EDP-ES sobe 7,52%: solar também sente o Fio B mais caro
ANEEL aprovou reajuste de 7,52% na EDP-ES, válido desde 7/8. Veja por que o Fio B não compensado encarece a conta até de quem gera 100% da própria energia.
Um cliente residencial da EDP Espírito Santo com sistema solar instalado em 2024 me escreveu preocupado: “se eu gero toda a energia que consumo, por que a conta ainda vai subir?” A pergunta é boa e a resposta não é óbvia — porque parte da conta de quem tem solar não é coberta pelo crédito, nunca foi, e é justamente essa parte que ficou mais cara.
O que a ANEEL aprovou
A diretoria da ANEEL homologou, em 28 de julho, o reajuste tarifário anual da EDP Espírito Santo. A nova tarifa vale desde 7 de agosto e atinge cerca de 1,82 milhão de unidades consumidoras no estado, segundo nota oficial da agência e cobertura do Canal Solar.
O efeito médio é de 7,52%. Mas o número que interessa pro consumidor residencial é outro: baixa tensão — grupo que inclui casas, comércio pequeno e propriedade rural — sobe 7,11% em média, e a classe residencial especificamente fica em 7,27%. Já a alta tensão, que atende indústria e grande empresa, sobe 8,65%.
A ANEEL atribuiu o reajuste a custos de transporte, distribuição e compra de energia, mais componentes financeiros que serão compensados nos 12 meses seguintes. O índice de 2026 é menor que o ciclo anterior (15,53%), mas o Canal Solar fez a conta que ninguém tinha feito: somando os dois últimos ciclos tarifários, o consumidor da EDP-ES acumula alta superior a 23% na conta de luz. Essa é a 25ª revisão tarifária homologada pela ANEEL só em 2026 — a maioria acima da inflação projetada de 5,1% pro ano.
Por que o Fio B mais caro pesa mesmo pra quem já tem solar
Aqui está o ponto que a maioria dos posts sobre reajuste não menciona: quem tem sistema fotovoltaico não fica imune a esse tipo de aumento, mesmo gerando 100% do que consome.
O crédito de energia solar compensa a Tarifa de Energia (TE) inteira, mas só compensa uma fatia do Fio B — componente da TUSD que remunera a rede de distribuição. Pela Lei 14.300/2022, essa fatia de compensação encolhe todo ano: em 2026, 60% do Fio B já é cobrado à parte, sem entrar na compensação por crédito. Esse percentual está detalhado em Lei 14.300: Fio B chega a 60% em 2026 — quanto pesa na conta.
O problema é que reajuste tarifário não sobe só a TE — sobe o valor por kWh de todos os componentes da tarifa homologada, Fio B incluído. Então mesmo o prossumidor que zera a TE com o próprio sistema continua pagando, sobre 60% do Fio B, um valor que também subiu 7,27% (classe residencial). Some a isso o custo de disponibilidade — a taxa mínima que existe independente de quanto o sistema gera — e o resultado é uma fatia da conta que cresce junto com o reajuste geral, painel ou não.
Não é a mesma dor de quem não tem solar (que sente o aumento na conta inteira), mas também não é zero. E integrador que vende “conta zerada” pra sempre normalmente não menciona essa parcela residual, que só tende a crescer conforme o calendário do Fio B avança — 75% em 2027, 90% em 2028. Compare o efeito região por região em payback solar por distribuidora, que já mostrava esse mesmo sistema pagando em prazos bem diferentes conforme a tarifa local.
O que fazer com isso na sua conta
Primeiro passo, pra quem já é cliente EDP-ES: confira a fatura de agosto e compare o valor da parcela “Fio B não compensado” (às vezes aparece como TUSD-Fio B ou componente financeiro) com a de julho. Se subiu proporcionalmente ao reajuste (~7,27%), está correto — não é erro de faturamento.
Segundo, pra quem está orçando sistema agora no Espírito Santo: o HSP médio do estado gira em torno de 4,9 kWh/m²/dia (CustoSolar, com base no Atlas Solarimétrico/CRESESB) — abaixo da média do Nordeste, mas ainda favorável. Peça pro integrador simular o payback já considerando Fio B a 60% neste ano e a escalada até 100% em 2029, não a tabela antiga de 2023. O guia de como calcular o payback real do solar, passo a passo mostra os erros mais comuns nessa conta.
Terceiro: quem quer entender o cenário nacional de reajustes de 2026 além do ES — Copel subiu 20,51%, CPFL Paulista 12,13%, Enel Rio 15,46% — tem o panorama completo em reajustes de tarifa elétrica em 2026: o que a ANEEL já aprovou e o que muda no payback do seu solar.
Minha leitura: o padrão de 2026 é reajuste dois pontos acima da inflação, ciclo após ciclo. Isso não muda a matemática de instalar solar — ainda compensa na maioria dos estados —, mas muda o argumento de venda de “conta zero pra sempre”. A conta certa é “conta bem menor, com uma fatia residual que sobe junto com a tarifa”. Quem não fala isso pro cliente está vendendo um retrato incompleto.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.


