Secadora de roupas com energia solar: o consumo que ninguém dimensiona certo
A secadora entrou na casa depois do sistema solar já instalado, e a conta voltou a subir. Refiz o cálculo de quanto ela pesa de verdade — e quanto de painel extra cobre isso.
Uma cliente de Curitiba me mandou uma mensagem em julho com um misto de raiva e confusão: tinha instalado 4,8 kWp em março, viu a conta cair pra R$ 60, e em junho — mês de chuva constante, roupa que não secava no varal — comprou uma secadora de 2.500 W pra resolver. Na fatura seguinte, a conta voltou a R$ 130. “Não era pra ter sobra suficiente pra isso?”, ela perguntou. A resposta é: depende de quanto essa “sobra” realmente vale em kWh, e quase ninguém faz essa conta antes de comprar o eletrodoméstico.
A versão de 30 segundos
Secadora de roupas resistiva consome entre 2.000 W e 3.000 W por ciclo de 50 a 90 minutos — potência parecida com a de um chuveiro elétrico, só que usada em ciclos mais longos e, em muitas casas, quase todo dia no inverno ou na temporada de chuva. Isso não “queima” o sistema solar, porque o mecanismo de compensação de créditos não trabalha em tempo real — mas pode, sim, empurrar o consumo mensal pra além do que o sistema foi dimensionado pra cobrir, principalmente se a secadora chegou depois do projeto do sistema, não junto com ele. A conta certa não é “o solar aguenta a secadora”. É quantos kWh a mais ela representa por mês, e quantos kWp de painel cobririam essa diferença.
Conceito 1 — potência de placa não é o que decide a conta, é o ciclo completo
O erro mais comum é olhar só o watt da etiqueta e achar que 2.500 W é “pouco” perto dos 4.400 W ou mais que a casa toda consome num pico. Potência instantânea decide se o disjuntor aguenta; consumo em kWh é o que decide se o sistema solar cobre. E aqui a secadora se parece mais com um chuveiro do que com uma geladeira: ela liga na potência máxima quase o ciclo inteiro, sem os intervalos de compressor ligando e desligando.
Refiz a conta pra uma secadora resistiva de 2.500 W, ciclo médio de 70 minutos, numa família que usa a secadora em dias de chuva e no inverno — cerca de 15 vezes por mês, padrão razoável pra quem mora fora do eixo Nordeste/Centro-Oeste, onde o varal ainda resolve na maior parte do ano:
Consumo = potência (kW) × tempo (h) × usos no mês 2,5 kW × 1,17 h × 15 ≈ 43,9 kWh/mês
Numa casa que usa a secadora quase todo dia — apartamento sem varal, família grande, rotina de quem trabalha fora e não tem tempo de esperar roupa secar naturalmente — o número praticamente dobra:
2,5 kW × 1,17 h × 28 ≈ 81,9 kWh/mês
Com tarifa B1 residencial em torno de R$ 0,90/kWh (valor de referência 2026, faixa comum nas distribuidoras do Sul e Sudeste), isso equivale a R$ 39,50 a R$ 73,70 por mês, só de secadora — dependendo da frequência de uso, não da potência de placa.
Conceito 2 — o crédito cobre o consumo mensal, não o pico da hora em que a roupa está secando
Igual acontece com chuveiro elétrico, a secadora não “puxa energia direto do painel” — ela consome da rede no horário em que está ligada, e o sistema fotovoltaico injeta energia na rede durante o dia, gerando crédito em kWh compensado na fatura seguinte, pelo Sistema de Compensação de Energia Elétrica regulado pela Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021. Isso significa que ligar a secadora às 21h, com o sistema havia horas sem gerar nada, não é diferente — no fechamento da fatura — de ligar às 11h da manhã com o telhado gerando no pico. O que muda o resultado final é se a geração do mês cobriu o consumo do mês, incluindo essa carga nova.
É exatamente o mecanismo que já detalhei pro caso do chuveiro elétrico com energia solar: o problema nunca é “aguentar em tempo real”, é o saldo do mês fechar. A diferença da secadora é que ela costuma chegar depois do sistema já instalado e dimensionado — comprada pra resolver um problema (roupa não seca no inverno) sem ninguém recalcular quanto isso pesa no kWp.
Conceito 3 — quanto de painel extra cobre a secadora, por região
Aqui está o número que a maioria dos integradores não te dá de graça. Pra saber quanto de potência instalada adicional cobre o consumo extra da secadora, uso a fórmula inversa da geração:
kWp extra necessário = consumo extra (kWh) ÷ (HSP × PR × 30)
Com performance ratio de 0,78 (faixa típica de sistema comissionado conforme a ABNT NBR 16274) e usando a secadora 15 vezes por mês (43,9 kWh):
- Nordeste (HSP 5,5, segundo o Atlas Solarimétrico CRESESB/CEPEL): 43,9 ÷ (5,5 × 0,78 × 30) ≈ 0,34 kWp
- Sudeste (HSP 4,6): 43,9 ÷ (4,6 × 0,78 × 30) ≈ 0,41 kWp
- Sul (HSP 4,2): 43,9 ÷ (4,2 × 0,78 × 30) ≈ 0,45 kWp
Ou seja: em uso moderado, uma secadora custa menos de meio painel de 550 Wp adicional — a diferença entre uma região e outra é pequena porque o consumo em si já é modesto. O cenário que realmente pesa é o uso quase diário (81,9 kWh/mês): no Sul, isso sobe pra 0,84 kWp, quase dois painéis inteiros — e é esse o perfil que costuma gerar a fatura surpresa, porque ninguém prevê “vou secar roupa todo santo dia” na hora de fechar o projeto.
Eu não recomendaria comprar secadora e torcer pra sobra cobrir. Recomendo somar esse consumo à conta de luz antes de fechar o kWp — o mesmo raciocínio que já apliquei em como dimensionar o sistema solar pela conta de luz: se a secadora ainda não existe na sua rotina, mas você sabe que vai comprar, é mais barato adicionar meio painel agora do que descobrir o rombo na fatura de julho.
Onde isso falha
Essa conta muda bastante com secadora de bomba de calor (heat pump), que consome entre 700 W e 1.000 W — menos de metade da resistiva — porque ela transfere calor em vez de gerá-lo por resistência, o mesmo princípio por trás de um ar-condicionado no modo quente. E se a fiação e o disjuntor do padrão de entrada já estão no limite antes da secadora entrar, o problema deixa de ser só de energia solar: vale checar se o padrão de entrada aguenta a carga somada, como já expliquei em padrão de entrada solar: quando precisa trocar, porque isso existiria mesmo sem painel nenhum no telhado.
Pra quem está decidindo entre secadora resistiva e bomba de calor considerando o impacto no payback do sistema todo, o cálculo de como outros equipamentos de alta potência mudam o retorno do investimento — não só a secadora — está em payback solar e ar-condicionado: quantas horas por dia fazem diferença.
Fontes
- ANEEL — Resolução Normativa nº 1.000/2021 (Sistema de Compensação de Energia Elétrica)
- Lei nº 14.300/2022 — Marco Legal da Geração Distribuída
- CRESESB/CEPEL — Atlas Solarimétrico do Brasil e SunData: irradiação solar por município
- ABNT NBR 16274 — Sistemas fotovoltaicos conectados à rede: requisitos de comissionamento e avaliação de desempenho
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


