Pular para o conteúdo
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Solar Brasil SOLAR BRASIL
Notícias

Celesc reajusta a tarifa em 9,32% no dia 22 de agosto. Quem tem solar em SC sente diferente

ANEEL aprova reajuste médio de 11,77% pra Celesc-DIS, com 9,32% pro consumidor residencial a partir de 22/08/2026. Refiz a conta de quem tem e de quem não tem solar em Santa Catarina.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Casa residencial com painéis solares no telhado e medidor de energia em primeiro plano, representando o reajuste tarifário da Celesc em Santa Catarina
Casa residencial com painéis solares no telhado e medidor de energia em primeiro plano, representando o reajuste tarifário da Celesc em Santa Catarina

Dona Marlene mora num sobrado em São José, região metropolitana de Florianópolis, e tem 4,4 kWp de painel no telhado desde 2022. Todo mês ela abre a fatura da Celesc já sabendo o que vai encontrar: pouco mais que a taxa mínima. No dia 22 de agosto isso muda de figura — não porque o sistema dela ficou pior, mas porque a régua que mede quanto vale cada kWh vai ficar mais alta pra todo mundo em Santa Catarina. A pergunta que ela me mandou por e-mail foi direta: “isso é bom ou ruim pra quem já tem solar?” A resposta, como quase tudo em tarifa de energia, é as duas coisas ao mesmo tempo — só que em proporções bem diferentes conforme você tem painel ou não.

O que aconteceu

A ANEEL abriu, em 26 de maio de 2026, consulta pública sobre a Revisão Tarifária Periódica de 2026 da Celesc Distribuição (Celesc-DIS), concessionária que atende cerca de 3,5 milhões de unidades consumidoras em Santa Catarina. A proposta prevê reajuste médio de 11,77% nas tarifas, com audiência pública realizada em 18 de junho em Florianópolis e prazo de contribuições até 13 de julho.

O detalhe que importa pra quem lê fatura, não relatório regulatório: o reajuste não é igual pra todo mundo. Consumidores de alta tensão — indústria e grande comércio — sentem 16,91% em média. Consumidores de baixa tensão, categoria que inclui residência, zona rural, pequeno comércio e pequena indústria (a imensa maioria dos prossumidores com solar residencial), sentem 9,32%. A nova tarifa entra em vigor em 22 de agosto de 2026, substituindo a que está vigente desde agosto de 2025.

Isso não é caso isolado de Santa Catarina — é o padrão de 2026: reajustes tarifários vêm puxando a conta de luz pra cima em praticamente todas as distribuidoras do País, e cada uma tem sua própria data e seu próprio percentual. O que muda de distribuidora pra distribuidora é o tamanho do impacto — e isso já provei recalculando a mesma conta em 5 concessionárias diferentes: tarifa não é detalhe, é a variável que mais pesa no payback depois do preço do kit.

Por que isso importa pra você — mesmo se você não é de SC

Reajuste tarifário parece notícia ruim de qualquer ângulo, mas o efeito é assimétrico entre quem tem solar e quem não tem. Quem não gera a própria energia paga a tarifa cheia sobre tudo que consome — o reajuste bate 100% na conta. Quem tem sistema fotovoltaico já paga tarifa cheia só sobre uma fatia pequena (a parte não compensada, mais o Fio B sobre o excedente injetado), então o mesmo reajuste percentual bate sobre uma base bem menor.

Isso não quer dizer que quem tem solar “ganha” com o reajuste — ninguém ganha pagando mais caro por kWh. Quer dizer que o sistema fotovoltaico funciona, na prática, como um seguro parcial contra esse tipo de aumento. Quanto maior a fração da conta que o sistema já cobre, menor o tamanho da mordida do reajuste no bolso.

