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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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BYD embutiu um kit solar no Song Pro Flex: refiz a conta e o desconto é real

BYD vende kit solar de 8 módulos parcelado em 36x sem juros pra quem compra o Song Pro Flex. Recalculei o R$/kWp e comparei com CDC solar de mercado: o gancho publicitário se sustenta.

Bruno Aragão 6 min de leitura
Painéis solares instalados no telhado de uma casa residencial com carro elétrico carregando na garagem
Painéis solares instalados no telhado de uma casa residencial com carro elétrico carregando na garagem

Na concessionária BYD, o vendedor do Song Pro Flex passa pelo motor, pela autonomia, pelo banco de couro — e só depois aponta pro adesivo que promete um kit solar de brinde. “É menos que dois tanques de gasolina por mês”, ele repete, citando quase palavra por palavra o discurso oficial da marca. Frase de vendedor costuma ser a parte da conta que eu não confio de olhos fechados. Refiz o cálculo com os números que a BYD publicou, e dessa vez o discurso resiste à planilha.

A versão de 30 segundos

Quem compra o Song Pro Flex — SUV médio “super-híbrido” da BYD, com versões de R$ 176.990 (GL) e R$ 199.990 (GS), lançado em agosto de 2026 — pode levar junto um kit solar de 8 módulos fabricados pela própria BYD no Brasil, dimensionado pra residências de até 600 kWh/mês, por R$ 18.438 à vista ou 36 parcelas de R$ 512 sem juros pelo Santander, segundo o Canal Solar. Refiz duas contas que a propaganda não faz: o preço por kWp implícito e o que essas mesmas 36 parcelas custariam num CDC solar comum. Nas duas, o kit da BYD sai bem posicionado — mas só pra quem já ia comprar o carro, e só se a potência do kit realmente encaixar no seu consumo.

Conceito 1 — o que a BYD está vendendo, sem o verniz de marketing

O anúncio, feito em 5 de agosto por Henrique Antunes, diretor de Vendas de Picapes e Utilitários da BYD Brasil, empacota três coisas: os módulos fotovoltaicos, a instalação e o financiamento — tudo puxado pela venda do carro. A empresa não divulgou a potência exata do kit, só o teto de consumo atendido (600 kWh/mês) e a quantidade de módulos (8). O Song Pro Flex, por sua vez, não é elétrico puro: é um “super-híbrido” que roda em gasolina, etanol e eletricidade, com até 72 km só no modo elétrico antes de acionar o motor a combustão, segundo reportagem do ND Mais.

Isso importa porque o discurso de venda mistura duas economias diferentes: a da conta de luz (o kit solar reduz) e a do combustível (o modo elétrico reduz, mas só em trajetos curtos, com bateria carregada). Uma casa com o kit instalado consegue carregar esses 72 km de autonomia elétrica com energia própria — é aí que a comparação com “dois tanques de gasolina” faz sentido, e não como promessa de rodar 100% de graça.

Conceito 2 — o preço por kWp é honesto ou é isca?

Sem a potência exata publicada, assumi módulos de 610 W — o padrão que vem dominando o mercado residencial brasileiro em 2026, como já mapeei em outra cobertura de equipamentos. Oito módulos de 610 W dão 4,88 kWp. Dividindo o preço à vista (R$ 18.438) por essa potência, chego a R$ 3.779/kWp.

Esse número cabe dentro da faixa que uso pra filtrar qualquer orçamento solar em 2026 — entre R$ 3.500 e R$ 5.500 por kWp instalado, com instalação inclusa. R$ 3.779/kWp fica na ponta baixa da faixa saudável: não é pechincha suspeita (abaixo de R$ 3.000 costuma esconder item faltando), mas também não é premium. É preço de mercado, sem o desconto heroico que a propaganda sugere. O que muda o jogo não é o preço do kit — é a forma de pagar.

Um detalhe que a etiqueta “atende até 600 kWh/mês” simplifica pra vender: um sistema de 4,88 kWp só entrega esse consumo inteiro em regiões de HSP alto (Nordeste, típico 5,5 kWh/m²/dia). Em capitais do Sul, com HSP perto de 4,2, a mesma potência gera bem menos que 600 kWh.

Conceito 3 — zero juros é o ganho real, e ele é grande

Aqui está a parte que a maioria da cobertura sobre o lançamento não calculou. As 36 parcelas de R$ 512 somam R$ 18.432 — praticamente o valor à vista, ou seja, juro zero de verdade, não juro embutido disfarçado de “parcelamento facilitado”.

Comparei com o que este mesmo sistema custaria financiado num CDC solar bancário comum. No comparativo de taxas que fiz em maio de 2026, a faixa cotada foi de 2,15% a 2,69% ao mês entre BV Solar, Santander Solar, Sicredi Energia e BNDES via repassador. Usando o meio dessa faixa, 2,3% ao mês, financiar os mesmos R$ 18.438 em 36 parcelas custaria cerca de R$ 759/mês — R$ 247 a mais por mês, e algo perto de R$ 8.900 a mais em juros no total do contrato, contra os R$ 6 pagos a mais no plano da BYD (arredondamento do parcelamento).

ModalidadeParcela (36x)Total pagoJuros pagos
BYD + Santander (0% a.m.)R$ 512~R$ 18.432~R$ 0
CDC solar médio de mercado (2,3% a.m.)~R$ 759~R$ 27.320~R$ 8.884

Essa é a diferença que a propaganda simplifica em “menos que dois tanques de gasolina”. Na planilha, é quase R$ 9 mil de juro que deixam de existir — desde que o comprador já esteja decidido a levar o carro, porque o kit não é vendido separado da compra do veículo.

Onde essa oferta falha

Três limites que eu não deixaria passar batido:

  • Não é pra quem só quer o kit. A oferta está amarrada à compra de um SUV de R$ 176 a 200 mil. Comparar com CDC solar avulso só faz sentido pra quem já decidiu pelo carro por outros motivos.
  • Potência fixa, sem ajuste fino ao seu consumo real. Um kit “de prateleira” pra até 600 kWh/mês pode sobrar ou faltar dependendo da sua região e do seu histórico — o oposto do que recomendo em qualquer orçamento de kit solar residencial, onde a régua é sempre o seu consumo, não um número de catálogo.
  • A homologação na distribuidora não está no pacote. Prazo de ligação, ART do projeto e o processo junto à concessionária seguem por conta do comprador — a BYD resolve equipamento e parcela, não o trâmite regulatório que qualquer sistema solar brasileiro exige.

Pra quem já pensa em carregar o carro em casa com energia própria, a conta de recarga solar segue as mesmas regras de qualquer veículo eletrificado — como venho tratando também no comparativo entre solar e recarga residencial. O gancho publicitário da BYD, nesse caso específico, resiste à planilha — o que não é o padrão do setor.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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