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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Fogão de indução com energia solar: vale trocar o gás, e o kWp extra que ninguém soma

Trocar o fogão a gás por indução parece decisão de decoração. Refiz a conta de quanto isso pesa no sistema fotovoltaico — e comparei com o cooktop elétrico comum, que gasta mais pra cozinhar a mesma coisa.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Fogão cooktop de indução em cozinha residencial moderna
Fogão cooktop de indução em cozinha residencial moderna

Um casal em Uberlândia (MG) me escreveu depois de reformar a cozinha: trocaram o fogão a gás por um cooktop de indução de 4 zonas, “porque é mais bonito e mais rápido”, e só depois perceberam que agora dependiam 100% do sistema fotovoltaico de 4,4 kWp pra cozinhar. Ninguém no showroom perguntou quanto isso ia pesar na conta. A resposta boa notícia é que indução é o eletrodoméstico de cozinha mais eficiente que existe — a má notícia é que “eficiente” não é sinônimo de “de graça”, e a conta muda dependendo de qual fogão elétrico você está comparando.

O que importa decidir antes de trocar

Trocar o fogão não é só escolher a marca. Cinco coisas mudam a conta de verdade:

  1. Qual comparação você está fazendo. Indução vs gás é uma decisão; indução vs cooktop elétrico comum (vitrocerâmico resistivo) é outra — e o ganho de eficiência só aparece na segunda.
  2. Quanto tempo por dia o fogão fica ligado. Café da manhã rápido não pesa igual a almoço de panela de pressão + refogado + arroz simultâneos.
  3. Se o sistema solar já existia antes da reforma ou vai ser dimensionado junto. Isso muda se a conta é “quanto sobra” ou “quanto somar”.
  4. HSP e tarifa da sua região, porque o mesmo consumo em kWh vira kWp diferente dependendo de onde a casa está.
  5. Se a instalação elétrica aguenta a carga. Cooktop de indução de 4 zonas costuma exigir circuito dedicado de 220V e disjuntor próprio — isso é projeto elétrico, não painel solar.

Comparativo: indução, resistivo e gás

CritérioInduçãoVitrocerâmico resistivoGás (botijão P13)
Potência típica (uso doméstico, 2 bocas simultâneas)~2.400 W~2.400 Wnão aplicável (chama)
Eficiência de transferência de calor~88-90%~65-70%~40-55% (perda ao redor da panela)
Consumo elétrico pra mesma tarefa de cozimentoreferência (100%)~25-30% a maiszero (mas gera custo de gás)
Exige panela específica (fundo ferromagnético)simnãonão
Instalação elétricacircuito dedicado 220V, geralmente 30-40Aidemdispensa carga elétrica extra
Custo mensal aproximado (família de 4, uso moderado)~R$ 73 (solar) / R$ 73 (rede)~R$ 92 (rede)~R$ 55-65 (1 botijão a cada ~2 meses)

Eficiência de transferência de calor: indução aquece o fundo ferromagnético da panela por indução eletromagnética direta; resistivo aquece uma serpentina que depois aquece a panela por condução, com mais perda pro ambiente; gás perde calor ao redor da panela pra o ar. Faixas conforme literatura de engenharia térmica de eletrodomésticos — variam por modelo e panela usada.

Refiz a conta: quanto isso pesa em kWp

Assumi um uso moderado — família de 4 pessoas, fogão ligado em média 1h30 por dia somando café, almoço e jantar, com potência média de 1,8 kW (mistura de zonas em potência alta e baixa, não as 4 no máximo ao mesmo tempo):

Indução: 1,8 kW × 1,5 h × 30 dias ≈ 81 kWh/mês

Vitrocerâmico resistivo (mesma tarefa de cozimento, ~27% menos eficiente): 81 × 1,27 ≈ 103 kWh/mês

Usando a fórmula de kWp extra necessário (kWp = consumo mensal ÷ (HSP × PR × 30), com performance ratio 0,78 conforme ABNT NBR 16274) e o Atlas Solarimétrico CRESESB/CEPEL:

Região (HSP)kWp extra — induçãokWp extra — resistivo
Nordeste (5,5)0,63 kWp0,80 kWp
Sudeste (4,6)0,75 kWp0,95 kWp
Sul (4,2)0,82 kWp1,05 kWp

A diferença entre indução e resistivo parece pequena em kWp isolado — meio painel de sobra —, mas ao longo de um financiamento de 60 meses ela se acumula: no Sul, são quase 0,23 kWp a mais, o equivalente a um painel de 550 Wp inteiro que o resistivo exige e o indução não. É o mesmo efeito que já expliquei pra outros equipamentos de alta potência que chegam depois do projeto: quem cozinha bastante e não soma o fogão na hora de fechar o kWp descobre o rombo na primeira fatura de inverno, quando a geração cai e o consumo da cozinha não muda — o mesmo padrão que já vi acontecer com quem compra secadora de roupas depois do sistema já instalado.

Minha escolha e por quê

Eu não trocaria gás por indução só pela estética — mas se a reforma já vai acontecer e a casa tem sistema solar (ou vai ter), indução ganha do resistivo em qualquer cenário que eu calculei, porque entrega a mesma comida gastando menos kWh, e isso significa menos kWp pra financiar. A pegadinha que ninguém avisa no showroom é a instalação elétrica: cooktop de 4 zonas costuma pedir 30-40A num circuito dedicado, e isso é orçamento de eletricista, separado do orçamento do painel. Já vi cliente comprar o fogão, agendar a instalação e só aí descobrir que o quadro de distribuição não tinha disjuntor sobrando — o mesmo tipo de surpresa que descrevi ao tratar do padrão de entrada solar e quando ele precisa ser trocado. Se a casa ainda depende de gás e o orçamento é apertado, eu manteria o gás e investiria o dinheiro do cooktop em kWp — o retorno financeiro ali costuma ser maior do que a economia de trocar de fogão.

Perguntas frequentes

Fogão de indução funciona em queda de energia, mesmo com sistema solar? Não. Sistema on-grid comum desliga com a rede por segurança (anti-ilhamento), e sem energia elétrica não há indução — diferente do fogão a gás, que segue funcionando. Quem depende de cozinhar durante quedas de luz precisa de bateria ou gerador, não só de painel.

Preciso trocar todas as panelas ao trocar pra indução? Só as que não tiverem fundo ferromagnético. Teste rápido: se um ímã gruda no fundo da panela, ela funciona na indução. Panela de alumínio puro ou cobre sem base de aço não funciona.

Vale a pena somar o fogão ao dimensionar o sistema do zero, ou só depois? Vale somar já no projeto, se a troca já está decidida. Adicionar meio painel na instalação original custa menos por Wp do que fazer uma expansão separada depois — mão de obra e visita técnica se dividem entre mais painéis. Se o sistema já está instalado, dá pra avaliar quando vale a pena aumentar o sistema solar com painéis extras em vez de reprojetar tudo.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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