Brasil caiu pro 5º maior mercado solar do mundo — a causa não é a taxação do sol
Absolar confirma queda de 23% nas instalações solares em 2025 e o Brasil perdeu posição no ranking mundial. Refiz a conta: o motivo principal não é o Fio B, é conexão negada e juro de financiamento.
Um leitor me mandou a manchete essa semana com uma pergunta seca: “Bruno, o Brasil caiu pro 5º lugar em energia solar. Ainda vale a pena instalar, ou o mercado tá afundando?” A pergunta certa não é se o mercado caiu — caiu, 23%, é fato confirmado pela Absolar em 19 de agosto. A pergunta certa é por quê. E a resposta que a própria associação deu não é a que a maioria vai chutar de primeira.
O que importa decidir antes de ler a manchete como sinal de alarme
Antes de cancelar orçamento ou empurrar a decisão pra 2027, são quatro perguntas que valem mais que o número da manchete:
- O que caiu, exatamente, e comparado com o quê? Instalação nova, não capacidade total em operação.
- Por que caiu, segundo quem mede o setor — não a hipótese mais óbvia que qualquer blog (inclusive este) gosta de repetir.
- O que disso é problema seu, individual, e o que é gargalo estrutural do setor que não muda sua conta.
- Quanto pesa a taxa de financiamento nessa história — porque essa parte, ao contrário da fila de conexão da sua distribuidora, você controla.
O tamanho da queda, sem arredondar pra cima nem pra baixo
O Brasil instalou 14,5 GWp de energia solar em 2025, contra 18,9 GWp em 2024 — queda de 23% na comparação anual, segundo o relatório Global Solar Market Outlook 2026-2030 da SolarPower Europe, apresentado pela Absolar às vésperas da Intersolar South America (25 a 27 de agosto, em São Paulo). O país caiu uma posição no ranking mundial e ficou em 5º lugar, atrás de China, Índia, Estados Unidos e Alemanha, conforme reportagem da Agência iNFRA. No mesmo relatório, o mundo bateu a marca histórica de 3 terawatts de capacidade solar instalada, com 664 GW adicionados globalmente só em 2025.
Isso não é o fim do solar residencial — é 74,3 GW em operação no Brasil, 27,4% de toda a capacidade instalada do país. É desaceleração no ritmo de instalação nova, não colapso do que já existe. A diferença importa pra quem está decidindo entrar agora.
A causa que a Absolar apontou — e não é a que este blog mais cobre
Aqui é onde a maioria da cobertura escorrega, inclusive a nossa às vezes: a tentação é jogar a culpa inteira no calendário do Fio B da Lei 14.300, porque é o vilão mais familiar. Não foi essa a explicação principal que a Absolar deu, segundo apuração do Canal Solar. Pra sistemas pequenos e médios — o grosso do mercado residencial — a causa líder foi a negativa de conexão pelas distribuidoras, sob alegação de “inversão de fluxo de potência”: a rede local, segundo a concessionária, não aguentaria receber mais energia entrando. Pra usinas grandes, o problema foi outro: cortes de geração (curtailment) sem ressarcimento financeiro, que desincentivaram projeto novo.
O Fio B entra na lista, sim — mas como um fator entre outros, não como a causa isolada. Os outros dois que pesam de verdade pro seu bolso, se você financia o sistema, são o custo do crédito (juros de financiamento ainda elevados) e a volatilidade do dólar puxando o preço de equipamento importado.
