Pular para o conteúdo
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Solar Brasil SOLAR BRASIL
Notícias

Bateria solar paga 84,8% de imposto: a proposta da Absolar que pode sair do papel

A Absolar levou 3 frentes pro próximo governo na Intersolar. Refiz a conta de quanto uma bateria de 10 kWh cairia se a equiparação tributária prometida virasse lei — e por que ela é a promessa mais realista das três.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Casa isolada em área rural do Brasil com painéis solares e banco de baterias substituindo gerador a diesel
Casa isolada em área rural do Brasil com painéis solares e banco de baterias substituindo gerador a diesel

Toda vez que uma associação de classe solta “proposta pro próximo governo”, a reação automática de quem cobre esse setor há tempo é a mesma: é powerpoint de lobby que vira gaveta assim que passa a eleição. Eu penso assim também — até parar no número que a Absolar colocou dentro da frente “Bateria Brasil”, na abertura da Intersolar South America, em 25 de agosto: a bateria que guarda a energia do seu sistema solar carrega hoje 84,8% de carga tributária, mais que o dobro dos cerca de 40% que incidem sobre a própria energia renovável gerada pelo painel. Isso não é bastidor regulatório abstrato. É a razão concreta pela qual bateria residencial ainda custa caro demais pra quem mais precisa dela — a comunidade isolada que hoje sustenta a conta trocando diesel por sol.

O que a Absolar apresentou, sem o verniz de evento

Na abertura da Intersolar, no Expo Center Norte (São Paulo), a Absolar detalhou a agenda que pretende entregar ao governo eleito para o período 2027-2030, estruturada em três frentes, segundo apuração do Petronotícias:

  • Bateria Brasil: contratação de no mínimo 8 GW de sistemas de armazenamento em leilões anuais com neutralidade tecnológica, e equiparação da carga tributária da bateria à da energia renovável (hoje 84,8% contra ~40%).
  • Energia que Emprega: 18 GW de expansão em usinas solares de grande porte, mirando R$ 59,4 bilhões em investimento até 2030, com política de estado pra indústria eletrointensiva, data center e hidrogênio verde.
  • Sol para Todos: acesso a energia solar com bateria pra 3 milhões de unidades consumidoras até 2030, sendo 500 mil em sistemas isolados e substituição de 100 mil geradores a diesel por conjuntos solar+bateria.

Bárbara Rubim, presidente do Conselho da Absolar, resumiu a lógica por trás da proposta ao Ipesi: “Precisamos avançar de um modelo em que parte da energia renovável disponível é desperdiçada” para um sistema capaz de armazená-la.

A tese

Das três frentes, a que tem chance real de sair do papel antes de 2030 não é a mais vistosa — não é o pacote de 18 GW em usina grande nem os R$ 59,4 bilhões de investimento industrial. É a combinação Bateria Brasil + Sol para Todos, porque ataca um desperdício que já é consenso técnico mensurado em reais, não uma aposta de mercado que depende de decisão de investidor privado.

Evidência 1 — o desperdício já tem preço, e é alto

Em 2025, o corte de geração renovável (curtailment) representou mais de R$ 6 bilhões em perda econômica no Brasil, segundo o próprio material da Absolar citado pelo Ipesi. Esse número não é novidade pra quem acompanha o setor: já detalhei o mecanismo — Nordeste jogando fora energia solar e eólica por falta de linha de transmissão e de bateria pra segurar o excedente — em quase 3 GW de solar jogados fora e o leilão de baterias que ainda não veio. A diferença agora é que a entidade de classe está usando esse mesmo número pra pressionar o próximo governo a resolver o gargalo pelo lado tributário, não só pelo lado do leilão de reserva de capacidade — que, friso, ainda não saiu do papel pras baterias.

