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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Enel SP reajustou 9,02% para residências: refiz a conta de quem tem solar na Grande São Paulo

A ANEEL aprovou o reajuste da Enel SP com vigência em 4 de julho. O número que circulou na imprensa não bate com a tabela oficial. Refiz o payback e a fatura de um sistema residencial na Grande SP.

Jhonathan Meireles 4 min de leitura
Medidor de energia na parede de uma casa com painéis solares no telhado em bairro residencial
Medidor de energia na parede de uma casa com painéis solares no telhado em bairro residencial

Dois números circularam sobre o mesmo reajuste da Enel em São Paulo: 10,18% e 10,44%. Um deles é a média de todos os consumidores; o outro, ao que tudo indica, não aparece em nenhuma tabela da ANEEL. E o que importa para quem tem painel no telhado é um terceiro número, que quase ninguém destacou.

O que aconteceu

Em 30 de junho de 2026, a diretoria da ANEEL aprovou o reajuste tarifário anual da Enel Distribuição São Paulo, com vigência a partir de 4 de julho. O efeito médio para o consumidor ficou em 10,18%. A distribuidora atende cerca de 8,9 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da Região Metropolitana, segundo o Cenário Energia.

A abertura por classe é a parte que interessa: residenciais (B1) com 9,02%, baixa tensão em média 8,97% e alta tensão em média 15,00%. A alta tensão, onde estão indústrias e grandes comércios, puxa a média para cima. A residência comum fica abaixo do número da manchete.

Uma edição impressa do Correio da Manhã de 3 de julho citou 10,44% para residenciais. Não encontrei esse percentual na abertura publicada pelo Cenário Energia a partir da homologação. Se você leu 10,44% em algum grupo de integrador, desconfie da fonte: a regra vale para a sua simulação, e simulação feita com percentual errado já nasce errada.

As justificativas citadas são custos não gerenciáveis (a chamada Parcela A), ajustes financeiros de períodos anteriores, transmissão mais cara na Rede Básica e encargos setoriais, incluindo subsídios da CDE.

Por que a pergunta do dono de solar é outra

Quem gera a própria energia costuma perguntar “minha conta vai subir?”. A pergunta mais útil é “quanto vale cada kWh que o meu telhado produz agora?”. Porque a economia do sistema é o kWh evitado multiplicado pela tarifa. Tarifa maior significa economia maior, com uma ressalva: a parte da tarifa referente ao Fio B sobre a energia injetada não é coberta pelo crédito. Expliquei a mecânica em TUSD-Fio B: o que é essa cobrança e o calendário em Lei 14.300 explicada.

A conta que refiz

Premissas, todas minhas e declaradas:

  • Residência na Grande SP, ligação monofásica, consumo de 500 kWh por mês
  • Sistema de 4 kWp com geração de cerca de 5.598 kWh por ano (466 kWh por mês), a mesma premissa de HSP 4,8 e desempenho de 80% do meu texto sobre sensibilidade do payback ao reajuste
  • Custo do sistema: R$ 22.000
  • Tarifa de referência antes do reajuste: R$ 0,88 por kWh (hipótese de trabalho, sem impostos detalhados)
  • Reajuste aplicado: 9,02%, o que leva a tarifa de referência a R$ 0,959 por kWh
  • Simplificação assumida: ignoro Fio B e degradação para isolar o efeito do reajuste
ItemAntes (R$ 0,88)Depois (R$ 0,959)Diferença
Fatura sem solar (500 kWh)R$ 440,00R$ 479,70+R$ 39,70 por mês
Economia do sistema (466 kWh)R$ 410,08R$ 447,05+R$ 36,97 por mês
Economia por anoR$ 4.921R$ 5.365+R$ 444
Payback simples4,47 anos4,10 anos4,5 meses a menos

Leia a tabela assim: quem não tem solar em Pinheiros ou em Santo André absorveu quase R$ 40 a mais por mês. Quem tem solar absorveu menos de R$ 3 sobre os 30 kWh de custo de disponibilidade, que continuam sendo cobrados mesmo com geração integral (a explicação do custo de disponibilidade está num post à parte). E o investimento ficou 4,5 meses mais perto de se pagar.

Uma opinião: esse é o argumento honesto a favor do solar em tarifa que sobe, e é bem mais forte do que “zere sua conta”. O sistema funciona como um seguro parcial contra reajuste, porque o ganho cresce junto com a tarifa.

O contra-argumento que eu não escondo

Reajuste anual de distribuidora não é uma escada que só sobe. Parte dele vem de componentes financeiros que podem reverter no ano seguinte, e as bandeiras tarifárias oscilam por cima (veja como a bandeira afeta o payback). Projetar 9% ao ano por 25 anos seria o mesmo erro de integrador que eu critico. Quem quer uma simulação robusta deve rodar cenários de 4%, 6% e 8%, como fiz no texto de sensibilidade.

Também não dá para esquecer o Fio B: sobre a energia injetada, o prossumidor paga uma fatia da TUSD que cresce pelo calendário da Lei 14.300. O ganho que calculei acima é um teto, não o valor final.

O que fazer agora

  1. Pegue sua fatura de julho em diante e confira a tarifa B1 por kWh que a Enel está cobrando. Compare com a de junho.
  2. Se você já tem solar, não mexa em nada: o reajuste melhora a sua economia. Só confira se os créditos estão sendo abatidos.
  3. Se está cotando, exija do integrador a premissa de reajuste usada na proposta. Aceite no máximo um cenário conservador e peça o pessimista também.
  4. Desconfie de percentual que não vem de resolução ou de tabela da ANEEL.

Fontes

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

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