| Causa apontada pela Absolar | Onde pesa mais | É problema seu, se for instalar agora? |
|---|---|---|
| Distribuidora nega conexão (“inversão de fluxo”) | Sistemas pequenos e médios (residencial) | Sim — depende da capacidade de rede da sua região; veja o que a ANEEL permite cobrar quando a conexão atrasa |
| Curtailment sem ressarcimento | Usinas de grande porte | Não, se seu sistema é residencial |
| Fio B (Lei 14.300, calendário até 2029) | Todo prossumidor, de forma previsível | Sim, mas dá pra calcular antes de assinar |
| Juro de financiamento + câmbio + imposto de importação | Quem financia o sistema | Sim — e é a única linha desta tabela que muda conforme a sua escolha |
Refiz a conta do juro — porque é a única variável que você escolhe
A fila de conexão da sua distribuidora, você não controla. O calendário do Fio B, também não. Mas a taxa do financiamento, sim — e é aí que a “causa macroeconômica” que a Absolar citou vira dinheiro real saindo do seu bolso. Peguei um sistema de R$ 25 mil, financiado em 60 parcelas fixas (tabela Price, a mais comum em CDC solar), e comparei a taxa mais barata disponível hoje — repasse BNDES direto, 0,89% ao mês — contra uma taxa de financeira comum sem esse funding, 2,30% ao mês, dentro da faixa que já mapeei em financiamento solar em maio 2026: CDC bancário comparado em TIR e VPL.
| Cenário | Taxa (a.m.) | Parcela (60x) | Total pago | Juros pagos |
|---|---|---|---|---|
| BNDES direto (melhor taxa do mercado) | 0,89% | R$ 540 | R$ 32.375 | R$ 7.375 |
| CDC financeira comum | 2,30% | R$ 772 | R$ 46.339 | R$ 21.339 |
| Diferença | — | R$ 232/mês | R$ 13.964 | R$ 13.964 |
Quase R$ 14 mil de diferença, no mesmo sistema, pela mesma dívida — só porque uma parcela veio de banco com funding BNDES e a outra veio da financeira que o próprio integrador empurrou no fechamento. Isso não aparece na manchete “Brasil cai pro 5º lugar”, mas é o pedaço da causa macroeconômica que está literalmente dentro do seu controle.
Minha leitura, sem meio-termo
A queda é real e o setor tem razão em se preocupar com fila de conexão e curtailment — isso afeta a velocidade com que o Brasil expande capacidade nova, e é pauta pra ANEEL, não pra você resolver sozinho. Mas ler essa manchete como “não vale mais a pena instalar solar” é o erro que vejo repetido nos comentários toda vez que sai notícia assim. Não vale a pena assinar contrato com integrador sem confirmar a capacidade de conexão da sua distribuidora antes — isso sim é a lição prática. E não vale a pena aceitar a primeira financeira que o vendedor oferecer sem cotar banco com repasse BNDES, porque a diferença de juro, como mostrei acima, é maior que o desconto que qualquer promoção de “kit grátis” costuma dar.
Quem está pesquisando se vale esperar o mercado “normalizar” antes de instalar já tem resposta detalhada aqui: instalar em 2026 ou esperar 2027 — a conta de quem adia por causa do Fio B. Esperar não resolve fila de conexão nem juro alto — só adia o dia em que você para de pagar conta cheia de luz.
Perguntas que valem a pena responder antes de fechar
O motivo da queda foi mesmo a Lei 14.300 e o Fio B? Não como causa principal. A Absolar apontou a negativa de conexão por parte das distribuidoras como fator líder em sistemas pequenos e médios, com o Fio B entrando como um fator adicional, não isolado.
Isso significa que o preço do equipamento vai cair mais se eu esperar? Não há garantia nenhuma nisso. O relatório cita alíquota elevada de imposto de importação e câmbio volátil como parte do problema — dois fatores que empurram custo pra cima, não pra baixo, enquanto durarem.
Como sei se minha distribuidora vai demorar pra conectar o meu sistema? Pergunte ao integrador, antes de assinar, se já existe histórico de recusa por “inversão de fluxo” na sua região. Os prazos e o que fazer se a distribuidora atrasar estão detalhados em este guia sobre conexão e prazo da ANEEL.
Onde o solar ainda paga rápido, apesar da desaceleração do mercado como um todo? O ritmo de instalação nova caiu no país inteiro, mas o payback continua muito desigual por região — cheque o ranking de payback por região com Fio B em 60% antes de assumir que a notícia nacional se aplica igual à sua cidade.
Fontes: Agência iNFRA — Brasil cai para 5º mercado solar do mundo, diz Absolar · Canal Solar — Curtailment e inversão de fluxo fizeram mercado solar retrair 29% em 2025 · Ipesi — Mundo ultrapassa 3 terawatts de energia solar, Brasil registra queda de 23%
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