Evidência 2 — Sol para Todos resolve um problema que dá pra medir na conta de luz

A meta de substituir 100 mil geradores a diesel por sistema solar com bateria em áreas isoladas não é retórica de ESG. É competir diretamente com uma tecnologia que, hoje, ainda vence em boa parte dos casos — como mostrei quando recalculei o custo por ciclo de gerador a diesel contra banco de baterias em sítio off-grid: o diesel segue mais barato pra quem usa o sistema poucos dias por semana, justamente porque o banco de baterias carrega um preço inflado pela carga tributária que a própria Absolar está tentando derrubar agora. Baixar o imposto muda a equação dessa conta pra um público que hoje não tem alternativa real de rede — 500 mil unidades em sistema isolado, segundo a meta, moram numa faixa do país onde estender fio de distribuidora custa mais caro que instalar sol e bateria.

Evidência 3 — o que a equiparação tributária faz no preço, refazendo a conta

Aqui está a parte que a Absolar não publicou em número de bolso, e que eu refiz. Uma bateria LFP residencial de 10 kWh custa hoje, em faixa de mercado que já usei em outra análise sobre payback de bateria sem o subsídio que a Austrália tem, algo perto de R$ 16.000 — coerente com os menos de R$ 8.000 que um conjunto de 5 kWh custa hoje no mercado nordestino.

Se a carga tributária cair de 84,8% para os ~40% cobrados sobre energia renovável — tratando os dois percentuais como mark-up tributário sobre o preço sem imposto, do jeito que a própria Absolar apresentou o comparativo — a conta fica assim:

CenárioCarga tributáriaPreço de uma bateria 10 kWh
Hoje84,8%R$ 16.000
Com equiparação (~40%)40%R$ 12.160 (estimado)
Diferença-44,8 p.p.~R$ 3.840 mais barata

Não é desconto que zera o preço, mas é quase R$ 4 mil de folga numa bateria só — o suficiente pra virar payback favorável em casos que hoje ficam na dúvida entre gerador e banco de LFP, exatamente o público que a frente Sol para Todos mira.

O contra-argumento honesto

Antes de comemorar, um detalhe incômodo: a direção contrária já aconteceu — e recentemente. Em maio deste ano, o Gecex elevou de 18% para 25% o imposto de importação sobre baterias LFP de 48V usadas em sistema fotovoltaico de até 4,8 kW, a pedido de fabricante nacional — o movimento exato oposto ao que a Absolar está propondo agora, como detalhei em imposto de bateria LFP 48V sobe de 18% para 25%. Se o histórico recente de decisão tributária pra equipamento solar serve de indicador — e serviu, com o mesmo padrão se repetindo antes com o módulo fotovoltaico em 2024 —, o caminho mais provável não é “reduzir imposto porque uma associação pediu”. É proteção pontual pra fabricante nacional, decidida caso a caso, sem compromisso de queda estrutural.

A proposta também depende de quem ganha a eleição de outubro de 2026 e de quanto espaço fiscal esse governo vai ter em 2027 — ano historicamente apertado pra reforma tributária nova, ainda mais com a Reforma Tributária (IBS/CBS) em transição simultânea. Equiparar carga sobre bateria pode disputar espaço político com outras prioridades fiscais que, na prática, pesam mais no Orçamento.

Onde isso te leva

Se você mora numa área isolada e hoje sustenta gerador a diesel, a proposta da Absolar é sinal de que o setor está mirando exatamente o seu caso — mas não é motivo pra esperar sentado. A conta de hoje, sem subsídio nenhum — diferente da Austrália, que bancou 30% do custo de 400 mil baterias residenciais em dez meses —, já fecha em alguns perfis de uso, como venho detalhando nas análises de payback deste blog. Esperar uma equiparação tributária que depende de eleição e de orçamento apertado é apostar num prazo que ninguém consegue te dar com segurança.

Minha leitura, sem meio-termo: a Absolar tem razão técnica ao mirar a bateria como alavanca pra resolver desperdício e acesso ao mesmo tempo. Mas até essa proposta virar resolução publicada no Diário Oficial — como aconteceu com o aumento de maio, não com nenhuma redução até agora —, ela é intenção de agenda, não fato consumado. Trate como isso: um motivo a mais pra cobrar do próximo governo, não pra adiar decisão de compra.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

Continue lendo · Notícias

Ver tudo →