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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Secadora de roupas com energia solar: o consumo que ninguém dimensiona certo

A secadora entrou na casa depois do sistema solar já instalado, e a conta voltou a subir. Refiz o cálculo de quanto ela pesa de verdade — e quanto de painel extra cobre isso.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Secadora de roupas elétrica em área de serviço residencial
Secadora de roupas elétrica em área de serviço residencial

Uma cliente de Curitiba me mandou uma mensagem em julho com um misto de raiva e confusão: tinha instalado 4,8 kWp em março, viu a conta cair pra R$ 60, e em junho — mês de chuva constante, roupa que não secava no varal — comprou uma secadora de 2.500 W pra resolver. Na fatura seguinte, a conta voltou a R$ 130. “Não era pra ter sobra suficiente pra isso?”, ela perguntou. A resposta é: depende de quanto essa “sobra” realmente vale em kWh, e quase ninguém faz essa conta antes de comprar o eletrodoméstico.

A versão de 30 segundos

Secadora de roupas resistiva consome entre 2.000 W e 3.000 W por ciclo de 50 a 90 minutos — potência parecida com a de um chuveiro elétrico, só que usada em ciclos mais longos e, em muitas casas, quase todo dia no inverno ou na temporada de chuva. Isso não “queima” o sistema solar, porque o mecanismo de compensação de créditos não trabalha em tempo real — mas pode, sim, empurrar o consumo mensal pra além do que o sistema foi dimensionado pra cobrir, principalmente se a secadora chegou depois do projeto do sistema, não junto com ele. A conta certa não é “o solar aguenta a secadora”. É quantos kWh a mais ela representa por mês, e quantos kWp de painel cobririam essa diferença.

Conceito 1 — potência de placa não é o que decide a conta, é o ciclo completo

O erro mais comum é olhar só o watt da etiqueta e achar que 2.500 W é “pouco” perto dos 4.400 W ou mais que a casa toda consome num pico. Potência instantânea decide se o disjuntor aguenta; consumo em kWh é o que decide se o sistema solar cobre. E aqui a secadora se parece mais com um chuveiro do que com uma geladeira: ela liga na potência máxima quase o ciclo inteiro, sem os intervalos de compressor ligando e desligando.

Refiz a conta pra uma secadora resistiva de 2.500 W, ciclo médio de 70 minutos, numa família que usa a secadora em dias de chuva e no inverno — cerca de 15 vezes por mês, padrão razoável pra quem mora fora do eixo Nordeste/Centro-Oeste, onde o varal ainda resolve na maior parte do ano:

Consumo = potência (kW) × tempo (h) × usos no mês 2,5 kW × 1,17 h × 15 ≈ 43,9 kWh/mês

Numa casa que usa a secadora quase todo dia — apartamento sem varal, família grande, rotina de quem trabalha fora e não tem tempo de esperar roupa secar naturalmente — o número praticamente dobra:

2,5 kW × 1,17 h × 28 ≈ 81,9 kWh/mês

Com tarifa B1 residencial em torno de R$ 0,90/kWh (valor de referência 2026, faixa comum nas distribuidoras do Sul e Sudeste), isso equivale a R$ 39,50 a R$ 73,70 por mês, só de secadora — dependendo da frequência de uso, não da potência de placa.

Conceito 2 — o crédito cobre o consumo mensal, não o pico da hora em que a roupa está secando

Igual acontece com chuveiro elétrico, a secadora não “puxa energia direto do painel” — ela consome da rede no horário em que está ligada, e o sistema fotovoltaico injeta energia na rede durante o dia, gerando crédito em kWh compensado na fatura seguinte, pelo Sistema de Compensação de Energia Elétrica regulado pela Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021. Isso significa que ligar a secadora às 21h, com o sistema havia horas sem gerar nada, não é diferente — no fechamento da fatura — de ligar às 11h da manhã com o telhado gerando no pico. O que muda o resultado final é se a geração do mês cobriu o consumo do mês, incluindo essa carga nova.

É exatamente o mecanismo que já detalhei pro caso do chuveiro elétrico com energia solar: o problema nunca é “aguentar em tempo real”, é o saldo do mês fechar. A diferença da secadora é que ela costuma chegar depois do sistema já instalado e dimensionado — comprada pra resolver um problema (roupa não seca no inverno) sem ninguém recalcular quanto isso pesa no kWp.

Conceito 3 — quanto de painel extra cobre a secadora, por região

Aqui está o número que a maioria dos integradores não te dá de graça. Pra saber quanto de potência instalada adicional cobre o consumo extra da secadora, uso a fórmula inversa da geração:

kWp extra necessário = consumo extra (kWh) ÷ (HSP × PR × 30)

Com performance ratio de 0,78 (faixa típica de sistema comissionado conforme a ABNT NBR 16274) e usando a secadora 15 vezes por mês (43,9 kWh):

  • Nordeste (HSP 5,5, segundo o Atlas Solarimétrico CRESESB/CEPEL): 43,9 ÷ (5,5 × 0,78 × 30) ≈ 0,34 kWp
  • Sudeste (HSP 4,6): 43,9 ÷ (4,6 × 0,78 × 30) ≈ 0,41 kWp
  • Sul (HSP 4,2): 43,9 ÷ (4,2 × 0,78 × 30) ≈ 0,45 kWp

Ou seja: em uso moderado, uma secadora custa menos de meio painel de 550 Wp adicional — a diferença entre uma região e outra é pequena porque o consumo em si já é modesto. O cenário que realmente pesa é o uso quase diário (81,9 kWh/mês): no Sul, isso sobe pra 0,84 kWp, quase dois painéis inteiros — e é esse o perfil que costuma gerar a fatura surpresa, porque ninguém prevê “vou secar roupa todo santo dia” na hora de fechar o projeto.

Eu não recomendaria comprar secadora e torcer pra sobra cobrir. Recomendo somar esse consumo à conta de luz antes de fechar o kWp — o mesmo raciocínio que já apliquei em como dimensionar o sistema solar pela conta de luz: se a secadora ainda não existe na sua rotina, mas você sabe que vai comprar, é mais barato adicionar meio painel agora do que descobrir o rombo na fatura de julho.

Onde isso falha

Essa conta muda bastante com secadora de bomba de calor (heat pump), que consome entre 700 W e 1.000 W — menos de metade da resistiva — porque ela transfere calor em vez de gerá-lo por resistência, o mesmo princípio por trás de um ar-condicionado no modo quente. E se a fiação e o disjuntor do padrão de entrada já estão no limite antes da secadora entrar, o problema deixa de ser só de energia solar: vale checar se o padrão de entrada aguenta a carga somada, como já expliquei em padrão de entrada solar: quando precisa trocar, porque isso existiria mesmo sem painel nenhum no telhado.

Pra quem está decidindo entre secadora resistiva e bomba de calor considerando o impacto no payback do sistema todo, o cálculo de como outros equipamentos de alta potência mudam o retorno do investimento — não só a secadora — está em payback solar e ar-condicionado: quantas horas por dia fazem diferença.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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