Pular para o conteúdo
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Solar Brasil SOLAR BRASIL
Residencial

Aquecedor elétrico no inverno: por que a conta sobe justo quando o solar gera menos

Em Porto Alegre, a geração cai até 41% de dezembro pra junho. É exatamente quando o aquecedor entra em ação. Refiz a conta do efeito duplo — e o que fazer antes do frio chegar.

Bruno Aragão 6 min de leitura
Aquecedor elétrico portátil ligado em sala de estar residencial durante o inverno
Aquecedor elétrico portátil ligado em sala de estar residencial durante o inverno

Uma cliente de Porto Alegre me escreveu em julho com a fatura na mão, sem entender o número: ela tinha instalado 4 kWp em outubro, viu a conta cair pra R$ 40 nos primeiros meses, e agora, no inverno, ela voltou pra R$ 190. “O sistema quebrou?”, ela perguntou. Não quebrou. Ela tinha ligado um aquecedor elétrico de 1.500 W todas as noites desde maio, e ninguém tinha explicado que esse é justamente o mês em que o telhado dela gera menos energia do ano inteiro. Duas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo, e nenhuma das duas é defeito.

O que aconteceu na conta dela

O problema não é o aquecedor sozinho, e não é a queda de geração sozinha — é a coincidência de calendário entre os dois. No Sul do Brasil, a irradiação solar despenca justo nos meses em que a temperatura cai e as famílias mais precisam de aquecimento. Segundo o SunData do CRESESB/CEPEL, Porto Alegre tem HSP (Horas de Sol Pleno) de 5,8 kWh/m²/dia em dezembro e cai para 3,4 kWh/m²/dia em junho — uma queda de 41% no pico do inverno frente ao pico do verão, com a média anual da região Sul girando em torno de 4,5 kWh/m²/dia.

Refiz a geração do sistema de 4 kWp dela nos dois extremos, com performance ratio de 0,78 (faixa típica de sistemas comissionados segundo a ABNT NBR 16274):

Junho: 3,4 × 4 × 0,78 × 30 ≈ 318 kWh Mês de HSP médio anual (4,5): 4,5 × 4 × 0,78 × 30 ≈ 421 kWh

Isso já é uma perda de 103 kWh no mês, sem nenhum aquecedor ligado. Agora entra a segunda metade da conta: um aquecedor elétrico de resistência de 1.500 W, ligado 4 horas por noite (rotina comum em quem não tem lareira nem aquecimento a gás central, o padrão da maioria das casas gaúchas e catarinenses), consome:

1,5 kW × 4h × 30 dias = 180 kWh a mais no mês

Com a tarifa B1 residencial do Rio Grande do Sul em torno de R$ 0,85/kWh (valor de referência 2026, RGE/CEEE), isso são R$ 153 a mais só de aquecedor — em cima de um sistema que já está gerando 103 kWh a menos do que gera num mês típico. O efeito combinado é uma diferença de 283 kWh entre o que o sistema entrega em junho e o que a casa passa a consumir com o aquecedor ligado. Foi exatamente esse buraco que apareceu na fatura da minha cliente.

Por que isso importa pra você, mesmo se o sistema está certo

Aqui está o ponto que a maioria dos orçamentos de integrador não deixa claro: um sistema bem dimensionado não precisa gerar mais que o consumo todo mês — ele precisa fechar a conta no ano, porque o crédito de energia não expira no fim do mês. Pela Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, o excedente injetado na rede em outubro, novembro e dezembro — quando a geração do RS bate 5,8 HSP e sobra energia — vira crédito válido por 60 meses, e é esse saldo acumulado no verão que cobre o déficit de junho e julho. É o mesmo mecanismo de compensação que já expliquei em como funcionam os créditos de energia solar (SCEE).

O problema da minha cliente não era o mecanismo — era o dimensionamento. O integrador dela calculou o sistema pela média anual de consumo, sem separar o mês de pico de uso do aquecedor. Quando o sistema é dimensionado só pela média, sobra energia em outubro e falta em junho, e se o saldo acumulado nos meses bons não é grande o suficiente pra cobrir o mês ruim, a diferença vira fatura em dinheiro — não em crédito. Isso é ainda mais sensível se a casa é de tarifa branca: nesse plano, o horário de ponta (18h às 21h, tipicamente) é justamente quando a família liga o aquecedor pra jantar e assistir TV, cobrando o kWh mais caro do dia. Já detalhei quando essa modalidade compensa e quando ela pune quem usa mais energia à noite em tarifa branca residencial: vale a pena mudar? — pra quem aquece a casa à noite no inverno, a resposta costuma ser não.

O que fazer com isso agora

  1. Dimensione pelo mês mais fraco, não pela média anual. Se você mora em região com inverno frio de verdade (Sul, Serra da Mantiqueira, planalto catarinense), peça ao projetista pra calcular o payback usando o HSP de junho da sua cidade, não a média dos 12 meses — é a mesma lógica que já apliquei em como dimensionar sistema solar pela conta de luz, só que aplicada ao pior mês, não ao consumo médio.
  2. Some o consumo do aquecedor à conta de luz de inverno, não à média do ano — se você ainda não tem o aparelho, use a potência da etiqueta (a maioria fica entre 1.000 W e 2.400 W) e multiplique pelas horas reais de uso, não pela expectativa.
  3. Evite tarifa branca se o aquecedor liga no horário de ponta. A economia da tarifa branca depende de deslocar consumo pra fora do pico das 18h-21h — e aquecedor de inverno costuma ligar justo aí.
  4. Compare o custo do aquecedor a resistência com alternativas mais eficientes antes de comprar — um ar-condicionado em modo quente (ciclo reverso) costuma entregar o mesmo calor consumindo bem menos energia que uma resistência pura, porque ele transfere calor em vez de gerá-lo por efeito Joule. Vale a conta antes de decidir qual aparelho comprar.
  5. Não superdimensione achando que “sobra resolve tudo”. Sobra em outubro só ajuda em junho se o saldo acumulado for suficiente — e isso é conta de kWh, não intuição. Peça a simulação mês a mês, não só o número anual.

No caso da minha cliente, o sistema estava certo no papel — só faltou avisar que junho ia doer mais que setembro. Ajustamos a expectativa, ela trocou o aquecedor de resistência por um de menor potência com termostato (evita ficar ligado o tempo todo na potência máxima), e a conta de julho seguinte veio R$ 60 mais baixa que a de junho, mesmo com o frio parecido.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

Continue lendo · Residencial

Ver tudo →