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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Grupo A ou Grupo B? Por que essa classificação decide se o solar compensa no seu comércio em 2026

Padaria, oficina e clínica que crescem acabam migrando de Grupo B para Grupo A e descobrem tarde que a conta de luz passa a ter demanda contratada — que o solar não abate. Entenda os dois grupos, o que o painel compensa em cada um e onde a maioria erra a conta.

Bruno Aragão 8 min de leitura
Telhado de prédio comercial com painéis solares e medidor de energia trifásico, representando a diferença entre Grupo A e Grupo B tarifário
Telhado de prédio comercial com painéis solares e medidor de energia trifásico, representando a diferença entre Grupo A e Grupo B tarifário

Uma padaria em Goiânia cresceu, comprou um forno turbo novo e três balcões refrigerados. A conta de luz saltou de R$ 2.100 para R$ 4.800 num mês. O dono ligou para o integrador com a pergunta certa — “quanto de painel resolve isso?” — e recebeu a resposta errada. Meses depois, com o sistema instalado e a conta ainda em R$ 1.900, ele descobriu o que ninguém tinha explicado: a distribuidora o tinha reclassificado para Grupo A, a conta agora cobra demanda contratada, e demanda contratada o painel não abate. Nenhum kWh de sol resolve aquela linha.

A versão de 30 segundos

Toda unidade consumidora no Brasil está em um de dois grupos tarifários. Grupo B é baixa tensão (a casa, o comércio pequeno) — a conta cobra basicamente energia consumida (kWh) mais impostos. Grupo A é alta/média tensão (indústria, comércio médio e grande) — a conta cobra energia (kWh) e também demanda contratada (kW), que é a potência que você reserva com a distribuidora, use ou não.

O ponto que muda tudo para quem vai instalar solar: o painel abate energia (kWh), mas não abate demanda (kW). No Grupo B, energia é quase toda a conta, então o solar morde forte. No Grupo A, uma fatia relevante da fatura é demanda — e essa fatia continua lá mesmo com o telhado cheio de módulos. Confundir os dois é o erro número um de quem dimensiona solar comercial de olho fechado.

Conceito 1 — Grupo B: onde o solar rende mais por real investido

Grupo B é onde mora a esmagadora maioria dos prossumidores: residências, salões, escritórios, comércios de bairro. A conexão é em baixa tensão (127/220/380 V) e a conta se resume, na prática, a consumo em kWh + tributos + custo de disponibilidade.

O custo de disponibilidade é a única parcela fixa relevante aqui — aquela taxa mínima de 30, 50 ou 100 kWh (monofásico, bifásico, trifásico) que você paga mesmo gerando o mês inteiro. Já expliquei em detalhe por que a conta de quem tem solar nunca chega a zero por causa do custo de disponibilidade, e ele é justamente o piso da economia no Grupo B.

Fora esse piso, é tudo energia. Um sistema bem dimensionado no Grupo B abate 90% a 95% da conta. Por isso o payback residencial e de comércio pequeno é o mais atraente do país — o solar ataca quase 100% do que você paga.

Dentro do Grupo B ainda existe a opção da tarifa horária branca, que muda o preço do kWh conforme o horário. Se ela combina ou não com quem gera solar é uma conta à parte — cobri isso em tarifa branca vale a pena para quem tem solar. Para o comércio Grupo B convencional, o que importa é: energia é o inimigo, e o painel é a resposta quase completa.

Conceito 2 — Grupo A: a demanda contratada que o sol não toca

Quando a carga instalada cresce e o fornecimento passa a média/alta tensão, a distribuidora enquadra o imóvel no Grupo A. A conta ganha uma segunda dimensão: além de pagar pela energia consumida (kWh), você passa a pagar pela demanda contratada — a potência em kW que você combina de ter disponível.

Pense na demanda como o “cano” da instalação. Você reserva um cano de 100 kW com a distribuidora; ela mantém a estrutura pronta para entregar isso a qualquer momento. Você paga por esse cano reservado todo mês, mesmo que num mês use só 60 kW. E se ultrapassar o contratado, leva multa de ultrapassagem — que pode dobrar o valor daquela parcela.

Aqui está o nó do solar: demanda é potência instantânea, não energia acumulada. O painel injeta energia ao longo do dia e gera crédito de kWh. Mas no fim de tarde, quando o sol cai e a demanda de pico do seu comércio acontece (freezers, ar-condicionado, iluminação todos ligados), o painel não está mais produzindo — e é esse instante que define a demanda faturada. O solar não reduz o pico. Logo, não reduz a demanda contratada.

