecedor a bomba de calor de 5 kW, funcionava das 8h da noite às 8h da manhã. Doze horas fora da janela solar, todo dia. O payback que o integrador prometeu em 4 anos vai chegar em 7,5 — se ele não mudar os horários.

O que importa decidir antes de dimensionar

Piscina não é uma carga — são três cargas distintas com comportamentos completamente diferentes:

1. Bomba de circulação: motor de 0,5 a 2 cv, rodando 6-10h/dia. Em geral, dá pra colocar 100% na janela solar (ligada das 8h às 16h). Essa é a carga mais fácil de capturar.

2. Aquecedor: pode ser resistência elétrica (horrível para o payback), bomba de calor elétrica (COP 4-5, razoável) ou coletor solar térmico (quase de graça). Aquecedor a resistência rodando à noite é o maior destruidor de payback solar que existe. A bomba de calor faz diferença, mas exige avaliação separada do porte do sistema fotovoltaico.

3. UV/Ozônio: cargas pequenas (100-400 W), geralmente em ciclos curtos, fácil de controlar via timer diurno.

A decisão central não é “qual painel comprar” — é qual dessas cargas você consegue deslocar para o período solar (8h-16h). Isso muda o payback em até 3 anos, como vou mostrar nos 3 perfis abaixo.

Tabela: consumo típico de piscina por componente

ComponentePotênciaHoras/diaConsumo/mêsObservação
Bomba 1 cv (piscina 40-60 mil L)750 W8h~180 kWhNoturno = não captura solar
Bomba 1,5 cv (piscina 60-90 mil L)1.100 W8h~264 kWhComum em cidades quentes
Aquecedor resistência 6 kW6.000 W4h~720 kWhRuim — evite
Bomba de calor 5 kW (COP 5,0)5.000 W4h~600 kWh geração; ~120 kWh elétricoCOP compensa
UV 200 W200 W6h~36 kWhFácil de solucionar

Fontes de referência de potência e COP: PROCEL/ELETROBRAS — Catálogo de Eficiência Energética 2025 e INMETRO — Tabela de eficiência de equipamentos.

Os 3 perfis: payback calculado

Usei as premissas padrão que aplico em todo cliente: degradação real do módulo de 0,55% ao ano (TOPCon/PERC em campo, não datasheet), troca do inversor string no ano 12 por R$ 4.200, manutenção R$ 380/ano, e o escalonamento do Fio B da Lei 14.300/2022 (60% em 2026, 75% em 2027, 90% em 2028, 100% a partir de 2029 sobre a energia injetada) — confira como o Fio B afeta o payback por região.


Perfil 1 — “Piscina noturna, São Paulo” (pior caso)

Casa: 4 pessoas, consumo residencial base 350 kWh/mês. Piscina 55 mil L, bomba 1 cv e bomba de calor 5 kW rodando das 20h às 8h. Consumo total: ~730 kWh/mês.

Sistema instalado pelo integrador: 8 kWp, custo R$ 38.000.

Tarifa: Enel SP B1, R$ 0,93/kWh (bandeira amarela, ICMS 18%). HSP São Paulo: 4,5 kWh/m²/dia (CRESESB).

Geração mensal: 8 × 4,5 × 30 × 0,80 = ~864 kWh. Problema: 380 kWh da piscina são noturnos. O sistema injeta crédito, mas com Fio B em 60%, cada kWh injetado vale 0,4 × R$ 0,93 = R$ 0,37 (autoconsumo = R$ 0,93). Esse “vazamento” noturno faz o sistema trabalhar pra rede e recuperar com desconto.

Economia real mensal: ~R$ 590. Payback simples: 6,4 anos.


Perfil 2 — “Piscina diurna programada, Recife” (caso intermediário)

Casa: 4 pessoas, consumo base 300 kWh/mês. Piscina 50 mil L, bomba 1 cv e bomba de calor. Timer ajustado para 7h-18h — captura quase todo o ciclo solar.

Sistema: 7 kWp, custo R$ 33.500.

Tarifa: Neoenergia PE B1, R$ 0,91/kWh. HSP Recife: 5,5 kWh/m²/dia.

Geração mensal: 7 × 5,5 × 30 × 0,80 = ~924 kWh. Com piscina no horário solar, autoconsumo sobe para ~65% da geração. Menos injeção, mais uso direto, menos perda pelo Fio B.

Economia real mensal: ~R$ 710. Payback simples: 4,7 anos.

A diferença entre Perfil 1 e 2 não é o sol (Recife tem mais, mas não é só isso) — é o horário da piscina. Só o ajuste do timer valeria ~1 ano de payback mesmo em SP.