O cálculo que eu fiz: quanto isso vale em R$, não só em %

Refiz a conta pra um caso comum na Grande Florianópolis: sistema de 5 kWp, HSP regional de 4,3 kWh/m²/dia (faixa típica pra litoral catarinense, puxada pra baixo pelos meses de inverno — bem abaixo dos 5,5 do Nordeste), instalado por cerca de R$ 22 mil, gerando com fator de performance de 80% (perdas de inversor, cabo, temperatura e sujeira) aproximadamente 520 kWh/mês — o suficiente pra cobrir um consumo residencial médio de 500 kWh/mês nessa região.

Considerando a tarifa residual líquida já com o desconto do Fio B do regime de transição (GD II) — hoje na faixa de R$ 0,70/kWh efetivos sobre a energia compensada, valor que discuti na sensibilidade de payback a 1% de reajuste tarifário — os números ficam assim:

Antes de 22/08Depois de 22/08 (+9,32%)
Tarifa residual líquida (compensação)R$ 0,70/kWhR$ 0,765/kWh
Economia mensal (500 kWh compensados)R$ 350,00R$ 382,50
Economia anualR$ 4.200R$ 4.590
Payback do sistema de R$ 22 mil5,24 anos4,79 anos

O sistema não mudou nada. O payback encurta em cerca de 5,4 meses só porque a tarifa de referência ficou mais cara. Agora compare com quem não tem painel: pagando tarifa cheia (R$ 1,0630/kWh hoje, subindo pra cerca de R$ 1,162/kWh depois do reajuste) sobre os mesmos 500 kWh, a fatura sobe de R$ 531,50 pra R$ 580,90 — R$ 49,40 a mais por mês, R$ 592,80 a mais no ano, sem nenhuma economia compensando do outro lado.

Números ilustrativos — HSP exata do seu telhado, orientação, sombra e tarifa vigente no momento da sua instalação mudam o resultado real. Mas a ordem de grandeza é clara: o mesmo reajuste de 9,32% custa quase R$ 600/ano a mais pra quem não tem solar, e vira quase R$ 400/ano a mais de economia (e payback mais curto) pra quem já tem.

O contra-ponto que preciso admitir

Esse recálculo assume que o sistema está bem dimensionado pro consumo — ou seja, que a família realmente compensa a maior parte do que consome. Sistema subdimensionado (que cobre só metade da conta, por exemplo) sente o reajuste quase como quem não tem solar: a fatia não coberta pelo painel sobe na mesma proporção que a de qualquer consumidor. E sistema superdimensionado, gerando excedente que nem sempre é totalmente aproveitado, tem parte desse ganho diluída — questão que já tratei quando expliquei onde o solar ainda paga rápido por região do Brasil: o Sul não tem o HSP do semiárido nordestino, então cada kWh de crédito perdido pesa proporcionalmente mais no payback catarinense do que num sistema em Petrolina.

O que fazer com isso agora

  1. Se você mora em área Celesc e tem solar, confira sua fatura de setembro (primeira já com tarifa nova) e compare a economia com a de agosto — a diferença deve bater perto do que recalculei acima, ajustado pro seu consumo real.
  2. Se você está orçando sistema agora, não use a tarifa de hoje pra estimar payback de 25 anos — reajustes de 8 a 12% ao ano viraram rotina na maioria das distribuidoras, e ignorar isso faz o integrador parecer mais otimista do que a conta real permite.
  3. Se seu sistema está subdimensionado, esse é o argumento financeiro concreto pra reavaliar ampliação: o reajuste amplia a diferença entre quem cobre bem o consumo e quem cobre pela metade.
  4. Se você não tem solar e mora na área da Celesc, a conta de R$ 49,40/mês a mais (pros 500 kWh do exemplo) é o número que vale levar pro orçamento pra comparar com uma cotação de sistema — não o discurso do vendedor.

A tarifa vai subir em Santa Catarina, isso já está decidido. O que muda de família pra família é quanto essa alta pesa — e isso depende menos de sorte e mais de ter, ou não, feito a conta certa antes.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300. Editor do Solar Brasil.

Continue lendo · Notícias

Ver tudo →