O Grupo A ainda se subdivide em modalidades tarifárias com preços diferentes por horário. Na tarifa horária verde, a demanda tem um valor único, mas a energia no horário de ponta (o fim de tarde, tipicamente das 18h às 21h) é muito mais cara. Na tarifa horária azul, tanto a demanda quanto a energia têm preços separados para ponta e fora-ponta. Em ambas, o horário de ponta cai justamente quando o painel já parou — o que reduz o poder de abatimento do solar sobre a parte mais cara da conta.

Conceito 3 — A conta que separa os dois mundos (meu cálculo)

Refiz a conta de um caso típico para mostrar o tamanho da diferença. Peguei um comércio médio com consumo de 8.000 kWh/mês e demanda de pico de 60 kW, e comparei o mesmo negócio faturado no Grupo B (hipótese, antes de crescer) e no Grupo A verde (depois de crescer), com um sistema solar que zera a energia mensal.

ItemGrupo B (antes)Grupo A verde (depois)
Energia (8.000 kWh)~R$ 6.400~R$ 5.200 (fora-ponta) + ponta
Demanda contratada (60 kW)Não existe~R$ 1.200 a R$ 1.500
O que o solar abate~95% da contasó a energia, não a demanda
Conta residual com solar cheioR$ 100 a R$ 300R$ 1.400 a R$ 2.000

Os números são ilustrativos e mudam por distribuidora, mas o padrão é sólido: no Grupo B o solar leva a conta para perto de zero; no Grupo A ele bate num piso de demanda que nenhum módulo derruba. Para o mesmo investimento em painéis, o percentual de economia despenca quando o negócio está no Grupo A — e é por isso que o payback de solar comercial em alta tensão precisa ser calculado com a demanda separada da energia, nunca sobre o valor total da fatura. Integrador que promete “economia de 90% na conta” para cliente Grupo A está olhando só metade do problema.

Vale um cruzamento importante: o limite entre microgeração e minigeração (75 kWp) muitas vezes coincide com o momento em que o negócio vira Grupo A, e cada lado tem regras próprias de conexão. Detalhei essa fronteira em microgeração vs minigeração distribuída e o limite de 75 kWp — vale ler antes de fechar um projeto comercial de porte.

O que fazer se você está no Grupo A (ou vai migrar)

O solar continua valendo a pena no Grupo A — só não pelo mesmo motivo do Grupo B. A estratégia muda:

  1. Dimensione pelo consumo de energia, não pela conta total. Peça a simulação separando kWh de kW. Se o integrador não souber fazer isso, procure outro.
  2. Ataque a demanda por outro caminho. Solar não reduz demanda; gestão de carga e bateria, sim. Descarregar bateria no pico de fim de tarde reduz a demanda faturada — uma tese financeira que o Grupo A tem e o Grupo B raramente tem.
  3. Revise a demanda contratada. Muitos comércios pagam por uma demanda maior do que usam. Um estudo de demanda pode cortar a parcela fixa — economia que independe do solar.
  4. Considere ficar no Grupo B se der. Em casos de fronteira, dá para permanecer em baixa tensão ajustando a carga. Antes de aceitar a migração, faça a conta dos dois cenários.

Para entender de onde vem cada centavo dessa fatura mais complexa, o passo a passo de como ler a fatura de energia com solar linha por linha ajuda a identificar exatamente onde a demanda aparece — porque no Grupo A ela vem numa linha separada que muita gente nem repara.

Onde isso falha

Este é um mapa, não um projeto. Três limites honestos:

A classificação nem sempre é opção sua. Acima de certos limites de carga, o Grupo A é obrigatório — não dá para “escolher” ficar no Grupo B só porque o solar rende mais lá.

Os números do meu cálculo são ilustrativos. Tarifa de energia, valor da demanda e o peso da ponta variam entre distribuidoras e entre as modalidades verde e azul. A lógica (solar abate energia, não demanda) é universal; os reais, não.

A tarifa muda todo ano. O reajuste anual mexe na tarifa de energia e na de demanda, e desloca o payback de qualquer projeto comercial — como mostrei em o reajuste da tarifa de energia em 2026 e o impacto no solar. Solar comercial se recalcula a cada ciclo tarifário, não uma vez só.

O resumo que eu daria para o dono da padaria de Goiânia, se ele tivesse ligado antes: o solar era um ótimo negócio para o consumo dele — mas comprado com a conta certa, ele teria sabido que aquela linha de demanda ia continuar na fatura, e teria colocado a bateria e o estudo de demanda no mesmo orçamento. Grupo A não desqualifica o solar. Só exige que você faça a conta inteira, não metade dela.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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