Enel SP reajustou 9,02% para residências: refiz a conta de quem tem solar na Grande São Paulo
A ANEEL aprovou o reajuste da Enel SP com vigência em 4 de julho. O número que circulou na imprensa não bate com a tabela oficial. Refiz o payback e a fatura de um sistema residencial na Grande SP.
Dois números circularam sobre o mesmo reajuste da Enel em São Paulo: 10,18% e 10,44%. Um deles é a média de todos os consumidores; o outro, ao que tudo indica, não aparece em nenhuma tabela da ANEEL. E o que importa para quem tem painel no telhado é um terceiro número, que quase ninguém destacou.
O que aconteceu
Em 30 de junho de 2026, a diretoria da ANEEL aprovou o reajuste tarifário anual da Enel Distribuição São Paulo, com vigência a partir de 4 de julho. O efeito médio para o consumidor ficou em 10,18%. A distribuidora atende cerca de 8,9 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da Região Metropolitana, segundo o Cenário Energia.
A abertura por classe é a parte que interessa: residenciais (B1) com 9,02%, baixa tensão em média 8,97% e alta tensão em média 15,00%. A alta tensão, onde estão indústrias e grandes comércios, puxa a média para cima. A residência comum fica abaixo do número da manchete.
Uma edição impressa do Correio da Manhã de 3 de julho citou 10,44% para residenciais. Não encontrei esse percentual na abertura publicada pelo Cenário Energia a partir da homologação. Se você leu 10,44% em algum grupo de integrador, desconfie da fonte: a regra vale para a sua simulação, e simulação feita com percentual errado já nasce errada.
As justificativas citadas são custos não gerenciáveis (a chamada Parcela A), ajustes financeiros de períodos anteriores, transmissão mais cara na Rede Básica e encargos setoriais, incluindo subsídios da CDE.
Por que a pergunta do dono de solar é outra
Quem gera a própria energia costuma perguntar “minha conta vai subir?”. A pergunta mais útil é “quanto vale cada kWh que o meu telhado produz agora?”. Porque a economia do sistema é o kWh evitado multiplicado pela tarifa. Tarifa maior significa economia maior, com uma ressalva: a parte da tarifa referente ao Fio B sobre a energia injetada não é coberta pelo crédito. Expliquei a mecânica em TUSD-Fio B: o que é essa cobrança e o calendário em Lei 14.300 explicada.
A conta que refiz
Premissas, todas minhas e declaradas:
- Residência na Grande SP, ligação monofásica, consumo de 500 kWh por mês
- Sistema de 4 kWp com geração de cerca de 5.598 kWh por ano (466 kWh por mês), a mesma premissa de HSP 4,8 e desempenho de 80% do meu texto sobre sensibilidade do payback ao reajuste
- Custo do sistema: R$ 22.000
- Tarifa de referência antes do reajuste: R$ 0,88 por kWh (hipótese de trabalho, sem impostos detalhados)
- Reajuste aplicado: 9,02%, o que leva a tarifa de referência a R$ 0,959 por kWh
- Simplificação assumida: ignoro Fio B e degradação para isolar o efeito do reajuste
| Item | Antes (R$ 0,88) | Depois (R$ 0,959) | Diferença |
|---|---|---|---|
| Fatura sem solar (500 kWh) | R$ 440,00 | R$ 479,70 | +R$ 39,70 por mês |
| Economia do sistema (466 kWh) | R$ 410,08 | R$ 447,05 | +R$ 36,97 por mês |
| Economia por ano | R$ 4.921 | R$ 5.365 | +R$ 444 |
| Payback simples | 4,47 anos | 4,10 anos | 4,5 meses a menos |
Leia a tabela assim: quem não tem solar em Pinheiros ou em Santo André absorveu quase R$ 40 a mais por mês. Quem tem solar absorveu menos de R$ 3 sobre os 30 kWh de custo de disponibilidade, que continuam sendo cobrados mesmo com geração integral (a explicação do custo de disponibilidade está num post à parte). E o investimento ficou 4,5 meses mais perto de se pagar.
Uma opinião: esse é o argumento honesto a favor do solar em tarifa que sobe, e é bem mais forte do que “zere sua conta”. O sistema funciona como um seguro parcial contra reajuste, porque o ganho cresce junto com a tarifa.
O contra-argumento que eu não escondo
Reajuste anual de distribuidora não é uma escada que só sobe. Parte dele vem de componentes financeiros que podem reverter no ano seguinte, e as bandeiras tarifárias oscilam por cima (veja como a bandeira afeta o payback). Projetar 9% ao ano por 25 anos seria o mesmo erro de integrador que eu critico. Quem quer uma simulação robusta deve rodar cenários de 4%, 6% e 8%, como fiz no texto de sensibilidade.
Também não dá para esquecer o Fio B: sobre a energia injetada, o prossumidor paga uma fatia da TUSD que cresce pelo calendário da Lei 14.300. O ganho que calculei acima é um teto, não o valor final.
O que fazer agora
- Pegue sua fatura de julho em diante e confira a tarifa B1 por kWh que a Enel está cobrando. Compare com a de junho.
- Se você já tem solar, não mexa em nada: o reajuste melhora a sua economia. Só confira se os créditos estão sendo abatidos.
- Se está cotando, exija do integrador a premissa de reajuste usada na proposta. Aceite no máximo um cenário conservador e peça o pessimista também.
- Desconfie de percentual que não vem de resolução ou de tabela da ANEEL.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