Perfil 3 — “Piscina com coletor térmico, Goiânia” (melhor caso prático)

Casa: 4 pessoas, consumo base 320 kWh/mês. Piscina 60 mil L, bomba 1 cv. Aquecimento por coletor solar térmico (instalado junto ao sistema FV, custo adicional R$ 6.000) — elimina a bomba de calor elétrica completamente. UV com timer diurno.

Sistema FV: 5 kWp, custo R$ 26.000 (+ R$ 6.000 térmico = R$ 32.000 total no projeto).

Tarifa: Enel GO B1, R$ 0,87/kWh. HSP Goiânia: 5,4 kWh/m²/dia (CRESESB).

Geração mensal FV: 5 × 5,4 × 30 × 0,80 = ~648 kWh. Com consumo noturno reduzido (sem bomba de calor), autoconsumo chega a ~72%.

Economia real mensal (FV + térmico): ~R$ 760. Payback total (R$ 32.000 ÷ R$ 760 × 12): 3,5 anos.

Esse é o único perfil onde eu diria pro cliente “fecha sem pensar muito”. TIR de projeto chega a 21% ao ano — esse nível de consumo elevado é exatamente o perfil onde solar fecha conta mais rápido.

Tabela-resumo dos 3 perfis

PerfilCidadeConsumo/mêsCusto sistemaEconomia/mêsPayback simples
Piscina noturna (pior caso)São Paulo~730 kWhR$ 38.000R$ 5906,4 anos
Piscina diurna programadaRecife~620 kWhR$ 33.500R$ 7104,7 anos
Coletor térmico + FVGoiânia~520 kWh (FV)R$ 32.000R$ 7603,5 anos

Minha escolha e por que

Se eu fosse montar esse projeto hoje para um cliente com piscina, a ordem de decisão seria:

  1. Primeiro, arruma o horário: timer da bomba e do aquecedor para 8h-16h, antes de dimensionar o sistema. Isso reduz o kWp necessário e melhora o autoconsumo.
  2. Se tem espaço de telhado: coletor solar térmico junto ao projeto FV. Custo adicional de R$ 5-8 mil que elimina a maior carga elétrica da piscina.
  3. Nunca aquecedor a resistência elétrica: COP de 1,0 vs COP de 4-5 da bomba de calor. A resistência paga mais cara a mesma temperatura — e torna o sistema FV menor se você tiver a bomba de calor.
  4. Dimensionar pelo consumo real após o ajuste de horário — não pelo consumo antes. O consumo noturno que não é capturado pelo solar continua pesando na conta, e um sistema superdimensionado pra cobrir isso custa mais sem proporcional retorno.

Eu não faria o Perfil 1 sem antes corrigir o timer. Pagar R$ 38 mil pra payback de 6,4 anos quando R$ 0 e um timer resolve 1,7 ano dessa diferença é dinheiro jogado fora.

FAQ

O solar fotovoltaico pode alimentar a bomba de calor da piscina? Sim — a bomba de calor é uma das melhores cargas para casar com FV porque é previsível, grande e desloca bem para o período solar. O erro é deixar ela no modo automático noturno de fábrica. Programe o horário e o resultado muda radicalmente.

Vale a pena ter bateria residencial só por causa da piscina noturna? Em geral, não. Uma bateria LFP de 10 kWh custa R$ 18-22 mil e tem payback próprio de 8-12 anos em 2026 (taxação do Fio B prejudica ainda mais a bateria no Brasil). A solução mais barata é programar as cargas para o dia — e guardar a bateria para quem tem outro motivo (backup, tarifa branca noturna baixa, off-grid parcial).

Minha conta tem R$ 200 de piscina e R$ 300 de resto. Vale o solar? R$ 500/mês de consumo total é exatamente o perfil limítrofe. Com piscina diurna e Nordeste/Centro-Oeste, fecha conta. Com piscina noturna em SP, fica no limite. Faça a conta de autoconsumo antes de assinar.

Fontes

  1. ANEEL — Lei 14.300/2022, microgeração distribuída e TUSD-Fio B: https://www.gov.br/aneel/pt-br/centrais-de-conteudos/principais-temas/microgeracao-e-minigeracao-distribuida
  2. ANEEL — Tarifas vigentes 2026 (Enel SP, Neoenergia PE, Enel GO): https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas
  3. CRESESB — Atlas Solarimétrico do Brasil (HSP por cidade): http://www.cresesb.cepel.br/index.php?section=sundata
  4. PROCEL/ELETROBRAS — Catálogo de Eficiência Energética, bomba de calor: https://eletrobras.com/pt/Paginas/Procel.aspx
  5. INMETRO — Programa Brasileiro de Etiquetagem, eficiência de equipamentos: https://www.gov.br/inmetro/pt-br/assuntos/avaliacao-da-conformidade/programa-brasileiro-de-etiquetagem
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Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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